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28/04/2017

Hiperatividade


Descartes deu um passo decisivo para a medicina ao criar a doutrina das três substâncias, a divina, a que tem extensão e a que é somente pensamento. Com isso, separou o corpo da alma e de Deus, colocando-o na mesa do anatomista. A Igreja não concordou muito com isso. Mas, às escondidas, o próprio Descartes iniciou atividades de dissecação do corpo humano. Essa linha materialista nunca se afastou do Iluminismo.

Assim, duzentos anos depois de Descartes, quando a psicanálise deu seus passos iniciais, o médico Freud não deixou de lembrar que tudo aquilo que ele fazia, usando da linguagem e da folk psychology, um dia iria ser terreno para a química. Freud nunca deixou de ser um profundo cartesiano. Dito e feito. O século XX viu acontecer o que Freud disse. Ao lado da onda de terapias baseadas na linguagem, cresceu a indústria química das patologias psíquicas e também a intervenção operatória cerebral. As patologias que nasceram psíquicas ganharam alguma conotação “neural” ou “cerebral” ou “física” ao longo do século XX.

Mas há uma doença dessa leva que fez o trajeto contrário. Nasceu “física” para ganhar conotações especificamente “psicológicas” e, de certo modo, “sociais”. Trata-se da hiperatividade. Quando surgiu diagnosticada, no início do século XX, era algo associado ao campo da lesão cerebral. Depois se tornou uma patologia não mais necessariamente associada a uma lesão e, por fim, sem deixar de ser uma anomalia, ganhou tons de normalidade ao passar a compor o universo de atuação da psicopedagogia. É um problema que atinge as crianças, na maioria dos casos. Seu nome foi ampliado: hiperatividade e déficit de atenção. Hoje em dia, como já disse, quando uma mãe tem sua atenção chamada para tal coisa, ela escuta dos especialistas um discurso semitranquilizador: “John Lennon e o nadador Phelps são casos de hiperatividade e déficit de atenção, ou seja, seu filho é ainda doente, mas não necessariamente será um fracassado”.

No limite, hoje, o hiperativo pode ser tomado como uma pessoa quase igual às outras, não diagnosticadas com tal patologia. É que sua agitação não o faz não aprender, mas o faz ter seu aprendizado voltado para um tipo de aprendizado que, enfim, é o de nossa época. Ele aprende por imagens, processa informações de vários tipos, é antes de tudo meio que desconexo quanto ao aprendizado tradicional, baseado na concentração da leitura e no cultivo da subjetividade dita moderna, a interiorização. Assim, um hiperativo hoje pode muito bem ser um executivo empresarial. Caso precise buscar algo “dentro de si”, algo mais subjetivo de modo a se desinibir para passar da teoria à prática – com deve fazer o sujeito moderno –, pode recorrer a um consultor. De resto, dado o aumento do tempo livre e o cultivo do divertimento, em que o trabalho também adquiriu feições lúdicas e imediatistas, o hiperativo não se vê mais num mundo estranho. É bem mais fácil os não hiperativos, hoje em dia, se pegarem num mundo estranho. Aliás, é significativo, também, que outros casos patológicos tenham agora espaço para o sucesso. Messi tem um grau alto de autismo, e isso não o atrapalha no que faz, ao contrário, isso o ajuda em muito. Ele é relativamente hiperativo de um lado e concentrado no outro. Messi sim é o ser humano do futuro, não Madona, como nos pareceu nos anos oitenta.

O século XX começou com todos dizendo que a educação burguesa tradicional, baseada na psicopedagogia de Herbart, não deveria mais ser usada. Não eram os conceitos que funcionavam como o carro chefe da aprendizagem, mas sim as motivações e interesses que dirigiam os conceitos e, portanto, a aprendizagem. Desse modo, a escola deveria ser “ativa”. Dewey deveria destituir Herbart do trono. Pedia-se atividade e ela realmente veio. Veio como hiperatividade. E o mundo ajustou as coisas, mantendo a hiperatividade como patologia, mas fazendo tudo em volta requisitar algum nível de vida patológico. Estamos em casa novamente.

Essa tese sobrevive quando abrigada pela tese da sociedade da leveza de Sloterdijk, e também pela entrada em cena da tese da biopolítica de Agamben. No meu entendimento, ela não seria contraditória com a tese da sociedade do espetáculo, de Debord. Afinal, a sociedade do espetáculo é antes de tudo a sociedade dos espectadores. Ou seja, dos que foram separados da produção e passaram para o campo da passividade, dos que olham o espetáculo criado pela mercadoria que, não sendo mais útil subjetivamente, educa todos na função de cultivadores de imagens, aqueles que se apetecem com seu show. Assim, teríamos antes de tudo uma ampliação da passividade, do tédio fenomenologicamente descrito por Heidegger, e não o hiperativismo. Todavia, voltando para o que está ao nosso redor, vemos todos agitados, interagindo nas redes sociais da Internet, e não na passividade dos que olham as vitrines ou a TV.

Aproximando-nos do que fazemos hoje, podemos ver que nosso ativismo é passivo, pois ele é altamente reprodutor. Ele é a passividade em alta velocidade. Ou então, ele é a hiperatividade como situação que ganhou dimensão normal. A Internet não muda o fundamento do espetáculo: somos os que produzem imagens e cultivamos uma sociedade que repassa imagens. Somos uma sociedade em que todos estão altamente estimulados sensorialmente, sensivelmente. Nosso mundo é o do império dos sentidos. Queremos ver mais e mais num planeta de voyeurismo exemplar. Há uma ampliação do ver em nossa hiperatividade, exatamente o que diagnostica a patologia que pode ser considerada completamente aceita: crianças mais dispostas a aprender com o excesso de imagens. Desse modo, o espetáculo se mantém e se amplia. A ideia de que as coisas não mais nos aparecem pela utilidade, ou seja, pelo valor de uso, e somente pelo valor de troca, as fazem coisas para ver, e nós continuamos vendo, só que agora fazemos parte mais ativa dos mecanismos de produção das próprias imagens. Além de colaborarmos, separadamente, para a criação das mercadorias que surgem no mercado fetichizadas, ou seja, como elementos vivos que fazem um espetáculo para nós, somos os que criam, recriam e divulgam imagens. Somos os que se pensam como produtores do espetáculo. Mas as produtoras reais são as mercadorias, o mundo do mercado abraçando com seu comportamento todas as relações sociais. Elas, as mercadorias, não estão lá onde estão para serem adquiridas. Não precisamos delas. Estão lá para o ver, para o entretenimento. Estão no show – o show room, dizem os lojistas.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

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5 Responses “Hiperatividade”

  1. Paulo Almeida
    26/01/2016 at 14:35

    O psiquiatra Paulo Mattos no Programa do Jô fez uma crítica à também psiquiatra Ana Beatriz Barbosa por ter dito que o TDAH é uma coisa boa, que até grandes gênios como Einstein se encaixam no diagnóstico. O problema é que os pais podem pensar “Poxa, mas se outros são gênios então por que só o meu filho é assim? É porque ele não quer se esforçar”.

    • 26/01/2016 at 15:26

      Paulo Almeida, obrigado pela observação. Bem,meu texto está longe de ser um texto sobre o que fazer com crianças, oK?

  2. G. DE JESUS
    28/12/2015 at 09:59

    Self-service de militâncias, ditadura da felicidade. Todos produtores de imagens, egos projetados, gado indo pro abate.

    • 28/12/2015 at 10:12

      Contato, não precisa postar nada não tá?

    • G. DE JESUS
      28/12/2015 at 14:10

      Não entendi a provocação

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo