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11/12/2018

Hobsbawm esbarra em Darwin e Nietzsche


Criticar o um clássico não é recomendável. Não raro, os jactanciosos que criticam não sabem o que é a vergonha. Caso soubessem, não o fariam. Todavia, apontar questões que merecem reflexão, não é propriamente uma crítica à obra como um todo. Minhas observações aqui a Hobsbawm são pontuais e, penso, pertinentes. Dizem respeito à visão dele sobre Nietzsche.

Vontade de potência é um conceito nietzschiano. Darwinismo social é uma noção sociológica. O casamento das duas é possível, mas necessariamente o filho gerado é um híbrido, um tipo de mentalidade popular, aliás, pouco versada em Nietzsche ou Darwin. Isso ocorreu?

Pode-se dizer que, na esteira da transição do século XIX para o XX, a idéia de grupos e pessoas competindo segundo o lema “que vença o mais forte” ou “o mais adaptado” entrou nas cabeças de vários socialistas que, diferente de Marx, nunca leram direito Darwin e, então, chamaram isso de “darwinismo social”, contra o qual tinham de lutar. Era mais ou menos como hoje, quando uma esquerda pouco letrada acusa tudo que não é a sua própria doutrina de “globalização” e “neoliberalismo”. Muitas vezes, parte dessa esquerda não sabe bem o que está falando ao pronunciar esses termos, mas, enfim, acredita que aquilo que não é “socialismo” é alguma coisa tão ruim quanto o que se chamava de “imperialismo”, num passado não muito distante. Esse tipo de amálgama de idéias, não raro, move grandes grupos e partidos. Até aí, nada com o que se possa espantar.

O problema desses amálgamas populares é quando eles caem nas mãos dos historiadores ou, mais exatamente, quando ludibriam esses profissionais. Principalmente aqueles historiadores que, uma vez engajados demais em doutrinas, acabam por aceitar acriticamente o que é contado pelos seus objetos de estudo. Tenho a impressão que a ansiedade de Hobsbawn em produzir uma história engajada, o traiu em alguns momentos. Em relação à sua leitura de Nietzsche e Darwin, penso que ele tomou um trança-pés de sua própria doutrina.

Na página 351 de A era dos impérios, ele diz que Nietzsche, apesar de ser cético em relação à ciência,

“seus próprios escritos, e notadamente seu trabalho mais importante, A vontade de poder, podem ser lidos como uma variante do darwinismo social, um discurso desenvolvido com a linguagem da ‘seleção natural’, neste caso uma seleção destinada a produzir nova raça dos ‘super homens’, que iria dominar os humanos inferiores como o homem, na natureza, domina e explora a criação bruta”. (1)

O parágrafo de Hobsbawm, citado acima, contém tantos erros quanto o número de afirmações. Primeiro: Vontade de poder seria o livro mais importante de Nietzsche? Justamente o livro manipulado pela irmã de Nietzsche! Segundo: os escritos de Nietzsche possuem uma doutrina da vinda dos super-homens como dominadores e exploradores do homem, como o homem faz com o animal? Terceiro: Nietzsche usa da linguagem do “darwinismo social” e da “seleção natural”?

As três perguntas podem ser respondidas com três sonoros “não”.  As primeiras duas questões já foram exaustivamente corrigidas por vários scholars, em diversas oportunidades. É estranho que Hobsbawm tenha se mantido surdo com o que já se fez nessa área. Aliás, é difícil encontrar alguém que leu Nietzsche com certo cuidado, ainda usar de “super-homem” para Übermensch. A opção por “além do homem” é a melhor fórmula. E menos ainda há quem fale em “raça de super homens”. Nietzsche nunca imaginou o Übermench como uma situação sociológica e muito menos o descreveu como uma utopia ou como algum projeto em relação ao qual ele teria algo positivo para dizer. Aliás, parece que Hobsbawm confunde um dos tipos de Nietzsche, o tipo “forte” ou “saudável” com o Übermench.

Bem, então, sobrou a questão de Nietzsche e sua relação com o darwinismo social. Este é o ponto a que me dedico abaixo.

Se Hobsbawn está dizendo que leitores de Nietzsche o entenderam de maneira tosca e o assimilaram ao discurso do darwinismo social, pode-se perdoar o historiador inglês. Todavia, quando lemos mais de uma vez o trecho que citei, vemos que ele não está falando isso. Ele compromete o próprio Nietzsche com o vocabulário da teoria da seleção dos mais fortes (é um erro comum isso de se imputar a um autor o que seus adeptos fazem! Às vezes há algo implícito na teoria original que permite o desvio, mas nem sempre!).

Há em Nietzsche algo próximo de Darwin, isso é correto. Darwin e Nietzsche usam o conceito de luta. Todavia, no darwinismo a luta pela vida se faz em função da conservação da espécie. Nietzsche traz a luta para o interior do organismo individual, considerando todo o corpo como um conjunto de quase seres vivos. Além disso, não é a conservação da espécie ou do indivíduo que se põe como motor da luta, em geral enfatizada em uma situação de carência. Em busca da construção da noção de vontade de potência, ele se põe contra a idéia de vida enquanto aquilo que seria conduzido em função da preservação. Para Nietzsche, a vida é exuberância e, portanto, a luta se faz sem qualquer perspectiva de autoconservação. O que parece mais forte pode, exatamente por isso, não se preservar e, sim, sucumbir. Uma célula que tem mais chances que outras de abraçar uma gota de água pode conseguir o alimento em excesso e, então, vir a explodir .

Aliás, diga-se de passagem, talvez Nietzsche seja uma voz quase única ao não dar nenhuma função digna à autoconservação.

Se por um dia fosse verdade – o que de fato não é – que Nietzsche pudesse ter dito que haveria uma nova raça, mais forte, dominando a mais fraca, por conta de algo como a “seleção natural” do darwinismo social, isso já estaria solapado pelas suas próprias noções de vontade de potência e de vida. O darwinismo social está associado a um melhoramento da espécie por conta de que a luta termina por gerar o que seriam aqueles que, principalmente em situação de desconforto, se saíram melhor em função de fazer a espécie não sucumbir. A vontade de potência e a vida, às vezes tomadas por Nietzsche como sinônimas, vão na direção oposta disso: são bem menos teleológicas que o fio condutor da preservação da espécie, da ideia de melhoria da espécie medida em função da capacidade de sobrevivência.

Aliás, é preciso notar, também, que Darwin e o darwinismo social não possuem tantas coisas em comum quanto à primeira vista pode parecer. Darwin fez uma bela teoria, mas o darwinismo social nunca deixou de ser apenas ideologia. Nietzsche não quis fazer teoria ou ideologia. Ele estava preocupado em fazer filosofia. Mas, seu objetivo nunca deixou de ser peculiar, especial, no sentido de não repetir o modo tradicional de ser filosofar, o modo que ele identificou como sendo o do platonismo. Nietzsche não queria repetir a metafísica, e sim romper com ela. Há scholars, com os quais eu tendo a concordar (2), que dizem que o que ele queria fazer, mesmo, era uma cosmologogia. Para inovar, Nietzsche teria imaginado voltar para antes de Sócrates e, então, recriar de um modo novo o que havia sido posto de lado pelo socratismo.

Pode-se dar um chute nessa cosmologia de Nietzsche. Pode-se dizer que ela, tanto quanto o darwinismo social, nunca deixaram de ser devaneios típicos do final do século XIX. Mas, o que não de pode fazer de modo algum, é dizer que Nietzsche, já maduro, escreveu coisas na linha do darwinismo social. Hobsbawn escutou demais os socialistas do século XIX e, em vez de contar a história deles, contou a história que eles lhe contaram. Tropeçou não como filósofo, que nunca foi. Tropeçou como historiador. E isso é significativo, pois não é o tropeço de um anão.

(1) Hobsbawm, E. A era dos impérios. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.

(2) Sugestão de leitura: Marton, S. Nietzsche – das forças cósmicas aos valores humanos. São Paulo: Brasiliense, 1990.

(*) Agradeço os leitores de meus livros e os que acompanham meu trabalho, que apontaram o Hobsbawm e sua visão de Nietzsche como merecendo um reparo.

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10 Responses “Hobsbawm esbarra em Darwin e Nietzsche”

  1. mauricio lemos izolan
    24/11/2016 at 11:18

    Esse termo “darwinismo social” mostra que a concepção hegeliana da história pela esquerda não entenda a concepção dialógica do pensamento não sintético da dialética que vem da tragédia grega em Nietzsche. Hobsbawn, grandioso em suas análises históricas, fala coisas controversas inclusive sobre a arte do século XX, pois o Modernismo não foi para as massas e não tem a vocação palatável de outros momentos como o Romantismo. Nem por isso é reacionário.

    • 24/11/2016 at 11:44

      Izolan, use vírgulas, tente formular as coisas de modo claro. Sobre alguém ser reacionário ou não, no caso, pouco importa.

  2. RodTakira
    07/05/2015 at 11:03

    Embora saiba que isso tem importância virtualmente nula no contexto, creio que a escrita correta seja Übermensch, e não Übermench.

    • ghiraldelli
      07/05/2015 at 11:40

      RodTakira se você não corrigisse eu jamais iria voltar para corrigir. Obrigado!

  3. Dalai Lama
    28/04/2015 at 17:56

    No livro “Além do bem e do mal” Nietzsche explica a origem da sua ideia de “vontade de potência”. Segundo ele, formulou o conceito amparado na biologia, onde se constata, cientificamente, que todo organismo não quer apenas se preservar, mas expandir-se, dominar. A partir daí, creio que é mais realista afirmar que a filosofia de Nietzsche flerta com a teoria da evolução do que transformar as noções do filosofo de “forte” e “fraco” em um mero jogo semântico, uma narrativa lúdica. Nietzsche é um filosofo duro, movido por uma altivez e orgulho que o conduz a desprezar impiedosamente como algo inútil aqueles que ele define como os fracos, os estropiados, os inferiores, os esfarrapados. Tentar tornar Nietzsche algo diferente disso é tentar tornar-lo mais palatável. Creio que ele mesmo repudiaria tal leitura.

    • ghiraldelli
      29/04/2015 at 05:37

      Você não entendeu nem Nietzsche e nem Darwin. E pior, não entendeu o artigo! Putz! Comece tudo de novo.

  4. Usp10
    27/04/2015 at 16:11

    Ótimo texto!

  5. João Pedro
    27/04/2015 at 16:09

    Adorei o texto!

  6. Cesar Marques
    26/04/2015 at 15:53

    “É estranho que Hobsbawm tenha se mantido surdo com o
    que já se fez nessa área. Aliás, é difícil encontrar alguém que leu Nietzsche com certo cuidado, ainda usar de “super-homem” para Übermench. A opção por “além do homem” é a melhor fórmula.”

    Não sei por que seria estranho uma pessoa não versada em
    Filosofia e que escreveu o que o senhor está apontando nos anos 80, fazer tal confusão com o conceito Nietzschiano de Übermench, se a uns três anos atrás o Japinha do CPM 22 (que é formado em Filosofia) foi ao Hora da Coruja com uma camisa preta com o emblema do Super-Homem para homenagear (segundo ele disse no programa) o filósofo Nietzsche (fazendo clara associação do termo Super-Homem com o Übermench). Além disso, um filósofo profissional como o Cortella cometeu o mesmo equívoco a uns 4 anos atrás quando foi ao Jô Soares. Acho que o Hobsbawm merece ser perdoado.

    Professor, o que o senhor acha do Dicionário do
    Pensamento Marxista escrito pelo Sociólogo inglês Thomas Bottomore? É interessante ou doutrinário demais?

    • ghiraldelli
      26/04/2015 at 17:35

      Obviamente que a questão do texto NÃO é a se usar ou não “super homem”. Meu Deus!

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