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28/02/2020

Gozo sexual e morte


A autoconservação tornou-se de tal modo um tabu que os biólogos e os psicólogos chegaram a querer confundi-la com a razão. Quando alguém tenta se matar, está louco – todos dizem. A religião já havia feito isso: conserve sua vida, não se mate. Morrer é a chance de ir para o Céu, no entanto, a vida é dada por Deus e só por ele pode ser tomada.

Por Deus ou pela razão, o certo é ficar vivendo. Com esse tabu podemos lidar com algumas coisas, mas não podemos compreender a nós mesmos para além de limites muito estreitos. A compreensão de nós mesmos exige mais que isso.

Nietzsche talvez tenha sido aquele que, sem morbidez, colocou a vida e a boa despreocupação com a vida em associação. Fez isso por meio da “vontade de potência”, um conceito que associou ao conceito de vida. Seu melhor exemplo: a bactéria unicelular que joga seus pseudópodes sobre uma gota de água e ao abraça-la estoura. “O olho maior que a barriga”, diria minha avó, nietzscheanamente. A vida é maior que a autoconservação e não serve a ela. A razão nada tem a ver com a vida. Autoconservação e razão também não estão ligadas logicamente.

Mas Nietzsche não ultrapassou isso. Ele não ousou tecer uma narrativa em que o próprio homem fosse explicado sem que a autoconservação estivesse presente. Ele a denunciou, mas envolveu o homem nela e não conseguiu uma exposição deste sem mencionar aquela. Para deixar a “vontade de potência” fazer das suas, seria melhor abrir mão do homem. Ele teria se comprometido demais com a autoconservação. Teria se envolvido de tal modo que, para se livrar desta, nada poderíamos fazer senão perder-se e deixar-se ultrapassar. Deveríamos pensar o mundo a partir de uma cosmologia, e tomar o homem como um ponto geográfico e histórico. O Übermensch olharia de sua nave espacial o homem lá embaixo, quase com a vergonha que o homem olha para o macaco. Digo quase, porque o Ubermensch talvez nada tenha a ver com o homem.

Peter Sloterdijk propõe algo que bebe em fonte nietzschiana, mas com uma diferença essencial: construamos uma ontologia em que o homem não seja reduzido ao Homem, mas que surja historicamente. Algo que tenha elementos da antropologia, da psicologia, da própria história. Uma ontologia que considere o nascimento e a morte seja lá do que for que, depois, certo ou não, chamamos de “homem”, e não uma narrativa que só considere o período em que vemos andar o homem.

O que há antes do homem? O que há depois do homem? Uma pergunta com teor antropológico, mas também individual.

Ora, ao fazer isso, Sloterdijk está lembrando filosofias que notaram e precisaram dessa postura. A de Freud foi uma delas. De certo modo, ele mencionou o antes e o depois. Em determinado momento ele saiu do campo sexual para admitir que havia um segundo princípio que, ainda que ligado ao sexual, não tinha a ver com o amor, que é união, mas com ódio e agressão, que tem a ver com desunião. Freud teve de assumir a existência de Tânatos, não só de Eros, para traçar uma melhor teoria do homem e da psique.

Com o Freud mais maduro aprendemos então aquilo que já sabíamos da prática, que o gozo e a morte estão próximos. Em ambos ocorre o mesmo fenômeno: a diluição do eu. Trata-se de descanso do ego. Todo aquele esforço para viver fora do útero e erguer-se por si só como sujeito, como diz Sloterdijk, nunca foi algo outro que não uma viagem extenuante. Enquanto não morremos definitivamente, voltando talvez ao nada, temos de fazer pit stop. O que é isso? Pit stop: o sexo nosso de cada, nos dai hoje. Morremos ali no gozo. Tudo se desliga. Cai a chave geral (há quem antes mesmo do finalzinho do gozo caia em desmaio). Há um curto circuito delicioso. Passado um curto tempo, que parece um milênio, ressuscitamos então. A religião sempre soube que se pudéssemos fazer isso sempre, nada mais importaria. O capitalismo também aprendeu logo isso. Ambos regraram o sexo exatamente na medida em que ele se parecia com a morte feliz.

Pararíamos de fazer sexo se soubéssemos que um gozo, a partir de determinada intensidade, nos faria morrer de vez? No reino animal há quem perca a cabeça por sexo. O louva-deus que o diga! E metaforicamente somos como esse bicho. Dizemos: “perdi a cabeça por ela (ou ele)!”. Viveríamos bem pouco. Logos nos primeiros gozos, deixaríamos a mão do prazer entrar e erguer seu prazeroso mausoléu, nos trazendo não uma morte de pit stop, mas a volta ao nada, o fim do ego, a dissolução do eu. Ahhhh!

“Ainda morro disso” – dizem alguns após muito sexo. Quanta sábia palavra não encontramos em ditos populares!

Não é à toa que nos impressiona sobremaneira o suicídio que é sobrecarregado de erotismo. A foto de Helmut Newton (a figura em adendo) impressiona exatamente por isso. A mulher está fazendo uma chupeta para o cano da arma e veste trajes apropriados para tal. Vai morrer. Mas não sem uma boa escolha estética que é o quadro da paz prazerosa: amor e morte juntos. Não se pode e nem se deve desmentir Freud, pensa ela.  É o que ela imagina, sim, e basta olhar mais na foto e fica fácil ver o balãozinho de pensamento sobre sua cabeça. Por isso, entre nós há os que não têm nenhuma dúvida em se masturbar diante dessa foto. Afinal, nos anos setenta, não ficamos sabendo que poderíamos nos excitar com o filme Império dos Sentidos? Fomos tomados de surpresa por tal reação.

Carregar um é carregar dois. Esse é o problema que nos faz almejar a morte como quem almeja o gozo e vice-versa. Cada um de nós, se humanos, fomos amaldiçoados pela doença socrática, a de ter um amigo em casa para quem nos explicamos e explicamos o mundo. Isso cansa. Pois não se trata de um amigo que bebe Schin. Ele é daquele tempo do Marcelo Tass, onde “‘porque sim” não é resposta”. Ego e si-mesmo, eu e self, “dois em um” – a reflexão, a consciência reflexiva, é isso que cansa o homem. A morte é a dissolução do sujeito, a volta da subjetividade ao mundo diluído da areia da praia, a volta ao barro criador. Coisas que coagulam e se mostram como sujeitos, então descansam quando voltam ao fluxo. É como aquela gota do mar, da onda, que é desprendida no ar e diz para si mesma: “sou um sujeito, sou gota”, e logo em seguida se dilui no mar para sempre, não voltando para dar testemunho da sua felicidade em se perder.

Ela apertará o gatilho, ou resistirá?

© 2014 Paulo Ghiraldelli, filósofo

Agradeço ao psicanalista Cássio Mattar pela referência da foto.

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2 Responses “Gozo sexual e morte”

  1. Manoel lucas marthos
    28/01/2014 at 12:49

    Noto que não há comentários, pelo menos por enquanto.

    • 28/01/2014 at 14:10

      Manoel, isso é significativo para o que você vem pensando, isso de não haver comentários.

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