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27/06/2017

Síndrome de Ícaro na sociedade da abundância


A questão levantada por Max Horkheimer nos anos quarenta era a de que não havia como aceitar a irracionalidade de nossa situação. A humanidade estaria já de posse de condições técnicas para não viver sob a guilhotina da pobreza (e de vários males), e, no entanto, não adotava medidas que pudessem ver nossa vida melhorada senão para todos, ao menos para muita gente.

Essa observação de Horkheimer fez eco nos anos posteriores. Quanto mais ela correu de ouvido em ouvido em ouvido, criou condições para que o Maio de 68 fosse uma tentativa de por o sonho nas mãos de mais gente do que até então. Todavia, ao mesmo tempo, foi se transformando numa verdade menor. Hoje, essa questão de Horkheimer não tem mais validade global, não no seu sentido inicial. Vivemos em um mundo que, quando comparado a todas as outras épocas, cumpre o desiderato do homem que, tendo vindo pelo conforto, riqueza e luxo, assim quer continuar e já o faz. Antropologicamente o homem é fruto do luxo. Ele é o ser com mais riqueza que todos os outros, e só conseguiu ser assim à medida que foi gerado pela neotecnia associado ao isolamento em invernadas. Ele é o ser que, agora, vive num mundo que é o da “sociedade da abundância”.

Abundância e, portanto, leveza. Nossa sociedade é a sociedade da leveza. Em nossa sociedade, pela primeira vez, a desoneração se fez em alta escala, gerando uma imensa classe média. No mundo todo, hoje, as mulheres estão mais livres da natureza na sua articulação com a gravidez, todos estão mais livres do trabalho pesado ou mesmo de qualquer trabalho, todos estão mais jovens e até a diferença entre país e filhos caiu. Nenhuma outra época veio se parecer tanto com o paraíso do útero quanto a nossa. Somos aqueles que, desde poucos anos antes de Revolução Francesa, quebramos a gravidade e subimos aos céus em balões. Esse movimento para cima, para o alto, para curtir a leveza, é um movimento geral, em todos os sentidos. Estamos nele. E justamente essa tendência antigravitacional crescente, em alguns momentos, nos causa espanto. E, infelizmente, não é o espanto da filosofia, aclamado por Sócrates. É o espanto da reação.

Trata-se da Síndrome de Ícaro. Podemos voar mais longe, mas alguns acham que nossas asas vão ser derretidas e iremos despencar. Nossa sociedade se enche então de intelectuais que competem histéricos, em jornais, para serem os guardiões do “princípio de realidade” (Freud). Eles atuam reacionariamente: “não voe”. Quando estão à direita, louvam a disciplina. Quando estão à esquerda, louvam a pobreza.

Se o homem não tem disciplina, se perde. Cai em sonhos, sai do real. Vira o nada. Assim diz a direita. Se o homem não é visto na sua condição de pobreza, não é visto de modo real, então nos afastamos de qualquer narrativa verdadeira. Assim diz a esquerda. Nos dois casos, a ideia é a de que não devemos voar. O movimento de leveza, inerente à nossa sociedade, tem de ser cerceado. Pois ser leve é ser alguém não sério. Vivemos sob a insustentável leveza do ser. Temos de re-onerar os homens, pois eles estão se transformando em balões de gás e estão sem controle, a esmo, curtido as alturas. É o rompimento definitivo com a doutrina do peso do Pecado Original. Não pode! Assim gritam os arautos do aviso de Dédalo. Eles não são propriamente os censores, uma figura já decadente. Eles são os incentivadores do frenesi.

Somos então os homens e mulheres das imensas mobilizações de uma seriedade recriada ou de uma necessidade que não é necessária. Aliás, em nossa época, a liberdade muda de rosto. Ela deixa de ser a necessidade compreendida, de Hegel e Marx, para ser a necessidade posta por nós mesmos à medida que percebemos que não temos mais nenhuma necessidade, que vivemos ao leu. No limite, a imensa classe média do mundo, em termos de mentalidade, inclusive, já é o maior grupo social, e está faz tempo longe do reino da necessidade necessária.

Poderíamos começar uma nova era, mas, a insustentável leveza do ser é efetivamente insustentável. Começamos então uma imensa simbiose entre o lúdico e o trabalho, pois o sério e o não sério efetivamente são forças vigentes. Eis o mundo do ativismo social, do desporto, da competição sexual, da volta de fundamentalismos com terrorismo ou não, das levas de escritos seríssimos de auto ajuda e filosofia pop, posições blasé aprendidas em “Casas do Saber”, igrejas de todo tipo, até de filósofos, etc. Tudo que pode repor algum peso, alguma âncora, é acionado. Uma boa parte dos intelectuais vem para auxiliar em alguma reposição de peso. Na nossa época de leveza engordamos e somos pesados, e então, temos o tempo do mundo para sofrer em academias, repondo uma vida com algo duro d fazer, algo sério, a atividade regrada para … sermos leves. Alguma coisa tem de nos devolver à realidade, e esta, sempre temos considerado como sendo não leve.

Também no plano da reflexão, do conhecimento e no âmbito epistemológico, a leveza se fez sentir. A maioria das reflexões nos levam a aceitar a razão autocrítica como razão irônica. Ou seja, somos os que dizemos que não há mais nenhuma metanarrativa para aglutinar as narrativas da ciência, do senso comum, da arte etc., e que também essa fala que diz não há metanarrativas não pode ser ela própria uma metanarrativa, ainda que, para que exista algum sentido no que falamos, tenhamos de aceitá-la como metanarrativa. Então, somos uma época tão leve que a noção de real e verdadeiro é apenas um dispositivo de ilusão aceitável para casos temporários, regionais. Há aí uma ontologia regional e momentânea.

Luhmann fala, nesse caso, de um trabalho de terapia: tomamos uma esquema como real para que possamos operar, mas não podemos tomá-lo como real em si, para além dos condicionamentos de sua região de uso. Desse modo, temos um esquema para falar de economia ou de pedagogia, de religião ou de ciências, e dentro de cada esquema definimos um ser e um não-ser, uma realidade. São ficções que se tornam não-ficções na medida em que se mostram como ontologias regionais. Com isso, sofremos menos. Assim fazendo, nossa conversação se torna talvez possível e, enfim, nossa dor de perda da realidade menor.

O que Luhmann tematiza na sociologia, que é a razão autocrítica como razão irônica, é o que Rorty tematiza na filosofia. Somos intelectuais ironistas, não há como não ser. Essa é função dos “últimos homens” (levando em conta a filosofia da história de Nietzsche). Por sua vez, o que Sloterdijk faz é tomar tudo isso como sintoma do tempo, como o que a filosofia relata ao captar o tempo em pensamento, que é a própria função da filosofia, ao menos na conta de Hegel. O mundo leve tem filosofias e sociologias leves, é o que mostra Peter Sloterdijk. Mas, para cada leveza, há sempre a reposição da Síndrome de Ícaro.

Parece que nossa tarefa é a de um início de diálogo com Dédalo. Mas já não seria esse diálogo, também ele, uma tentativa de seriedade forçada?

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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5 Responses “Síndrome de Ícaro na sociedade da abundância”

  1. Maximiliano Paim
    24/11/2015 at 21:47

    Boa noite, professor. É possível também a relação entre a recolocação do peso com a ideologia da humildade?

    • 25/11/2015 at 00:03

      Sim, Paim, o peso é a culpa. A ideologia da humildade lida com isso.

    • Maximiliano Paim
      25/11/2015 at 10:44

      Em contra partida, proliferam as terapias místicas com suas levezas instantâneas.

  2. Max
    23/11/2015 at 16:40

    Este texto nos leva a uma dicotomia .

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