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23/10/2017

Existe mesmo no Brasil “o quarto poder”?


No Império o “quarto poder” era o de “moderação”, ou seja, a possibilidade de intervenção da vontade do Imperador nos negócios às vezes já decididos pelos outros poderes do Estado. Com a República imaginou-se que um tal “quarto poder” desapareceria, mas tão logo o século XX andou e o rádio e a TV se tornaram importantes, talvez até mais pela fama do que por alguma realidade, a mídia passou a ser vista como um novo elemento estabilizador e desestabilizador. Quando no final do século XX o cinema colocou em cartaz O quarto poder, já há muito o mundo todo tinha mais uma menos a ideia de que o Executivo, o Legislativo e o Judiciário competiam não entre si, mas com a mídia.

Ainda hoje, mesmo na era da Internet, há essa ideia de que a mídia formada por Rádio e TV pode “manipular todo mundo”, que ela “aliena”, que favorece o “consumismo”, que rouba dinheiro do erário público e, mais que isso, que pode favorecer a desvirtuamento da moral da juventude e promover a deterioração familiar. Até a violência urbana causada por exclusão econômica, social e cultural é posta na contra da mídia, quando ela simplesmente noticia tal violência. Não se avalia o quanto isso é verdade ou não, o quanto algumas dessas práticas ocorre tendo consequências, quais ocorrem com poucas consequências, e quais efetivamente não ocorrem, são só fantasia nossa.

Os grandes líderes demagogos da direita e da esquerda perceberam que podiam utilizar o rádio. Os líderes populistas que os seguiram fizeram mais que isso. Eles notaram que tais instrumentos, ou seja, o rádio associado ao jornal impresso e à TV, haviam crescido em poder ou em fama de poder, que por conta do glamour que passaram a mostrar vieram a se identificar como alguma coisa dos ricos ou das elites, coisa de um mundo à parte ao das pessoas comuns. Assim que foram atacados por algum conglomerado de jornal, rádio e TV, esses políticos revidaram e, ao revidar, tiveram a grata surpresa de ver parte da população simpática a eles. No Brasil Vargas experimentou isso. Depois, Jânio à direita e Brizola à esquerda aprenderam, quando voltaram à política na redemocratização pós 1979, que só tinham a ganhar se pudessem “peitar a Rede Globo”. Ela havia se identificado, querendo ou não, com o regime autoritário que se enfraquecia, e ela parecia representar, sob o nome de “Vênus Platinada”, tudo aquilo que as pessoas desorganizadas, fracassadas e frustradas queriam alcançar e jamais poderiam. Atacar a Rede Globo foi uma estratégia que passou a contar como obrigatória na mão da política populista.

O PT aprendeu isso com Brizola. Lula aprendeu isso. Mas o que Brizola fazia em termos de estratégia, Lula passou a levar a sério demais e a militância petista, bem mais tola que Brizola, passou a acreditar na própria mentira. Assim, ainda hoje, mesmo quando a Rede Globo bate em adversários do PT e de Lula, o importante é continuar atacando-a do mesmo modo que se ataca “os americanos”. A direita faz a mesma coisa, ainda que as acusações difiram em alguns detalhes. Por exemplo, nos comícios recentes de manifestação contra Dilma, a Globo é malhada, a imprensa é malhada – os reacionários sobem nos palanques para dizer “cadê a Globo?”. Em seguida, em suas casas, essa gente às vezes participa de alguma campanha do PT de boicote à Globo. Divulga-se a acusação contra as novelas da Rede Globo, telejornais e tudo o mais. Quem chega hoje ao país, conforme o lugar em que vai, pensa que Globo é o demônio fascista do Brasil, mas se cai em outro lugar, pode ficar pensando que a Globo é o diabo comunista do Brasil. Quem vê a ministra Kátia Abreu, um expoente da direita, falando que não está gostando da atual novela da Globo, pensa que ela agora está à esquerda, afinada com a militância petista!

A Rede Globo é uma mídia como qualquer outra de boa qualidade técnica de outros países. Seus trabalhadores seguem pressões vindas de cima, mas o próprio conteúdo das novelas e jornais, que é o que agora monta o carro chefe de uma TV que perde audiência diária para a Internet, tem sua autonomia em nome da qualidade. Um jornal que noticia o falso perde “ibope” e, portanto, patrocinadores. Uma novela que não fale da realidade do país de modo crítico e avançado, relativamente progressista, pode dar a impressão aos patrocinadores de que a sofisticação da Globo vai seguir o padrão popularesco do SBT ou Record – esse padrão não rende, pois não adianta ceder ao grande número se esse grande número não consome o que é para se consumido.

Assim, a Rede Globo continua apresentando as melhores novelas e o seu telejornal sempre possui mais recursos que os outros. O nível também é melhor que o dos concorrentes. Muitas vezes o perfil que se exige do telespectador do Jornal Nacional é bem melhor do que o do brasileiro médio. O JN fala de economia de um modo sofisticado, e não raro apresenta dados antropológicos que demanda telespectadores que possuam noção de darwinismo e de teoria política. Reparando bem nisso em sentido comparativo com o de outras TVs, fica fácil notar que a Globo exibe um otimismo maior quanto ao perfil que desenha para o seu telespectador. Não raro, portanto, as críticas contra a Globo são bem mais toscas que qualquer coisa tosca que a Globo produz. A própria crítica ao BBB, se a compilarmos nas Redes Sociais, é mil vezes pior em todos os sentidos que o BBB (compilei tal crítica em Filosofia política para educadores, Manole). Vinda da esquerda ou da direita, a crítica é reacionária, moralistóide e muitas vezes altamente estúpida se levarmos em conta a literatura atual sobre crítica a mídia em centros intelectuais avançados.

Estamos às voltas com um monstro de papel, mas que já há algum tempo temos acreditado demais que é de carne, ferro e efeitos mágicos. A Globo não “aliena”, nós é que nos “alienamos” ao fantasiar sobre a Globo. Aliás, se há Globo possui mesmo algum poder real, ele advém não dela ser “o quarto poder”, mas ser uma caudatária do poder emanado dos poderes de uma República cujo estado a entope de propagandas em benesses – façanha que todos que passam por algum governo fazem sem constrangimento.

A direita e a esquerda ficam raivosas quando se denuncia isso que denuncio aqui. No fundo, a esquerda e a direita agora precisam acreditar no inimigo Rede Globo como sendo o principal inimigo. Ela tem que ser a culpada de tudo. A direita e a esquerda não querem grandes alterações de status quo e, então, criar um monstro de fantasia para atacar se tornou bem conveniente.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo. Professor da UFRRJ e diretor do Centro de Estudos em Filosofia Americana (cefa.pro.br). Entre outros publicou pela Cortez A filosofia como crítica a cultura, em 2104.

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11 Responses “Existe mesmo no Brasil “o quarto poder”?”

  1. Joi José da Silva Teixeira
    13/07/2016 at 11:49

    Bom dia Paulo! Tenho os DVDs e Cds de Filosofia onde você ministra seus conceitos e ensinamentos! Gosto dos seus artigos. Parabéns!

  2. Richard
    04/04/2015 at 14:53

    “Um jornal que noticia o falso perde “ibope” e, portanto, patrocinadores”. A partir dessa frase podemos pensar não em alienação, mas que a mídia pode reforçar determinado ponto de vista, que vá de encontro, por exemplo, com o interesse de seus patrocinadores.

    • 04/04/2015 at 20:05

      Richard só faltava a mídia fazer o contrário! Claro que não vai fazer. Mas o interesse do patrocinador é, antes de tudo, vender seu produto. Veja um exemplo: o movimento gay percebeu que tinha que fazer crescer o “orgulho gay” e começou no mundo todo a organizar as “paradas”. Em um determinado momento, em São Paulo, isso passou a render dinheiro para o circuito de hotéis da cidade. Ao mesmo tempo apareceu um “mercado gay” para tudo. E então foi bem mais fácil para certos patrocinadores de horários de novelas deixarem os escritores mais soltos com sua imaginação, de modo a colocar o modo de vida gay na novela, ampliando ainda mais a luta contra o preconceito. Sem contar que os patrocinadores, em vários casos, começaram a ser gays bem sucedidos etc. É assim que funciona. Veja a Globo: faltava para ele artista negro, então ela começou a abrir escolinhas de artistas nos morros do Rio. Hoje existe já uma geração jovem de negros que vieram dessas escolinhas, e quase todos muito bons. Eles refletem na novela o gay em outra posição social, mas também falam da continuidade do preconceito, mas o patrocinador não tem mais que temer comprar horário no horário de uma novela com negros nos papeis principais, pois ele vê não não perder ibope. Aliás, a Globo costuma garantir a venda do horário amarrada à certeza do ibope, inclusive em números precisos, para cara patrocinador.

    • Richard
      04/04/2015 at 22:41

      Concordo com suas explicações Paulo. Me parece que quando se refere a política a coisa muda um pouco ou se torna mais evidente… você já viu aquele Marco Antonio Villa na bancada do jornal da Cultura? O cara falta babar de raiva e sempre acusa o Lula de chefe de quadrilha, etc. Qdo algum telespectador pede p/ ele provar sua afirmação, sai pela tangente recorrendo a algum fato histórico.
      Pensando ainda em suas afirmações, é certo pensar que a greve dos professores paulistas não gera notícia na globo porque é um assunto que não “dá lucro”?

    • 04/04/2015 at 22:52

      Richard meu Deus do Céu! Você nunca teve nada na vida que pudesse administrar? Não sabe o que guia uma empresa? Um empresa para dar lucro precisa ser confiável! Essa atual greve dos professores paulistas está sendo noticiada. Não é a greve do século, mas mereceu um destaque duas vezes no JN. Mas professor tá tão pobre e tão analfabeto que não sabe nem ver TV, ou porque não tem ou porque não entende. Claro que os professores como categoria não têm culpa da desgraça em que chegaram, mas chegaram.

    • LMC
      06/04/2015 at 11:13

      Ih,o Richard sofre de
      Brizolite Aguda,mesmo.
      Os demônios pra ele
      são a Globo e o Villa.
      E os titios Nassif e
      Emir Sader que tem
      programas na TV
      Brasil do governo
      federal?Bah…..

    • 06/04/2015 at 12:02

      LMC você ainda está pensando que a verdade é a verdade do jornalista. TEm de ver o outro lado, é sua regra. O mundo só tem dois lados. Putz! Sai dessa!

    • LMC
      06/04/2015 at 11:31

      Certa vez,o Clodovil
      disse que jamais
      participaria de uma
      parada gay e que
      ele em tempo algum
      sofreu preconceito.
      Sorte dele,porque
      a maioria dos gays
      já sofreu alguma
      discriminação pelo
      menos uma vez na
      vida deles.

  3. adalberto
    04/04/2015 at 13:15

    Nossa Paulo vc arrasa demais!

    • 04/04/2015 at 14:02

      Adalberto obrigado por ler minhas coisas, sempre vai encontrar aqui material de um filósofo que não usa cabresto ou canga. Os outros usam.

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