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18/11/2017

Heterossexuais e homossexuais estão no fim


As pessoas que se acham heterossexuais, não raro imaginam que uma tal denominação ou sempre existiu ou é muito velha. As pessoas que se acham homossexuais, muitas vezes querem mostrar que o que fazem sempre existiu, raramente se lembrando das palavras atinentes aos comportamentos. Em geral, a maior parte desconhece que os termos “heterossexual” e “homossexual”, na acepção atual, são muito novos.

No mundo americano, “homossexuality” começou a aparecer no começo do século XX, como um termo médico, sendo uma palavra tomada nos dicionários como “paixão sexual mórbida por alguém do mesmo sexo”. Uma década depois é que os dicionários incluíram então “heterossexuality”. O termo também veio do campo médico, e igualmente como uma doença: “paixão sexual mórbida por alguém do sexo oposto”. Quando veio à tona o relatório Kinsey, então se começou a falar em homossexualidade e heterossexualidade como algo que deveria ser visto em termos de graus. Ninguém seria só uma coisa ou outra, mas sempre um ponto em uma reta contínua com polos “homo” e “hétero”. Uma tal conclusão, no entanto, apenas cristalizou a divisão entre homossexualidade e heterossexualidade, com todas as implicações sociais que se seguiram.

Hoje, com o “casamento gay” legalizado nos Estados Unidos, há quem pense que foi uma vitória dos homossexuais e, alguns, mais conservadores, acham que foi um derrota dos heterossexuais. Ambos estão errados. Os termos “homossexual” e “heterossexual” já estão mudando e talvez percam o significado e até desapareçam. Os casais comemorando a nova lei diante da Casa Branca já davam mostras disso. Quem observou atentamente o panorama das comemorações, certamente viu o quanto a ideia de “gay” e “não-gay” pouco significava. As pessoas estão fisicamente muito diferentes, em todos os aspectos, e seus gostos e comportamentos ditos sexuais, mais ainda. É difícil acreditar que haverá até o final do século algum heterossexual ou mesmo homossexual. A definição dos humanos como aqueles que, se forem ter ligação sexual, poderão tê-las com muitas e diversificadas pessoas e outras coisas, é que vencerá. Nessa hora, então, a identidade sexual não terá mais nada a dizer, nada a nomear. Isso ocorrerá mais depressa do que se imagina.

O sexo reprodutivo irá se deslocar do sexo de uma maneira muito mais radical que agora. As endorfinizações não-sexuais poderão substituir as sexuais ou transformarem estas de modo incrível, tornando-as irreconhecíveis para nós, os do mundo de hoje. Os apetites sexuais poderão ou não ter caráter erótico, e se tiverem, eles serão desenvolvidos vitualmente ou fisicamente, com uma gama enorme de variantes intermediárias entre o virtual e o não-virtual. Da cama-apaixonada à cama-lúdica passando pelos encontros virtuais e até mesmo imaginários, todos estaremos no círculo do prazer segundo fórmulas que farão nossos netos não terem ideia a respeito do que estávamos falando quando da “liberação do casamento gay”. Não entenderão nada.

Se olharmos para os últimos cinquenta anos do mundo do cinema, TV e agora internet, veremos que a travesti como composição corporal, ou o close de genitais que nem são genitais e, enfim, também a coelhinha do Pernalonga, são os objetos aclamados de desejo sexual. Isso sem contar que os ingleses revelaram ter sonhos sexuais com a rainha, na idade atual dela! O mundo da imagem requer nova semântica dicionarizável. Os comportamentos pedem reificações mais ecléticas. Os amores de pessoas por pessoas se tornam e se tornaram ainda mais deslizantes. Vivemos a transição da sociedade deserotizada porém sexualizada para a sociedade unicamente endorfinada, com o que restar para tal. Tudo isso será muito rápido, pois já está acontecendo. Os filósofos irão escrever sobre isso bem mais tarde. Pois a filosofia é a Coruja de Minerva, ela nunca chega antes, só ao entardecer. O que eu fiz aqui é apenas o pio da coruja não o voo.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador (Cortez, 2015).

PS: Toda minoria cuja identidade não é adquirida só positivamente, mas negativamente, como o caso de negros e gays, tem entre seus indivíduos gente que passou e passa os diabos de sofrimento. Então, a sensibilidade dessas pessoas é acentuada. Algumas pessoas do grupo GLBTT me criticaram pelo uso de “o travesti” no texto, queriam “a travesti”. Mas vejam, eu procurei me adaptar ao uso gramatical, nesse caso, fui pelo hábito, induzido CORRETAMENTE pela regra:

Segundo os dicionários Aurélio, Michaellis e Houaiss, travesti é um substantivo comum de dois gêneros, ou seja, a definição do gênero ocorre pela alternância do determinante: o travesti e atravesti, significando:

  • 1-  Indivíduo que, geralmente em espetáculos teatrais, se traja com roupas do sexo oposto;
  • 2 – Homossexual que se veste e que se conduz como se fosse do sexo oposto.

Deve ser usado, portanto, para homens ou para mulheres. Se o indivíduo (travesti) for do sexo masculino, usa-se o travesti; se for do sexo feminino, a travesti.

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8 Responses “Heterossexuais e homossexuais estão no fim”

  1. Rafael José Caruccio
    02/07/2015 at 16:40

    Caro Professor Ghiraldelli. Eu entendi perfeitamente seu exercício intelectual, e pode até ser plausível. No entanto, eu lembrei, sobre geopolítica, o que se dizia nos anos 80, que o Japão iria engolir o mundo. Ou, por volta de 2008 e 2009 (através principalmente do sociólogo Giovanni Arrighi), que o eixo econômico mundial iria se deslocar para a China, e hoje já se sabe que a Índia irá incomodar a China. Além disto, Europa e EUA voltarão a fabricar bugigangas de 1,99. O que parece, baseado naquelas previsões, é que elas em geral dão errado.
    Com toda a liberação sexual do pós-68, não creio que temos menos heterossexuais do que na Grécia antiga.
    Mas valeu a sua reflexão.
    Até mais.

    • ghiraldelli
      02/07/2015 at 16:44

      Rafael eu não fiz uma previsão, eu descrevi um quadro semântico atual. Pode parecer estranho a você, mas é que o meu serviço profissional, filósofo, obriga a isso. A mudança semântica está andando, está presente. “Sou uma pessoa que gosta de pessoas” é uma fala mundial já entre os jovens no Ocidente.
      Sobre o Japão, você não viu, não observou, mas o Japão engoliu o mundo sim. Colocou em segundo lugar a indústria maior americana depois da indústria de guerra, que é a de automóvel. Sem contar a indústria de fibra ótica e de cobertura de mídia.

    • Rafael José Caruccio
      02/07/2015 at 16:46

      Tá certo. Obrigado pela resposta.

    • Rafael José Caruccio
      02/07/2015 at 16:50

      Ah sim. Claro, no sentido da linguagem, ambas as palavras (hétero ou homossexual) deixarão de ser significantes, restando apenas o significado objetivo, quem sabe. Acho que agora captei, lendo com mais calma.

  2. Lindenberg Filho
    02/07/2015 at 08:48

    Não sou filósofo mas me sinto na obrigação de comentar. O texto, enquanto leitura do mundo hoje e sua descrição, é bacana. No entanto, penso que filosofia não é descrição, mas aponta para diversos lugares em que ética, moral, transcendentalidade, ontologia e outras estruturas profundas do pensamento se mostram presentes. Sinceramente, como cristão que sou, bem como com a sensibilidade para tratar do tema de identidade de gênero que “acho” que tenho, o que posso dizer é que vivemos numa sociedade sem referente, ou seja, uma sociedade que cabe tudo e que tudo lhe cabe. Não sei se o poder das “minorias” e se a lógica de tratar os diferentes diferentes para que se sintam iguais trará uma sociedade mais fraterna, justa e pacífica no futuro. O discurso sobre identidade de gênero, bem como sobre a discriminação étnica e racial, vem tomando contornos “positivados” que não se pode discordar, como se estivéssemos tratando de um argumento polarizado. Ou seja, se discordo das quotas para negros sou um elitista branco, se discordo do casamento gay sou homofóbico, se concordo com a redução da maioridade penal quero prender adolescentes. A vida não é preto no branco, é cinza (não em cinquenta tons apenas). Será que todos aqueles(as) que se consideram homossexual concordam com o discurso homossexual que tem inflamado a sociedade? Será que todos os heterossexuais discordam do mesmo discurso? Qual o papel dos meios de comunicação neste discurso (tv, rádio, internet, igrejas, universidades etc.)?

    Penso que daqui a alguns anos ser branco, classe média alta ou rico, estudar em escola privada, ter plano de saúde, ser casado(a) com alguém do sexo oposto (trato sexo como macho e fêmea fisicamente) será a minoria e, assim, um ciclo de direitos voltará a ocorrer!

    E agora, até que ponto as decisões atuais estão sendo promotoras de pensar os direitos sociais como pêndulo, atendendo momentaneamente os argumentos políticos do hoje em detrimento de pensar o futuro? Lembremo-nos, como nos disse Einstein, “pensar está para os homens assim como voar está para os pássaros”.

    • ghiraldelli
      02/07/2015 at 11:37

      O termo descrição aparece como termo técnico no meu texto, no sentido usado atualmente, em especial por Donalda Davidson. Vá se acostumando, verá em outros autores (Rorty) se continuar a ler filosofia. OK? Obrigado.

  3. medusa_byron
    29/06/2015 at 09:07

    olá, muito gostei da imagem (escultura) que ilustra este texto. Qual o nome da obra e do artista? Obrigada

    • claudio dionisi
      03/07/2015 at 16:25

      Olá. Também tive curiosidade. É uma maçã e uma cobra. Muito sugestivo tanto na forma como na ideia.

      Apple by Dutch sculptress Elisabeth Stienstra.
      http://www.elisabetstienstra.com/

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