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26/09/2017

Gay: o último homem moderno?


Félix está na jogada novamente. Ele chamou a atenção no início da novela. Esta, por sua vez,  em seus piores momentos, foi salva por ele. Mas a trama de Carrasco é boa, meio que almodovariana uma vez que todos tem a ver com todos, e agora, com Félix saindo do armário, Amor à vida tem novo ápice. Convenhamos: personagem gay é hoje o que nenhum escritor pode abrir mão. Carrasco tem três, mas é claro que Félix rouba a cena porque ele é o mais complexo deles. Talvez ele seja, de fato, o único personagem da novela mais próximo do espírito romântico, moderno, necessário ao folhetim.

Todos os outros personagens, gays ou não, são rasos. Funcionam de um modo que qualquer abordagem a partir do exterior lhes faria justiça. Até mesmo a moça vingativa, a secretária que se tornou amante de César, ou o próprio César, carecem de dramas interiores relevantes. Justamente o aparentemente mais frívolo é o único que não ousaríamos descrever com uma visão do exterior, puramente behaviorista. Félix não se deixa descrever dessa maneira. Para falar dele faz-se necessário tentar penetrar em suas intenções e “dramas interiores”. Todos os personagens são bons personagens, mas só Félix tem a ver com o que esperamos de uma história moderna, ou seja, que contenha os homens e mulheres que apresentem vida subjetiva mais densa, algo que seja um campo interior com o qual contar, como diria um o filósofo alemão Peter Sloterdijk na sua caracterização do sujeito: um assessor interno capaz de motivar e autorizar desinibições para a ação. Sloterdijk pensa essa desinibição em um sentido amplo. Mas, se aplicamos isso a Félix, podemos pensar tanto em um sentido amplo quanto em um sentido específico, vulgar, que é aquele que se pode usar ao mostrar quem se desinibe ao, por exemplo, “sair do armário”. Félix pode ser interessante exatamente porque ele é gay em um sentido muito especial: em um mundo como o nosso, em nosso tempo, só o homossexual pode ainda mostrar-se como tendo alguma subjetividade. Ninguém tem mais nada para contar!

O homem subjetivo por excelência é Jesus. Ele foi o primeiro homem moderno. Diferente dos heróis gregos, os heróis da Bíblia ou, melhor dizendo, os do “Novo Testamento”, mostraram a fabricação de novo tipo de homem.  Ser um bípede sem penas deveria implicar em ter dramas interiores, problemas de consciência, dilacerações internas. Jesus esteve quarenta dias no deserto para viver isso de modo intenso. Teve de lidar com seu gênio, com o seu tormento, com o (seu) demônio, digamos assim. Ora, no mundo atual nenhum religioso ou cientista e às vezes até filósofos se revelam como explicitando uma subjetividade em seu sentido moderno. As pessoas são rasas, mas não em um sentido grego, ou seja, de quem não tem uma linguagem própria para o drama interior. As pessoas de nosso tempo são rasas por uso indevido da linguagem. Nossa linguagem é moderna, romântica, pronta para fabricar camadas de profundidade na nossa interioridade. No entanto, não temos nada a dizer com esse vocabulário moderno porque nos tornamos subjetivamente pobres. Nossas vivências não existem. Não temos experiência. No máximo temos experimento. O gay é então o último a ter dramas interiores ou ao menos assim parecer. E assim mesmo, nem todos os gays ainda são assim. Na novela, só Felix é um gay que carrega essa herança de Jesus.

O episódio do “sair do armário” de Félix é o episódio no qual reconhecemos que os personagens não são o que poderíamos chamar de “pessoas”. Nem mesmo os personagens que formam a dupla romântica principal da história possuem qualquer coisa que se possa mostrar como amoroso, profundo, dramático. Bruno e Paloma são dois songo-mongos de primeira categoria. São mais retos que uma tábua de porta. Querer encontrar ali algum drama de subjetividade, no sentido moderno do termo, e necessário ao folhetim, é completa perda de tempo. Não amam, apenas dizem que amam. São um fracasso de tal ordem como pessoas que, enfim, vão acabar comprometendo por um bom tempo os atores que os carregam. Agora, o gay Félix não. Não há capitulo que ele não possa sacar de dentro de si mesmo, por meio da atitude da desinibição, mais um fio de um novelo complexo de problemas, o novelo da alma do homem moderno, no caso, o gay.

Será que é possível que em uma outra novela reapareça o homem moderno ou, melhor dizendo, o personagem que esperamos que apareça quando se trata do folhetim que segue na esteira do romance? Não vejo nada no horizonte. Estamos em uma época em que somente o gay tem alguma coisa para encontrar ao seguir o fio de sua linguagem, de seu vocabulário, e encontrar aí um conjunto de peças que podem ser dispostas em forma de drama. Encontrar gente como Jesus, hoje, parece ser só possível se encontrarmos gente como a “bicha má”, que, ao contrário desse título simplório, nada tem de simples.

Paulo Ghiraldelli Jr.

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20 Responses “Gay: o último homem moderno?”

  1. Ferdnand
    07/08/2013 at 11:40

    “Mas, se aplicamos isso a Félix, podemos pensar tanto em um sentido amplo quanto em um sentido específico, vulgar, que é aquele que se pode usar ao mostrar quem se desinibe ao, por exemplo, “sair do armário”. Félix pode ser interessante exatamente porque ele é gay em um sentido muito especial: em um mundo como o nosso, em nosso tempo, só o homossexual pode ainda mostrar-se como tendo alguma subjetividade. Ninguém tem mais nada para contar!” Diante do que foi dito neste trecho eu conclui que apesar da modernidade ter instituído a subjetividade (através de Jesus, segundo apontado pelo texto), vivemos hoje um outro momento, onde a subjetividade é algo raro…

    • 07/08/2013 at 14:54

      A subjetividade não, o drama interno como característica dela é moderno. Se parece não existir em alguns personagens, então devemos compreender a razão.

    • JOHN
      03/09/2013 at 04:48

      O que chama atenção das pessoas é o fato dele ser mau e como você disse outros personagens gays também tem seus dramas, houve uma fuga do estereótipo com o personagem.A subjetividade de grupos de personagens parece não existir pois ocorre uma enxurrada de dramas com personagens estereotipados,caso Felix fosse um gay bonzinho seria mais uma parte enfadonha dessa novela,mas ele foi densamente construido fugindo do tipo conhecido como bicha louca,muito comum nas novelas.Acredito que isso tudo entra no mérito de quando a novela é muito ruim todo mundo passa a gostar do vilão,afinal hoje eles são engraçados,bonitos e porque não agora gays.

  2. JOELMA CAVALCANTE
    07/08/2013 at 11:15

    simplesmente um ótimo texto a ser lido e relido também se for o caso!

  3. Ferdnand
    05/08/2013 at 22:32

    Hummm… Será que nesse nosso mundo, só os vilões são subjetivamente ricos? Mas Félix é um vilão “superior”, quer dizer, ele difere do assassino vulgar que mata apenas por dinheiro. Ou chegará o tempo em que apenas o assassino, mesmo o vulgar, terá essa riqueza subjetiva que a modernidade nos roubou? Hummm essa frase é velha… Stiner já disse algo parecido (e o Lobão também). Resposta: o que precisamos mesmo é de mocinhos como Bruno e Paloma. Isso sim é novo e radical.

    • 05/08/2013 at 23:37

      Ferdnand, mocinhos como Bruno e Paloma “novo e radical” é algo que ninguém pensaria. E Félix está longe de ser superior ou mesmo inteligente. Além disso, há mais coisa que você não viu: Jesus. Veja, a modernidade não roubou a profundidade ou riqueza subjetiva meu caro, ela a instituiu. Putz. Tô roubado!

  4. Paulo Roberto
    05/08/2013 at 16:04

    Paulo, eu, também como professor de filosofia, sofro muito com isso; a falta de inteligência nesse país chegou ao limite máximo, acredito.

    Quanto ao texto, mais uma vez vc consegue levar-nos à refletir o contexto dessa modernidade, de modo especial, o homem moderno e os seus dramas interiores. A articulação entre Jesus e o personagem da novela – “Félix” – foi muito inteligente. Parabéns! Infelizmente, poucos compreenderão sua reflexão.

    • 05/08/2013 at 20:01

      Roberto, há compreensão sim. Parece que não porque o que compreende não comenta muito.

  5. 05/08/2013 at 14:45

    Olá Paulo!
    Fiz agora minha primeira leitura de um texto seu, e estou maravilhado com sua escrita. Escolhi justo este texto pela polêmica atualidade do tema, e a analogia com Jesus ficou ótima!
    Estarei no Filosofia em Debate, dia 10. Fui religioso, aluno do Carlos Alberto. Espero poder cumprimentá-lo pessoalmente. Obrigado pela partilha!

  6. Ramos
    05/08/2013 at 10:52

    Os dramas humanos estão além do gay, é possível encontrar em outros excluídos sociais. O louco por exemplo é também um homem subjetivo, um homem que carrega estigmas.

    • 05/08/2013 at 11:12

      Ramos, sem querer ser pedante e já sendo: leia de novo e veja o exemplo CLARO de Jesus. Não é qualquer drama. Não falo de drama humano genericamente. Meu Deus, ninguém fez ensino médio, nem aula de português, de literatura, ninguém mais tem uma escolarização básica! Putz! O que estou falando não é nenhuma tese, é a aula sobre romantismo do primeiro colegial, do primeiro ano do ensino médio. Mas que merda de país!

  7. Renato Sakamoto
    04/08/2013 at 23:33

    Nelson Rodrigues dizia que temos dramas porque não andamos de quatro. Acho que faz sentido que tenhamos uma atração pelo personagem do Félix porque o drama é humano.

    • 05/08/2013 at 09:43

      O drama é humano, mas moderno, só moderno. Entende?

  8. 04/08/2013 at 21:35

    Este texto todo é um lixo que nem você!!! hahaha

    • 05/08/2013 at 09:50

      Caro cudafran, meu texto é ótimo, e você não gostou por uma razão simples: você não sabe que “cu” não tem acento. “Ânus” tem acento, e assento. Vai aprendendo. (leitor, às vezes eu deixo passar esse tipo de post que é para você se divertir, pois sempre é bom saber que existe um tonto desses no mundo, pois assim, sem esforço, você sabe que irá sempre vencer. Num mundo onde existe esse tipo de derrotado, é fácil né?)

  9. Junior
    04/08/2013 at 20:36

    Ótimo ensaio, Paulo. Sua contribuição, como tenho percebido, representa o papel fundamental do filósofo, a saber, desbanalizar o banal! Você chegou a assistir o seriado game of thrones?

    • 05/08/2013 at 09:44

      Júnior, náo vi, nem tudo eu consigo fazer escrevendo na quantidade que escrevo e, ao mesmo tempo, mantendo um mínimo de carreira acadêmica ainda viva.

  10. Fábio Siqueira Lessa
    04/08/2013 at 08:12

    Olá professor
    Muito criativo, parece não haver limites para sua imaginação, aproximar Jesus e Félix. Bravo!!

    • 04/08/2013 at 11:22

      Fábio, obrigado, mas, sinceramente, não é criativo. Jesus é o proto-romântico, Félix, o último romântico.

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