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11/11/2019

Idealismo e utopia


St. Thomas More orandoUma pessoa “idealista” é um “utópico”? No senso comum, há algo de verdade nisso. Mas no campo filósofo, é necessário distinções.

Na filosofia um idealista é alguém integrado na doutrina do idealismo. Nos termos da teoria do conhecimento (epistemologia), trata-se daquele que diz que nosso saber ou é ideia ou vem sob o comando ou controle de ideias, ou seja, concepções formuladas intelectualmente no aparato mental. Nos termos da teoria do ser (ontologia) um idealista é quem entende que tudo que existe é da ordem da ideia, do pensamento, ou seja, funciona como funciona o pensamento.

Resumindo ao máximo: o idealista em teoria do conhecimento pode ser um adepto do filósofo alemão Immanuel Kant e o idealista em teoria do ser seria um adepto do filósofo alemão G. F. Hegel.

Um utópico pode ser idealista ou não. A palavra “utopia” quer dizer “lugar nenhum”. Portanto, o utópico é aquele que está voltado para a defesa de uma vida social ou coisa parecida que não existe e que talvez nem possa existir. Nesse caso, não necessariamente se falando em disciplinas internas da filosofia, como epistemologia ou ontologia, mas em um tipo de filosofia – a filosofia social.

No entanto, é possível também falar de utopia no contexto de uma disciplina da filosofia, especificamente a ética e/ou a filosofia política. As utopias clássicas (como a própria obra A Utopia, de Thomas Morus) são textos que mostram uma sociedade não existente em lugar algum, e que pelos seus detalhes muito provavelmente nunca será possível de ser construída. Os filósofos assim agiram como que usando de um procedimento negativo para promover a crítica: desenha-se a chamada sociedade perfeita, em detalhes, e então, com esse modelo em mão, é possível fustigar o existente e aperfeiçoá-lo na direção da utopia, mesmo sabendo que nunca ela nunca será realizada.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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28 Responses “Idealismo e utopia”

  1. João Pedro
    06/10/2014 at 18:16

    Professor, na faculdade e mesmo na escola, quando estuda-se o Capitalismo sabe-se, claramente, que o capitalismo é uma idealidade. Inclusive, em curso de Economia, fala-se em “concorrência perfeita”, o que, sobretudo numa sociedade Cristã, deixa claro que é um tipo particular de concorrência impossível de se traduzir na realidade. No entanto, o que os adeptos do Capitalismo propõe é uma aproximação, no limite, da sociedade em relação á essas idealidades.

    A utopia socialista pode ser encarada nos mesmos termos? Por outras palavras, eu posso afirmar que a utopia é uma idealidade que jamais se confirmará na realidade, mas que nós devemos buscar uma aproximação, no limite do real, em relação à ela?

    • 06/10/2014 at 18:51

      João Pedro há o capitalismo e o capitalismo. É como física: há a física da terra e há a física dos físicos. Os modelos são sempre ligados ao caso “CNTP”, mas isso não quer dizer que eles não sejam modelos de algo que existe. A gravidade com a qual lidamos no cálculo é uma, a da vida é outra. Mas isso não quer dizer que não vamos chamar de gravidade aquela que está nos puxando prá baixo, e só a dos livros. Assim é o capitalismo. Há vários modelos sobre ele, mas ele próprio, o que vivemos, não precisa receber outro nome e nem precisa ser dito não existente. Agora, socialismo comunismo são outra coisa.

  2. Gabriel
    15/09/2014 at 15:47

    O que é o espírito absoluto de Hegel e como este conceito se relaciona com sua dialética ?

    • 15/09/2014 at 19:19

      O espírito subjetivo é o homem, o espírito objetivo é a cultura materializada, o espírito absoluto é o espírito, ou seja, o todo espiritual, mas no caso do Hegel, também o todo enquanto todo mesmo, uma vez que há uma holismo em Hegel:o universo funciona aos moldes do pensamento. Pense em algo como uma “mente cósmica”. A dialética é o processo de funcionamento do universo, a própria ontologia, a própria maneira que o espírito faz sua caminhada.

    • Gabriel
      16/09/2014 at 13:59

      É correto afirmar portanto que esta dialética(sob a qual a história funciona segundo Hegel) é um processo racional e lógico?

  3. Catacumbas do Oriente
    14/11/2013 at 00:54

    Antropologia, meu caro, não é só proselitismo não, rs. Antes fosse, vc não leu a bíblia e tudo que envolve o mundo judaico-cristão? Pois é, sempre existiu mais gente do outro lado que do lado de cá do planeta. Por incrível que pareça, comecei a gostar de filosofia a partir do Oriente para o Ocidente. Império Bizantino, Otomano, Gupta, Máuria, Nanda, os Persas, os mongóis, os Vikings, as escrituras Vedas, Três Reinos da Coreia( Silla E Balhae ), China e Japão imperiais e suas dinastias, a Manchúria e toda aquela região do “Círculo de Fogo”… É indispensável p/ entender sobre a organização daquelas civilizações, os maiores conflitos regionais que eclodiram dali; o pensamento e a filosofia, principalmente no contexto das duas grades guerras.

    • 14/11/2013 at 12:49

      Catacumbas, siga em frente. Não tenho competência para tal. Cada um no seu quadrado. Terça próxima (12), no Hora da Coruja, vai um historiador para conversar sobre Islamismo.

  4. Catacumbas do Oriente
    13/11/2013 at 00:23

    Na boa? Por nunca vi qualquer texto seu sobre a filosofia oriental? Será que tu não andou por essas bandas, nunca procurou a respeito de pensadores indianos, chineses, japoneses, coreanos? Zoroastrismo, Taoismo, Jainismo, Confucionismo, Taoismo, Hinduísmo… Viveu só na américa-europa?

    Nadinha de Zhuangzi, Sun Tzu, Ghandi, Saburo Sakai, nada de Bushido, nem o clássico de Eiji Yoshikawa (MUSASHI)???
    MEU DEUS!!!

    • 13/11/2013 at 02:18

      Meu caro, se você quer Deus e filosofia oriental, vá em frente. Mas aqui há um mínimo de respeito ao saber. Filosofia não é uma questão de viajar e fazer turismo.

  5. Mario Luis
    06/11/2013 at 00:59

    Penso que não há consenso, na Filosofia, quanto à avaliação da “utopia” (lembremos que se trata originalmente de uma ilha na obra de Thomas Moore), quer seja no campo da literatura ou em outro âmbito…Pode ser concebida como suporte de alta contestação, mediante uma teoria crítica da sociedade (como em Horkheimer ou Marcuse)e é o que vemos como utopia. Mas, há quem entenda utopia -e acredito que o autor a ela se aproxima- na medida em que a concebe como motor de transformação, cujo empuxo proporciona o alcance de novos paradigmas…De toda sorte, a confusão criada em torno do termo é próprio de pensamento pós-moderno, na medida em que nele se desfaz a crença do horizonte perdido:”ninguém vai a lugar algum”. Paulo, ainda bem que tu estás aí, nesse teu incansável desbanilizador do banal.
    abraços.

    • 06/11/2013 at 01:08

      Mario Luis, não acho que o pensamento pós-moderno faz confusão disso.

  6. 02/11/2013 at 12:47

    Caro Paulo:

    Será sempre bem aplicado o termo utopia quando, por força de nossa imaginação concebemos uma teoria ou um plano desejável, impossível de realização. Este é o caso de J. Rawls, quando imagina uma sociedade justa, que reflita princípios éticos e valores morais que a realidade não pratica e que aos homens não convém, não cabendo portanto no mundo possível por mais que a desejamos, mas que é possível em lugar nenhum.

    F.R.

    • 02/11/2013 at 13:40

      Rocha! NÃO! Não em filosofia. Seria um erro achar que Rawls construiu uma utopia. Ele não aceitaria. E Morus, vivendo hoje, menos ainda. Não pode cometer esse erro não. OK?

  7. Yuri
    01/11/2013 at 15:56

    Utopia é tanto um modelo que não pode ser alcançado, que as tentativas de reprodução de utopias mostraram-se muito mal sucedidas -verdadeiros desastres-, como a tentativa de estabelecer a Nova Icária, nos Estados Unidos, no século XIX (https://www.google.com.br/#q=icaria+utopia).

    • 01/11/2013 at 16:29

      Yuri, utopia não é um modelo, utopia é uma situação criada que não pode ser realizada. Nenhum utópico era tonto. Acho que você não leu um utopia ainda. Leia e veja como é engraçado, completamente doida, e sendo o autor nada doido, ele não escreveu aquilo para ser realizado. Entende? Só o Pondé acha que utopia é para ser alcançada!

  8. Orivaldo
    01/11/2013 at 13:47

    Uma teoria não pode ser utópica?

    • 01/11/2013 at 15:19

      Orivaldo, uma teoria é uma teoria, uma utopia é uma utopia. Uma teoria utópica é algo meio tolo. Entende? Pelo artigo, não dá para ver que utopia e teoria são coisas diferentes? A teoria de Rawls e a Utopia de Tomas Morus – consegue entender isso?

  9. MARCELO CIOTI
    01/11/2013 at 10:42

    Pois é,Paulo.Enquanto criticam os black blocs porque são baderneiros,os
    vereadores de SP aprovaram na calada da noite aquele aumento cavalar
    do IPTU pedido pelo Haddad.Lembrei daqueles artigos que você escrevia
    no teu site sobre como foi o Haddad como Ministro da Educação.

  10. 01/11/2013 at 08:17

    Paulo, um exemplo valioso dessa utopia pode ser encontrada na obra A theory of justice de John Rawls, quando propôs a concepção de uma sociedade sob o véu da ignorância.

    Abraços
    F.R

    • 01/11/2013 at 09:02

      Creio que não, Rocha, ali é teoria, não utopia. OK?

  11. Danilo Henrique
    31/10/2013 at 15:58

    Neste contexto é que penso Marx como utopia

    Quando Marx tenta aproximar a doutrina idealista de Hegel para uma “finalidade” social ele acaba “quebrando” o movimento proposto na dialética!

    Através de uma análise (até que muito bem formulada) do capitalismo ele constrói suas teorias como antítese do mesmo e especula como síntese o socialismo!

    Em sua antítese Marx foi até que bem perspicaz, o problema todo é que na prática seu socialismo, sua síntese, é impossível!

    Não passa de utopia!

    Essa é a brecha que a fenomenologia hegeliana deixa:
    Uma especulação da síntese sem uma efetividade prática pode se tornar uma mera utopia, pois por não passar de um “modelo mental” jamais poderá ser efetivada!

    Daí pergunto: Na prática, qual a diferença entre um modelo mental e uma opinião?

    Ouso dizer que efetivamente sejam a mesma coisa!

    Talvez isso seja certo pragmatismo! Mas ouso dizer que qualquer tentativa de idealismo aplicado ao social sem pragmatismo é potencialmente uma utopia!

    Até aí, nada demais…o ruim é quando levam a utopia a sério…

    Aí fodeu!

    • 01/11/2013 at 09:14

      Danilo, sinceramente: talvez Marx seja melhor lido com menos dialética. Essa coisa de ver a obra de um pensador com algo unificado, toda certinha … Nem Hegel que fez um sistema que teria de ser assim conseguiu expor o sistema assim.

    • Danilo Henrique
      01/11/2013 at 10:52

      Bem, isso é mesmo, até porque ninguém consegue escrever tudo “certinho”…O Hegel mesmo é confuso pra cacete, até começar a entender o que o cara quer falar, ele se enrola todo, justamente por tentar unificar as coisas.

      Isso que eu proponho seria mais uma maneira de demonstrar que algumas ideias acabam sendo apenas “ideias”, sem nunca serem “materializáveis”.

      Tem muita gente que acaba confundindo as coisas com a dialética e acha que toda ideia é possível. Como se a apreensão da consciência fosse perfeita e conseguisse expressar exatamente o que o mundo é

      Isso acaba sendo um certo idealismo radical e acaba perdendo o sentido do negócio todo!

      Enfim, aquele seu artigo de ler Marx e Nietzsche de um jeito mais “light” acaba sendo uma boa ideia para isso

      Se não o idealismo pode virar “utopia”

    • 01/11/2013 at 15:20

      Não é ler “light”, mas é ler com mais profundidade, não como quem quer encontrar um “esquema dialético”.

  12. Orivaldo
    31/10/2013 at 15:03

    A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.
    “Eduardo Galeano”

    • 01/11/2013 at 09:19

      Não, certamente a utopia NÃO é para isso, não nos clássicos. Ela não se afasta. Esse é o problema, ela fica no lugar de sempre, sempre criticando. Pois ela NÃO é para ser alcançada. Ela é uma crítica, mas não um modelo.

  13. MARCELO CIOTI
    31/10/2013 at 14:59

    PG,você falou no post anterior sobre Mel Gibson e seu filme Coração
    Valente,que mostrava a luta dos escoceses por sua independência.No ano
    que vem,haverá um referendo pra decidir se a Escócia se separa da
    Grã-Bretanha ou não.Fico só imaginando uma embaixada da Escócia
    aqui no Brasil.

    • 01/11/2013 at 09:19

      Marcelo, de onde você tirou essa de Coração Valente?

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