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15/07/2018

Humor político, que chato!


A estupidez mora na casa do humor político

Humor político não é coisa de gente inteligente. Aliás, nada há de mais “pseudo” que aquele cara que diz “fulano de tal faz humor inteligente”. A expressão “humor inteligente” faz doer os tímpanos, especialmente se se refere a humor político. A conclusão de que o humor é político ou tem de ser político se inscreve no interior da mais energúmena frase de todos os tempos: “tudo é político”.

A política tem a ver inicialmente com a administração da cidade, na vida antiga, e com as questões do poder substantivo (não necessariamente com o poder verbo) na vida moderna. O humor não necessariamente tem a ver com a administração da cidade e muito menos com o poder substantivo. O jovem que acha isso é aquele que foi criado por um pai que nunca riu. Trata-se daquele pai que ficou obedecendo a risada gravada que o acionava para abrir a boca, pensando estar rindo, quando Chico Anísio fazia tipos, não humor.

Um cachorro encontra outro e ambos cheiram o ânus um do outro. Na legenda do cartum está escrito: “temos mesmo que fazer isso?”. É um cartum de um jornal americano. Isso é humor. Fala da administração da cidade? Não! Fala do poder substantivo? Não? Tem algo a ver com política? Ora bolas! Tem a ver com a capacidade dos cachorros de pensarem: “maldito instinto”. Elevar isso a uma relação política, uma relação administrativa, uma relação de poder, é forçar demais. É querer fazer a frase “tudo é político” valer a qualquer preço. É ridículo. Denota um cabeça de bagre.

A charge não é humor. Nem a criação de tipos em stand up é humor. Podem fazer rir? Sim! Mas a função aí não é fazer rir, mas antes de tudo entreter e dar recado. Nesse sentido, podem dar recados políticos, podem falar da administração da cidade ou do poder substantivo. Muitos cartunistas são também chargistas e fazem desenhos que nos dizem muito, ainda que seja uma mentira que um desenho valha por mil palavras. Muito comediante sabe fazer stand up. E ambos os casos, não raro, o conteúdo é político. Mas o humor é bem mais amplo que esse mundo. Querer fazer com que exista uma mensagem política “por trás” é coisa não de humorista, não de cartunista, não do bom artista, mas de um tipo de aluninho de Ciências Sociais de esquerda e, agora, segundo a nova raça de jovens, de direita (embora este último ainda esteja mais para o curso de Direito).

Mafalda é idolatrada por apresentar conteúdo político. Mas nem sempre ela fala disso e oFunny-dog-cartoon-convert-to-dog-years melhor do Quino está na sua produção que não inclui Mafalda. O diabinho entra em casa após uma viagem e vai colocar o tridente e seu chapéu no chapeleiro, ao lado da porta, nota então que pendurado no porta chapéu há uma auréola. Lá na cama está o anjinho dormindo com a diaba. Isso é um cartum do Quino. Isso é humor. Isso não diz respeito à administração da cidade ou ao poder substantivo.

Para dizer que o humor é político há de se traduzir a palavra político por “relações humanas”. Então, tudo que envolve relações humanas envolve poder e sendo o poder substantivo aquele poder de caráter político, então tudo é político. Ora, com esse tipo de raciocínio eu transformo tudo na mesma coisa, a linguagem inteira é sugada por um buraco negro da semântica. Qual a vantagem em fazer isso? Nenhuma. Menos distinção é menos discernimento e, portanto, mais burrice.

Bem, não quero mais ouvir gente de esquerda e direita (aliás, como há tolo para gostar de política e só falar de política heim?) dizendo que humor é necessariamente político. Nem quero ouvir mais que humor bom é político. E “humor inteligente” é uma expressão burra. “Tudo é político” também.

Millôr Fernandes disse certa vez que entre o riso e a lágrima há somente o nariz. Talvez isso, que efetivamente deveria distinguir bem o riso, acaba confundindo aqueles que não sabendo cheirar por não terem nariz, fundem riso e lágrima. Lágrima é política. Riso não.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, professor da UFRRJ, diretor do Cefa, Centro de Estudos em Filosofia Americana. Autor do recente A filosofia como crítica da cultura (Cortez).

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5 Responses “Humor político, que chato!”

  1. LMC
    04/02/2015 at 10:54

    Que ironia do destino…..há
    30 anos atrás,o Tim Tones
    que o Chico Anysio fazia,
    hoje é atualíssima!Esses
    pastores evanjegues
    tomaram conta do rádio
    e da TV.E são iguaizinhos
    a ele.

    • LMC
      05/02/2015 at 11:00

      Mas como o Chico veio do
      Nordeste,nunca vão dar
      valor pro personagem
      que ele fez.Os comediantes
      de hoje,foram criados
      na Zona Sul carioca a
      base de Toddynho.

    • 05/02/2015 at 23:23

      Chico era chato e deram valor até demais.

    • LMC
      06/02/2015 at 10:36

      Mas o Tim Tones é
      igualzinho aos Edires
      Macedos e Malafaias
      de hoje em dia,sem
      tirar nem por.

    • 06/02/2015 at 14:42

      LMC eu não entendo nada do que você diz, suas ligações e comentários às vezes não dizem respeito aos textos.

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