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22/09/2018

Geração mimimi, direitos sociais e escola


Comentando sobre “mimimis” no contexto de uma sociedade de ampliação de direitos e de crise cultural. Lembrando do filme “Entre les murs”. 

Os historiadores contam assim: a ordem burguesa se instaurou contra a ordem aristocrática, substituindo o mérito do sangue pelo mérito do empreendimento. A data emblemática disso para o mundo ocidental é 1789.

E eles continuam: por conta dos influxos do movimento dos trabalhadores, internos à sociedade moderna inaugurada pela burguesia, o mérito do “empreendimento” ganhou um tom mais popular transformando-se no mérito do “trabalho”. Assim, a sociedade não deveria só acolher a classe média, mas também os mais pobres. Até aí o que temos é a história da sociedade europeia segundo a construção do Welfare State. Quando o modo americano de vida passou a contar para o mundo todo, então mais um elemento veio a se tornar requisito nessa construção: a política de cuidados com as minorias. A data emblemática do início disso para o mundo todo é 1945.

Esse processo ainda não se completou. Mas em que pé ele está agora?

Em tempos normais, os pobres possuem mais recursos de proteção social na Europa que nos Estados Unidos, enquanto que com as chamadas “minorias” ocorre o inverso. A tendência geral é a de tomar como ideal um estado que iria do modelo liberal ao social democrata acoplado a uma crescente política de atenção às mulheres, crianças, gays, minorias étnicas, grupos delimitados por necessidades especiais etc. Todo esse processo tem sido buscado, e trata-se da americanização da Europa e europeização da América em prol de um tipo de Welfare State que seria considerado o modelo universal do estado a ser adotado pelo mundo (haveria aí uma pitada, também, de solidarismo americano, em alguns casos). Nós brasileiros pegamos o bonde andando nessa história. Temos tentado fazer em menos de cem anos o que Estados Unidos e Europa fizeram em mais de quinhentos anos. Temos continuado nisso, e nossa crise cultural atual advém, em parte, dos choques culturais decorrentes dessa viagem. Muitos de nossos problemas escolares estão imersos nessa situação.

Ou seja, Europa e Estados Unidos puderam amadurecer na construção de uma sociedade democrática, de modo que cultura e lei caminharam sem grandes defasagens, ainda que não tenham faltado revoluções armadas de todo tipo nesse processo, ajustando ponteiros de relógios diversos, os da hora da legislação e o da hora dos costumes e necessidades. No Brasil, no entanto, tudo tem sido feito em uma velocidade inaudita, se pensarmos em termos históricos, de modo que nem sempre a cultura consegue acompanhar a lei e vice versa – e isso em um país com dimensões continentais.

Para dar direitos e garantir direitos, conforme o caso, não raro o estado ultrapassa a soleira da porta da casa dos indivíduos, quebrando a ordem liberal tradicional. Uma vez fazendo isso, dependendo do lugar, cria para a população a falsa ideia de que o público e o privado, o institucional no campo da sociedade civil e o institucional do campo da sociedade política, não possuem mais delimitações. Por exemplo, se o Estado adentra o lar para segurar a mão de um pai que dá um corretivo físico em um filho, que até então era visto só como “palmada pedagógica”, em geral o agente da lei está correto, uma vez que as estatísticas mostram nos hospitais mais crianças agredidas do que se esperaria. Antes disso, nos seus próprios domínios, ou seja, na escola pública, a mão do professor já havia sido contida pelo estado. Todavia, em uma sociedade em que essas coisas são feitas em processos abruptos ou segundo a entrada de novos atores, em geral atores com poucos esclarecimentos gerais e capazes de quebrar tradições até então nem bem instituídas, logo encontramos os desvirtuamentos. Então, temos o filho que revida as ordens de um bom pai denunciando-o à polícia por maus tratos; ou então um aluno que coloca o professor em maus lençóis ao querer responsabilizá-lo juridicamente por qualquer correção um pouco mais dura em sala de aula. Sabemos bem o quanto o diabo gosta dos jovens.

Em outras palavras: leis que beneficiam os menos poderosos, e que seguem a ideia geral de nossa Constituição de proteger os indefesos, podem ser interpretadas canhestramente por grupos cuja vivência cultural foi construída de um modo pouco alvissareiro. Mas, enfim, isso é um problema só nosso?

Mesmo nos países de tradição cultural mais sedimentada, como Inglaterra, França e Alemanha, esses desvirtuamentos podem ocorrer, se a escola é aberta para grupos novos, principalmente imigrantes, ou se o lar se faz de um modo novo, também fruto de novas culturas que adentram o local. Diante de um estado invasor, um grupo que não entende muito bem o papel desse estado e de sua legitimidade, pode se opor a ele em um momento ou mesmo se aproveitar dele contra seus próprios agentes em outro. O filme Entre les murs (Laurent Cantet, França, 2009) é um consolo amargo para nós brasileiros, pois mostra que até a escola pública francesa não sabe o que fazer quando a sociedade lida com grupos que fogem do entendimento de que direitos sociais são uma coisa e vida escolar outra.

A vida escolar é regrada pela didática, e se uma sociedade amplia direitos de minorias e de desfavorecidos sociais em geral, isso não significa que o melhor para tais pessoas é se aproveitarem desses direitos para solaparem a escola e, então, perderem a chance deles próprios de aprender. Mas explique isso, se puder, para jovens na situação de desinformação e desenraizamento! Entre les murs é o filme sobre escola que choca o cinema americano que lida com essa temática. Pois o filme americano pode ser água com açúcar como o clássico Ao mestre com carinho ou o monstruoso Código 187, mas, seja lá como for, há um desfecho nesse tipo de película. Isto é, alguém se salva. A escola se salva. Ora, Entre le murs nada se resolve. Não há fim. Não há solução. Termina o filme e temos a certeza de que os franceses não encontrarão solução para o problema tematizado e nós menos ainda. Alunas se comportam de uma maneira estúpida e colocam o professor em situação delicada, e nenhum heroísmo ocorre por parte do professor. Ele não se sai bem, mas também nem morre e nem perde o emprego. Ele apenas continua o inferno criado por um lugar em que a França, tanto a de Maria Antonieta quanto a de Napoleão ou da Comuna de Paris, ou a da Resistência e a de Mitterrand, não significa nada diante de bárbaros não propriamente franceses, e que possuem direitos franceses.

Esse tipo de aluno é ao mesmo tempo o chamado “mimimi”; são pessoas que reclamam de tudo, se ofendem com tudo porque se sentem inferiores ou merecedoras de algo que não sabem o que é, e também atuam de modo violento quando em grupos. Se se agrupam às vezes em torno de ideias aparentemente de esquerda ou direita pouco importa, no geral a prática é um tanto fascista. Não querem direitos e sim vantagens pessoais e, não raro, falcatruas.

Com práticas fascistas muitos que se dizem de esquerda atuam nessa linha, especialmente na universidade. Sabemos bem o quanto professores fracos e diretores e reitores manipuladores, que pensam só a partir de parâmetros políticos, jogam alunos ruins contra professores bons, e oferecem para tal um modo corrupto de transformar os direitos sociais em vantagens pessoais. Estamos cansados de ver aluno ruim se tornar um “coitadinho” para poder processar professor que apenas quis empurrá-lo para o estudo, ou que deu uma aula com ironias que ele, inculto, não entendeu. Isso tudo é conhecido.

A direita política ajuda contra isso? Nadinha. Ela só piora as coisas. Vejam os diagnósticos de senso comum do filósofo conservador Roger Scruton. Observando arruaças em periferias de grandes cidades, suas conclusões foram patéticas. Ao invés dele equacionar o problema, ele simplesmente culpou os direitos sociais, as políticas multiculturalistas e quis fazer acreditar que a solução poderia ser a de jogar aqui e ali alguma pitadinha de xenofobismo nada liberal. E o pior, nessa época (2011) ele veio para o Brasil para dar esse tipo de conselho para nós, nas páginas amarelas da revista Veja (claro!).  Se há conselho que o Brasil não precisa para resolver seus problemas de confusão entre ter direitos e saber solicitá-los são esses dados pela via simplória de Scruton.

Nossa tarefa é a seguinte: conter a “geração mimimi” e ensiná-la a usar direitos sociais de um modo diferente, ou seja, sem solapar justamente as instituições que podem fazê-la deixar de ser “mimimi”. Para isso, é necessário fazer os jovens ver que direitos sociais são para melhorar a vida do país, de todos, não para tornar cada indivíduo um aproveitador que se utiliza dos direitos sociais como um bandido, como quem quer a todo o momento fingir de louco para cometer crimes e sair impune. Em outras palavras, nosso desafio é encontrar mecanismos que voltem a fazer a juventude ter o gosto pela meta, pela agenda e pela responsabilidade. E isso deve ser feito sem ceder um passo à ideologia da direita, que acha que se tirarmos direitos sociais e fizermos um país selvagem, com cada um resolvendo tudo individualmente, seremos melhores. Essa ideologia de direita é estúpida. E talvez ela própria seja um dos nossos maiores poços de “mimimi”.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

Post Scriptum: veja nesse blog outros artigos sobre “mimimi”, sempre comparando com filmes. Veja também o Hora da Coruja sobre “mimimi”.

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9 Responses “Geração mimimi, direitos sociais e escola”

  1. João Pedro
    06/02/2015 at 11:05

    Uma pergunta que eu tenho é como que eu faço para entrar no CEFA? É preciso algum requisito, como cursar filosofia? É que eu curso matemática mas queria participar uma vez. Vcs discutem só filosofia americana ou não tem restrições?

    • 06/02/2015 at 14:40

      João Pedro é só você ver as atividades que quer participar e ver os convites com a Fran no facebook dela. Comunique-se com ela agora.

  2. João Pedro
    06/02/2015 at 11:01

    Falando sobre mimimi, um dia eu estava comentando no facebook que os abusos que ocorrem na indústria pornográfica estavam eram mais por causa da falta regulamentação que pela indústria em si. Aí, não passou dois minutos para eu ser tachado de machista e misógino por uma feminista. Até citei um texto do senhor falando da condenação de certas atividades mais por serem sexuais do que pela violência praticada. Depois apareceu pamonha dizendo que o senhor era reacionário!
    Tem que ter muita paciência hoje em dia!

    • 06/02/2015 at 14:42

      João Pedro o mimimi de minorias não deve ser considerado como fruto dos direitos de minorias. O feminismo é uma benção. As feministas chatas são contraproducentes. As burras, piores ainda. Temos de ter cuidado. Temos de proteger o feminismo a despeito de algumas feministas.

  3. alexandre
    05/02/2015 at 15:56

    Paulo

    Novamente um ótimo texto, mas fiquei com uma pergunta na cabeça: como dialogar com as pessoas sobre direitos politicos, politica e problemas ocasionados pela politica?

    Eu tento ao menos estabelecer um diálogo sobre o assunto, com colegas de trabalho e amigos, tento mostrar que os problemas politicos no Brasil não são exclusivos de um partido e sim de todo o contexto politico.

    Se comentamos algo errado na esfera federal todos aprovam e falam para mim: até que enfim vc acordou e quando falo algo relacionado ao ambito estadual sou chamado de petista alienado.

    O mais curioso que quem critica chama de pobre que tem direito ao bolsa familia e safado e vagabundo, quem faz faculdade via prouni não aprendeu a pescar e por consequencia é vagabundo.

    É dificil dialogar sobre qualquer tema importante sem ser ao menos chamado de petista ou de alienado, e o pior tentar discutir isto é perder tempo.

    O mimimi é geral, em todas as classes e locais e os poucos que querem tentar entender o motivo de tanto mimimi não saem de qualquer discussão sem serem ofendidos.

    • 05/02/2015 at 23:21

      Alexandre! Há pessoas que dá conversar e outras não. Melhore seus colegas e amigos. Não perca tempo com energúmenos.

  4. Richard
    05/02/2015 at 15:02

    Belo artigo!
    Ontem conversei com um diretor de escola mimimi. Diante das recentes crises políticas e econômicas, seu desejo é que o povo quebre tudo e “tome o poder”, mesmo que o poder fique na mão dos militares, seria só por um tempinho, para acertar as coisas…

    • 05/02/2015 at 23:22

      Richard! Faça um cocô, ponha numa lata, embrulhe para presente, entregue para ele. Faça isso. E divirta-se.

  5. LMC
    05/02/2015 at 11:18

    A França,ao contrário dos
    EUA que teve Roosevelt,
    Kennedy e agora Obama
    e da Inglaterra que teve
    Churchill,não teve um
    estadista.O Mitterrand
    ficava mais preocupado
    com as ex-colônias
    africanas do que o
    próprio país dele.

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