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25/02/2018

Ainda sou Charles Hebdo?


Talvez tenhamos a chance agora, com a charge de capa do semanário Charlie Hebdo, cujo tema é o menino morto na praia, o símbolo da luta dos atuais refugiados sírios, de entender Francisco I. A direita obviamente já o odeia e a esquerda está com dificuldades de alcançá-lo. Mas, talvez ser de direita ou de esquerda, de modo apriorístico, hoje em dia signifique apenas ter uma tarja na testa: “não sei pensar”.

Quando Francisco I disse  que se xingassem a sua mãe ele reagiria, ele se expressou como o professor de filosofia Bergoglio, talvez não como Papa. Mas, ainda assim, na disposição do recado que ele quis passar, ele falou sim como Papa.  Ou seja, sempre quando optamos pela liberdade total – e eu adoro isso – não podemos achar que já de pronto estamos isentos de reação. Na época o Papa assim falou, sobre sua reação, para que os sentimentos liberais do Ocidente, ou da melhor parte do Ocidente, não fossem não ponderados, o que poderia gerar mais violência. Aliás, provocar entre nós mesmos o anti-islamismo não seria nada liberal!

Nós ocidentais temos de proteger o jornal e a liberdade dele, mas isso não deve nos tornar favoráveis à insensibilidade. Ou seja: temos de manter nossa sensibilidade intacta para o menino morto e ao mesmo tempo nossa sensibilidade inteligente para com a liberdade TOTAL de imprensa. Fora disso não estaremos fazendo nada de novo. Ser inteligente é poder conviver com sentimentos difusos, às vezes contraditórios, e saber mantê-los.

Só os que não pensam anulam um sentimento em favor do outro sem compreender que o convívio com os outros depende de sabermos conviver com nossa própria dilaceração interna: o inferno somos nós, ao contrário do que Sartre disse. Que tenhamos capacidade de arcar com tensões internas díspares, se queremos ter um futuro sem diferente do pregam os que sabem tudo e tudo decidem, os fanáticos.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

charlie

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7 Responses “Ainda sou Charles Hebdo?”

  1. Roberto Quintas
    22/09/2015 at 17:21

    permita-me ser um provocateaur, professor, mas recentemente aqui pautou-se da estranha presença de suásticas no desfile de sete de setembro e incluo a celeuma da USC que foi acusada de fazer apologia ao nazismo. então cabe a provocação: a liberdade de imprensa tem que ser total, como a liberdade de expressão, ou há casos e casos? se existem exceções, então a “liberdade” não é absoluta e a charge de Hebdo é apenas mais do mesmo “humor” no viés da elite social ocidental?

    • 22/09/2015 at 20:53

      Roberto aquilo não era nazismo, escrevi sobre isso no Blog.

  2. Guilherme Picolo
    17/09/2015 at 20:57

    Não entendi a charge como uma agressão a quem quer que seja… na minha leitura, o cartunista usa do sarcasmo para criticar a banalização da vida, a coisificação do homem, a nossa inabilidade de lidar com necessidades básicas… Não sei se estou certo, mas foi assim que li a charge.

    • 18/09/2015 at 01:10

      Picolo nenhuma charge é agressão. Estou me colocando no ponto de vista de quem se sente agredido. Ufa!

  3. Matheus
    17/09/2015 at 20:05

    Fiquei pensando aqui comigo que uma boa parcela de (pseudo)liberais diriam ” não há problema nenhum, deixe o Charlie Hebdo funcionar e publicar, o mercado dará a resposta, se a charge desagradar, as pessoas deixaram de adquiri-lo”. Mas se pararmos pra pensar que boa parcela, se não todos, dos que adquirem/assinam Charlie Hebdo não o fazem por compreender ou poder interpretar o que nele está contido, mas apenas por poder ser mais um sinal de erudição ” eu assino Charlie Hebdo”, então temos que o argumento liberal não terá o efeito esperado. Isso tudo nada tem o que ver com a liberdade de expressão em si.

    A falha do argumento liberal pode ser interessante, porque nem mesmo esse tipo de “censura da demanda” irá ocorrer, isso é bom no sentido de garantir a liberdade de expressão e a permanência de um Charlie da vida (sem querer generalizar, porque não acompanho toda a extensão do trabalho desse tipo de publicação), mas ao mesmo tempo atesta a nossa pobreza intelectual e cultural, estamos cada vez menos entendendo o que as coisas são, ao passo de que a cultura e a erudição se tornaram também descartáveis, porque tudo recai a dimensão de signo, e para nessa superficialidade, superfície essa onde não apenas tudo pode aparecer, como qualquer coisa.

  4. 16/09/2015 at 00:11

    Bravo! Mil vezes, Bravo! Paulo, pra variar você tem a medida exata da reflexão sem maniqueísmos e distorções “ideológicas”.
    Adoro você.

    • 16/09/2015 at 12:45

      Edson eu também me adoro, mas isso se realmente conseguir fazer em mim o que propus neste texto.

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