Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

24/06/2017

Nietzsche, o heteronarcisista exemplar de Sloterdijk


Em um do seus textos mais belos, Peter Sloterdijk caracteriza Nietzsche “como o descobridor do ‘heteronarcisismo'”. Nesse caso, o que Nietzsche faz é afirmar em si mesmo nada senão os outros, ou seja, “as alteridades que entram nele formando uma composição que o atravessa, o encanta, o tortura e o surpreende”. “Sem surpresas, a vida seria um erro”. (1) Sloterdijk entende que isso é ser mais do que simplesmente um sol, é ser um “corpo de ressonância”. (2)

A compreensão dessas observações sobre Nietzsche, que apontam para o heteronarcisismo, reclamam pela apropriação de dois conceitos de Sloterdijk, o de ressonância e o de sol. O primeiro tem a ver com sua noção de bolha e díade. O segundo com o de esbanjamento.

Primeiro. A subjetividade humana não é individual (Descartes) e nem é uma intersubjetividade comunicacional modelar (Habermas), mas é sim uma forma de disposição da intimidade que, por sua vez, é dupla. Somos no mínimo díades que se fazem a partir de dois polos em ressonância e, pela ressonância, formam uma periferia, uma membrana que, então, cria a bolha elíptica. Trata-se de uma sistema imunitário micro, cujos elementos materiais, no caso, ainda num nível sinestésico que deverá tender ao psíquico, são o feto e a placenta, uma espécie de dois-em-um. Feto e placenta não estão em relação simplesmente, mas em ressonância, em forma de penetração mútua. Essa conceituação é própria de Sloterdijk, mas nasce de sua observação sobre as noções de individualidade americana posta por Emerson, bem conhecidas por Nietzsche.

Segundo. A noção de sol, Sloterdijk a retira do próprio Nietzsche e de Bataille. Trata-se da ideia de uma ressonância que gera a interpenetração de raios de generosidade. O sol dá sem pedir em troca, garante a vida ainda que nisso venha a morrer – num futuro longínquo. Há uma certa prodigalidade no sol que há também em toda a vida. Antes que economia e racionalidade, funcionamos no mundo por meio do gasto, esbanjamento e capacidade de doação. O princípio de auto-conservação cai por terra se adotamos essa visão de Bataille e do próprio Nietzsche, especialmente quando este fala da vontade de potência – quando dá o exemplo do animal unicelular que joga seus pseudópodes para apanhar um alimento maior que ele e explode. A vida é um querer mais – mas em todos os sentidos, inclusive e principalmente um querer gastar mais.

Assim, na base de ressonância e esbanjamento, entendemos o funcionamento do heteronarcisismo. Em constante ressonância e em constante doar-se, tudo que Nietzsche afirma de si, em elogios incontáveis e desconcertantes, é na verdade um enaltecimento do outro que só pode aparecer em unidade consigo mesmo. Se não fosse pela capacidade do homem de já ser um dois-em-um, ele não seria um três em um ou um quatro em um etc. Essa pluralidade que somos – e que Nietzsche explicita no seu conceito de corpo – cria o auto-elogio como elogio que é o de si mesmo enquanto o si mesmo não é outra coisa senão o múltiplo. Não à toa, portanto, surpreendo-me. Encontro em mim respostas para perguntas que eu mesmo fiz e que, pela lógica, eu deveria já saber e, então, nem perguntar.

Tudo funciona como se, na parábola bíblica, o filho pródigo tenha sido o único filho realmente humano. Sua ida para o mundo a fim do esbanjamento lhe deu uma autêntica subjetividade, e não uma alienação de um eu que se acredita racional por conta da poupança, que nada mais é que acreditar que somos humanos sadios por conta de uma suposta lei de autoconservação. Nietzsche nunca foi darwiniano. Também Sloterdijk modifica Darwin. Não é por adaptação que evoluímos, mas por beleza, por enaltecimento, por escolhas – escolhas de quem protege não necessariamente o mais fraco, lhe dando oportunidades de repassar sua carga genética, mas de quem escolhe o que resplandece. O filho pródigo, garanto, resplandeceu. O filho que ficou em casa, duvido que tenha sido admirado. Aliás, nem foi escolhido pelo pai.

Talvez já tenha até passado a hora dos pintores criarem novas visualizações da parábola do filho pródigo. Não com a sua volta para casa mendigando e acusando-se errado, mas sim com a sua chegada ao fim da jornada que faz de um homem um homem, ou seja, que torna alguém o cumpridor da disposição de ser um sol, de não se apegar à própria riqueza uma vez que a riqueza é a doação solar, o deixar acontecer a simbiose com outros. Simbolicamente, o heteronarcismo é isso: elogiar-se por não ter passado a vergonha de morrer rico, como dizia o grande empresário e mecenas americano, sempre citado por Sloterdijk,  Andrew Carnegie.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 08/02/2017

  1. Sloterdijk, P. O quinto “evangelho” de Nietzsche. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2004, p. 99.
  2. Idem, ibidem, p. 99.

Gravura: O regresso do filho pródigo. Bartolome Esteban Murillo,1670, Museu do Prado, Madrid, Espanha.

Tags: , ,

2 Responses “Nietzsche, o heteronarcisista exemplar de Sloterdijk”

  1. Hilquias Honório
    09/02/2017 at 00:46

    Karaka! Mais uma vez, fico impressionado. Que coisa fantástica. Essa parte da parábola. Tô amando esse negócio de esbanjamento ao invés do instinto de preservação. Sempre recomendo o blog a amigos.

    • 09/02/2017 at 14:04

      Honório, é uma noção que você encontra em Veblen, Bataille, Nietzsche etc.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *