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16/11/2018

Hume, o bibliotecário incendiário, o ego desinflado


[Artigo para o público acadêmico]

Hume foi filósofo e trabalhou como bibliotecário. Que se saiba, não jogou livros fora ou os colocou em fogueiras. Mas deixou um escrito espantoso, ao menos para anti-nazistas e bibliotecários. Ele disse que muitos livros, especialmente os de metafísica e teologia, deveriam ir para as chamas.

A fúria incendiária de Hume tinha uma justificativa bem clara, vinda de sua consideração sobre o que é o conhecimento. Analisando nossos enunciados ou, melhor dizendo, proposições, que em geral são tomados como um saber, dado sua disposição do tipo “ S é p”, o filósofo britânico expôs três grupos. As proposições foram separadas por ele em analíticas, sintéticas e as que caberiam na caixa dos nonsense. Uma verdade analítica é aquela em que o predicado nada acrescenta de informação que já não esteja contida no sujeito. Por exemplo, que 3+5=8. Se “três mais cinco é oito”, o oito nada diz a mais do que já sabemos com três mais cinco. O mesmo ocorre com “As gêmeas são irmãs”. Gêmeas já trazem a informação de que são irmãs. Uma proposição sintética, por sua vez, é aquela em que o predicado diz do sujeito algo que não está nele implícito. Digo “Pedro é negro”. Pedro é um amigo meu, realmente negro. Mas nem todo Pedro é negro, e o enunciado traz uma informação sobre Pedro que de modo algum está contida em seu nome. As verdades empíricas, das ciências empíricas, diferente das verdades, por exemplo, matemáticas, não são tautologias, e são elas que fazem a ciência avançar. Ora, por definição a metafísica não trata da relações matemáticas e nem de “questões de fato”, da empiria, então Hume não exitou em colocá-las sob  a rubrica do nonsense ou meramente sofístico. Seria um alívio para as estantes e um horror somente para os ácaros se tais livros pudessem ir para a fogueira.

Hume renovou o ceticismo.  A sua conclusão a respeito do conhecimento humano o fez elaborar a seguinte proposta:  o nonsense é posto no lixo e as verdades analíticas nos dão informação que já possuímos, então o que nos resta é a construção do conhecimento vindo da empiria, que é sempre contingente. Nesse caso, teríamos de notar o conhecimento empírico, e ao menos nos certificarmos, mesmo, para casos específicos e a respeito de proposições particulares, se elas são ou não alimentadas por algum dado sensível.

Ora, um tal procedimento, uma vez aplicado à ideia de eu, trouxe a Hume uma conclusão que, antes dele, havia estado nas mãos de Pascal, ainda que por outras vias. Tomando a ideia de eu, o conceito de eu, qual seria o dado sensível a ele correspondente? Falamos que um eu sente dor, calor, esclarecimento, amor, ódio. Mas tudo isso não forma uma alma cartesiana, uma res cogitans. O o que chamamos de eu nada é senão um “feixe ou uma coleção de percepções diferentes”; forma-se aí um fluxo perpétuo e contínuo, e não uma substância. Essa transformação contradiz a própria noção de substância, que precisa guardar, principalmente, uma homogeneidade.

As propostas de Pascal e Hume podem ser brevemente comparadas, de modo a elucidar uma ideia de eu que não deixou de ser levada em conta, depois, por Kant.

O que Pascal fez é simples de entender. Ele abstraiu elementos do corpo e da alma, como beleza ou memória, mostrando-os contingentes e mutáveis, para revelar então que o eu, sem suas qualidades, não subsistiria como o que podemos amar. Em seus Pensamentos, suas duas perguntas revelam todo o seu intento: (…) como amar o corpo ou a alma, senão por essas qualidades, que não são o que faz o eu, de vez que são perecíveis? Com efeito, amaríamos a substância da alma de uma pessoa abstratamente, e algumas qualidade que nela existissem?[1]

Sua conclusão foi a de que isso não seria possível, e fosse, não passaria de uma grande injustiça. Então, retirando a conversa do plano metafísico, ele a concluiu em um plano moral e social, de valores: “que não se zombe mais, pois, dos que se fazem homenagear por seus cargos e funções, porquanto só se ama alguém por qualidades de empréstimo”.[2]

Mutatis Mutandis Hume fez o mesmo. Ele zombou dos filósofos que imaginavam estar a todo o momento “intimamente conscientes daquilo que denominamos eu”. Colocou em cheque a identidade substancial, implícita na ideia de eu. Em seu Tratado da natureza humana, ele afirmou que “toda ideia real deve ser sempre derivada de uma impressão” mas o “eu ou pessoa não é uma impressão, e sim aquilo a que nossas ideias e impressões supostamente se referem” Então, “se alguma impressão dá origem à ideia de eu, essa impressão tem de continuar invariavelmente a mesma ao longo de todo o curso de nossas vidas – pois é dessa maneira que o eu supostamente existe”. Ora, concluiu ele: “não há qualquer impressão constante e invariável”. E zombeteiramente advertiu: “quanto mais penetro intimamente naquilo que denomino meu eu, sempre deparo com uma ou outra percepção particular, de calor ou frio, luz ou sombra, amor ou ódio, dor ou prazer”. “Nunca apreendo a mim mesmo, e pode-se dizer verdadeiramente que não existo”. Terminou esse raciocínio de modo irônico e hilariante: “À parte alguns metafísicos dessa espécie [que acreditam no eu], (…) os demais homens não são senão um feixe ou uma coleção de diferentes impressões (…)”.[3]

Hume não só queria botar fogo nos livros que ajudava a guardar, mas também desejava que o ego do bibliotecário (afinal, filósofo) também fosse menos inflado substancialmente!

Paulo Ghiraldelli Jr, 61, filósofo.

[1] Pascal, B. 323 – O que é o eu? Pensamentos. In: Pascal. Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 117

[2] Idem, ibidem.

[3] Hume, D. Tratado da Natureza Humana. São Paulo: Ed. Unesp/Imprensa Oficial do Estado, 2000, Livro I, Parte IV, Seção VI, § 1-6.

3 Responses “Hume, o bibliotecário incendiário, o ego desinflado”

  1. Eduardo Rocha
    28/08/2018 at 19:47

    Paulo ainda não consegui entender uma coisa. Como surgiu a linguagem? Se olharmos primatas e depois o sapiens como foi possível algum dia alguém dizer “eu quero”, “eu posso”, “eu vou”, “eu amo”? E vou mais além, como eu escutaria eu mesmo sem a própria linguagem estabelecida? Se o “eu é, digamos, “oco” e lhe falta substância como chegaríamos à autoconsciência? Não seria mais fácil pensar que algo que é “oco” poderia se voltar e se fechar em si mesmo com algum tipo de força, tração, energia, movimento ou vibração? Algo nesse “eu” deve estar acontecendo. Algum tipo de experiência, sensação, movimentação, mudança, inquietação. Ele não poderia guardar e trazer para consigo o seu ser-adentro-contido? O “eu” deveria para sair de si mesmo e se substancializar ou ser inicialmente dessubstancializado para depois ganhar substância, mas não algo completamente vazio inicialmente, mas algo que está em uma transição em si mesmo, digamos, um eu que está querendo, em transcurso de se querer subjetivar. Uma tomada de consciência de si mesmo como o ponto central da subjetividade.

  2. anabella freire cavalcanti
    27/08/2018 at 23:17

    ah! desculpe-me, professor!… é que sou uma jovem iniciante em filosofia e anida me acho perdidinha nos obscuros labirintos das ideiasfilosóficas. portanto, perdoe-me, mais uma vez, se fujo ao assunto principal do seu artigo sobre o finado dvid hume. apenas gostaria que o senhor me dissesse, por gentileza, se leu a obra do historiador israelense yval noa harari, vencedora do prêmio pulitzer, “sapiens> uma breve história da humanidade”.um abraço, mestre!

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