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24/10/2017

A sociedade dos guruzinhos estressados


Sem conseguir inferências não se vai longe. Indução e dedução são nosso destino. Vamos do particular para o geral e descemos do geral para o particular. Dizer “não vale generalizar” é uma advertência estúpida, é descabida. Até pelo fato de que, não raro, nem estamos generalizando, mas apenas usando de uma sinédoque. Quando alguém usa uma expressão geral que rotula e, então, causa estragos sociais os mais variados, o resultado ruim nada tem a ver com a generalização, mas com algo que é a visão homogeneizadora. Queremos simplificar, unificar, reduzir o que não raro é humano e, por isso mesmo, complicado, diverso e cheio de sutilizas e ironias.

“Homem é tudo igual”. Não é. “Mãe é mãe”. Não é. “Homem é homem e mulher é mulher”. Não é mesmo, e isso nem tem a ver com sexo! “O mundo sempre foi assim, sempre haverá pobres e ricos”. Bobagem. “Procurar um mundo melhor é brega”. Brega é quem diz isso.

Essas frases do senso comum são maneiras de descansar, de salvar o cérebro do estresse de ter que pensar. Quanto mais uma sociedade é leve, mais ela pode falar de estresse e sentir estresse. E então gerar buscas de fuga do estresse, real ou imaginário. Nossas sociedades, ricas ou remediadas, de ordem democrático-liberal no estilo ocidental, são desoneradoras. Há aqui fatores de imposição da leveza: o liquidificador, o celular, a geladeira, o carro, o viagra, a liberdade de expressão, o KY, a pílula anticoncepcional, a penicilina, o homoerotismo, a alfabetização geral, a Internet, o computador, a reunião de pais e mestres em nível universitário, o presidente Obama e até Bernie Sanders são possíveis. Tudo isso, no entanto, tem seu elemento coadjuvante que se torna um peso, de modo a forçar a existência da gravidade, o que chamamos de sério e real. Em uma sociedade da frivolidade a menina que não sabe colocar o KY para o primeiro coito anal pode querer procurar um psicanalista. Assim, ela tem lá sua gravidade, seu drama e, desse modo, sua realidade. Não é um Ícaro qualquer. Sloterdijk diz que a boa sociedade é aquela que sabe dosar estresse e liberdade em algum nível ótimo.

Um mínimo de estresse é necessário para manter uma sociedade de indivíduos que se tornam cada vez mais autônomos ou pretensamente autônomos, e proprietários de passaportes para a diversidade máxima, ainda como uma sociedade. Durkheim viu esse problema moderno, mas considerou que nossas divergências eram apenas profissionais. Rorty se perguntou se uma educação voltada para a individualização e para a liberdade desde o ensino básico já seria possível, mesmo que isso interferisse em traços socializadores essenciais. Sloterdijk tem para si que há uma série de pequenos estresses que a própria leveza carrega, e isso dá o clima psicopolítico para manter a comunidade em estado de alerta conjunto. Todavia, sabemos bem, há momentos que a sociedade quer descansar a todo custo. Quer se agarrar em simplificações e homogeneizações para realmente não pensar. Até o pequeno estresse diário de ouvir o Datena falar de mortes pode ser um elemento de fuga do estresse, pois o estresse maior seria querermos pensar sobre como evitar essas mortes.

Nessa hora, o único elemento de coesão social é o que em princípio faria a sociedade entrar em anomia: não pensar, optar pelo “simples”. Homogeneizar é a lei então. “Todo preto é bandido” – para que ter dúvida disso? “Toda mulher é puta” – para que ter dúvida disso? Todo professor, se fica com jovens e elas são todas ‘gostosinhas’, é abusador – para que ter dúvida disso? “A Usp é elitista” – para que pensar diferente? “O programa bolsa-família torna todos vagabundos” – para que mudar isso que se encaixa tão bem no conservadorismo? “A Igreja queimou gente, então, o Papa Francisco é bandido também” – ora, pode-se até pensar ou se achar crítico e inteligente com esse senso comum pretensamente sábio. Ou seja, repetir fórmulas aparentemente cultas e críticas também é uma forma de não pensar e, então, escapar do estresse. O dito pensamento crítico pode vir em pílulas já prontas e ajudar o anti-estresse. “Tudo é culpa dos americanos”. “Tudo é culpa dos comunistas”. “Tudo é culpa dos pedófilos”. “Tudo é culpa do Íncas venuzianos” (lembram?). Isso não tem nada a ver com generalização, isso é forma de não pensar, é a negação do uso da inferência. É o desejo puro de se perder no doce rio da realidade homogênea, e por isso, fácil de perceber.

A fuga do estresse é o elemento da homogeneização. E o tal pensar crítico, também ele, é o não pensar e colabora com essa fuga, ainda que dê a nítida aparência, especialmente para o militante de causas, que ele tirou o tal pensamento crítico de sua própria cabeça, que ele está realmente refletindo. Que nada! Se estivesse pensando mesmo, estaria pasmo. Estaria fora do entorpecimento e, então, visivelmente espantado. O filosofar é o espantar-se. Há espaço para o espanto em nosso meio? As palestrinhas que você vê nos vídeos do Youtube, que agora educam você por meio de sua adoração a guruzinhos, são de gente admirada, espantada, ou de gente que tem fórmulas simples para você  repetir?

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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9 Responses “A sociedade dos guruzinhos estressados”

  1. O Grande Capataz!
    18/02/2016 at 19:42

    Nando Moura quebrou tuas pernas, malandro. Perdeu, velhote!

  2. Gustavo
    17/02/2016 at 08:46

    Caro Paulo, o mais duro é ver que em meio a essa situação que você descreveu no texto existem velhacos realmente prontos para surfar na crista dessa onda do não pensar.
    Até quando tudo será nivelado por baixo?
    Será que esses charlatães realmente não tem consciência nenhuma de que essa misologia travestida de sofisticaria barata já levou a humanidade a algo chamado nazismo, holocausto?
    Começo a pensar nas sábias palavras de Platão, que no Fédon comparou a aversão ao pensamento com a aversão aos seres humanos.

    Obrigado pelo texto.

    Inté.

  3. Matheus Kortz
    15/02/2016 at 16:40

    Poutz acabaou hein,.no youtube só os horas da coruja e palestras da Olgaria de bom msm. Ate tentei fazer o curso online de etica do Clovis (USP), mas.o posersismo dele eu nao aguentei é peso demais pra minha vida leve hehe

  4. André
    15/02/2016 at 10:34

    Excelente texto Paulo, captou bem um momento que estamos vivendo, principalmente na internet. Espero que você não canse e continue escrevendo para nós!

  5. Maximiliano Paim
    15/02/2016 at 08:08

    Não. Não vejo mais esses pocket shows. Leio seu blog, seus livros, os clássicos e me espanto com os outros que não se espantam. Saúde, mestre! Abraço!

  6. Joao Neto Pitta
    15/02/2016 at 06:06

    Professor Paulo, ótimo texto! O positivismo me parece uma forma bastante minuciosa de simplificar a sociedade. Com a crença em certos fisiologismos, determinismos; além de ser bastante generalizador. Seria o positivismo uma espécie de senso comum da sociologia?

    • 15/02/2016 at 16:04

      O positivismo é uma doutrina que não simplifica nada, João. Leia mais.

    • Joao Neto Pitta
      15/02/2016 at 16:42

      Eu disse simplificar no sentido de mascarar algo bem mais completo com generalizações,determinações. Foi um equivoco da minha parte? Vou agir como um olavete: xingar o senhor e persistir no meu erro(brincadeira). Vou ler sim professor. Obrigado pela sugestão, um abraço.

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