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26/09/2017

Gay bom é gay morto… mulher também!


A crítica da doutrina liberal de igualdade perante a lei foi saco de pancadas de dois grandes filósofos do século XIX, homens que comandaram o século XX: Marx e Nietzsche.

Marx a viu como a promessa de uma falsa Boa Nova. Analisando-a historicamente, ele mostrou seu caráter revolucionário de tirar do senhor do castelo o direito de julgar indivíduos em seu feudo, segundo critérios próprios e, é claro, aleatórios. Mas também lembrou que a igualdade perante a lei não dirimia de todo a injustiça; pois seria a promoção de uma igualdade formal, não real, uma vez que em uma sociedade classista o pobre continuaria a chegar aos tribunais em maior número, sem contar ainda que o rico diante do tribunal teria sempre condições de pagar advogados melhores.

Mas dizendo isso, Marx não disse muito mais do que qualquer socialista do seu tempo poderia ter dito; o que ele fez de original foi mostrar como que os homens haviam ficado iguais perante a lei da cidade por conta de estarem se tornando objetos como os que viravam mercadoria, ou seja, as coisas igualadas por meio dinheiro no mercado. A abstração que tudo transformava em igual a partir do valor de troca havia saído do mercado para entrar por todos os outros poros do mundo. O mundo moderno nada seria senão uma abstração não mental, mas da própria vida social. A igualdade perante a lei nada seria senão um caso particular da igualdade criada pelo mercado.

Nietzsche também viu a igualdade do liberalismo segundo transposições. Ele a tomou como fruto da vida democrática, própria de ideais do homem moderno, não aristocrático, no sentido de fazer avançar forças capazes de diminuir hierarquias e, portanto, dar vazão ao processo de caminho inexorável do niilismo, a desvalorização dos valores mais altos. Uma sociedade com menos hierarquias nada seria senão uma sociedade com menos capacidade de entendimento e respeito aos valores mais altos.

Até aí, exceto pelo princípio de sua filosofia da história, o niilismo, Nietzsche, com sua crítica, não teria feito mais que qualquer outro conservador social, como tantos outros em um período de romantismo tardio. Sua observação original foi a de dizer que também a ciência da época – simbolizada pela matematização de tudo com seu ápice em Newton – havia tomado o caminho errado da equalização. Havia declarado que todos estão sob leis iguais no mundo, inaugurando então a igualdade perante a lei da gravitação universal e outras leis. Assim fazendo, a filosofia moderna teria quebrado o inteligente modo de pensar dos gregos pré-socráticos, que viam a natureza como physis, como processo autocriativo que, apesar de informar sobre regularidades, não significava nenhum ideal matemático de se contrapor as diferenças valorativas que são inerentes ao cosmos e às peculiaridades dos deuses.

Mutatis mutandis Marx e Nietzsche procuraram agir como pré-socráticos, que ambos amavam. Pré-socráticos não foram pré-socráticos por vir antes de Sócrates. Nem todos vieram antes. Assim foram chamados (por Aristóteles) por filosofar fazendo cosmologia, em busca de um princípio de governo do todo harmônico, o cosmos. O arkhé de Marx se chamou mercado. O arkhé de Nietzsche se chamou niilismo. Os dois alemães foram acusados em alguns momentos de não serem filósofos, pois não filosofaram tradicionalmente e, sim, segundo regras cosmológicas, não mais convencionais para os filósofos modernos. Eles foram os grandes e poderosos críticos do humanismo liberal, e fizeram a história do século XX caminhar como caminhou. Mas, até hoje, mesmo após os utilizarmos ao máximo para criticar a doutrina da igualdade perante a lei, nem sempre compreendemos que a justiça liberal não é justa, não ajusta.

Temos uma enorme dificuldade de perceber que não há ajuste verdadeiro com o ajuste liberal. Por isso, não raro, há os que cobram por um ajuste mais ajustado, um ajuste que possa notar as falhas dos lados da madeira a ser ajustada na outra madeira. Mulheres são mais fracas que homens num mundo em que, apesar de poderem ser maioria numérica, são uma minoria sociológica, ou seja, vivem sob o modus vivendi do outro. E gays a mesma coisa. Então, na busca de um ajustamento melhor, aparecem as leis contra homofobia e leis caracterizadas pelo feminicídio.

Tais leis são as tentativas de tornar a lei liberal menos sujeita a críticas.  Não criam situações especiais no sentido de tornar mulheres e gays melhores e com mais vantagens que outros, mas apenas torná-los protegidos no que faltou para eles serem protegidos “iguais a todos”. Em outras palavras: para crimes que circunscrevem socialmente um grupo exatamente porque atacar indivíduos desse grupo pode não levar à punição, uma vez que tais grupos chegam na igualdade perante a lei de modo desigualados para baixo (mulher e gay sempre são vítimas que se tornam culpadas por terem sido agredidas), a pena é acrescida. É um alerta ao malfeitor: se você ataca alguém que está em desvantagem cultural que você, esperando não ser punido, é aí que você irá ser mais punido! Com esse tipo de atitude, o legislador pretende tornar a igualdade perante a lei menos formal que até então.

As pessoas tem uma enorme dificuldade de compreender isso, até o dia em que elas começam a reparar, no cotidiano, que elas passam o tempo todo procurando caminhos no sentido da compensação. Elas procuram escapar de toda a maneira de entrar em competições que, de ponto de partida, elas já saiam perdendo.

O sistema de ajuste compensatório associado ao liberalismo era a escola pública para todos. Mas esse sistema, também ele se revelou pouco eficaz, mesmo nos lugares melhores que o Brasil, desse ponto de vista. E as leis de proteção de minorias (um pouco diferentes das leis de promoção de minorias, como cotas), como as da homofobia e da caracterização do feminicídio, teriam de vir mesmo. Ora, estão vindo.

Se toda essa explicação teórica não convence, então o jovem Peterson , que foi atacado por colegas na escola e morto por ter pais gays, deveria com sua imolação servir para que tais pessoas repensem na sua incapacidade de entender o que expliquei. Mas é engraçado. Em geral aquele que não compreende meu texto pelos seus motivos teóricos, compreende menos ainda a gravidade do caso de Peterson, e ele próprio irá fazer a defesa de algo apontado no texto como erro: a culpabilização da vítima. Vai dizer assim: “esses gays deveriam saber do preconceito e não deveriam ter filhos!”.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

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6 Responses “Gay bom é gay morto… mulher também!”

  1. Rony
    13/03/2015 at 16:32

    Um dos seus melhores artigos, Professor.

    Efetivamente, o que se observa na nossa sociedade é a aferição da culpabilização da vítima – “esses gays deveriam saber do preconceito e não deveriam ter filhos!”.

    • 13/03/2015 at 16:33

      Rony, obrigado! Escrevo para leitores como você.

  2. José
    12/03/2015 at 10:30

    Não seria melhor o governo investir mais nas escolas públicas de nível fundamental para que o negro tivesse as mesmas oportunidades da menina branca filha de pais ricos que passa no vestibular de medicina?

    • 12/03/2015 at 12:57

      José você é incapaz de ler o que escrevi? Não consegue? Por que está ocorrendo isso, o cara vir aqui comentar sem ler? Pois não é possível ter feito tal pergunta se leu! Que coisa não!

  3. Antonio S
    12/03/2015 at 04:27

    Excelente texto !

    Não a toa a Constituição da República prega a igualdade material e não apenas a formal.Prega a redução das desigualdades regionais , dentre outras .E pregar não é apenas no sentido de um desejo , de um sonho , e sim de um objetivo que deve ser concretizado por toda a sociedade , inclusive por Leis .

    E assim vem sendo feito – ainda que de forma errática e muitas vezes com muita demora – no país , apesar dos fundamentalistas ( principalmente os religiosos e os da “nova” direita, como Bolsonaros , colunistas de Veja , Globo , Band,SBT ,etc ) bradarem que tudo é protecionismo , é pecado , é paternalismo,etc…

    Alguns se levantam contra avanços como as cotas .Engraçado , as “cotas” eternas dos que podem pagar 4 mil reais num cursinho ou boa escola ( que nunca ou quase nunca concede bolsa para promissores alunos das escolas públicas , ao contrário de outros países ) .Esses que pagam 4 mil durante sua vida escolar podem ter certeza de uma coisa : Vão conseguir entrar nas melhores universidades , nos cursos mais concorridos.Sempre .Impressionante como são todos “dedicados , capazes e inteligentes” .É querer igualar quem está correndo de Ferrari com quem está de fusca .Este , o do fusca, que SE MATE DE ESTUDAR , 18 horas ao dia , para “se igualar” ao estudante privilegiado ! E como se o nosso sistema de avaliação via vestibular tivesse algum mérito pedagógico nessa toada da Pedagogia .Tanto não tem que muitos dos chamados “cotistas” simplesmente têm melhor rendimento que boa parte dos não-cotistas , conforme inúmeras pesquisas .

    A moda agora é : ” Hah , tem muito esse negócio de “corrupção ” agora ! Esse partido aí é corrupto e minhas contas aumentaram bastante esse ano .Não interessa se me dei bem nos últmos anos .Não posso perder minhas caras viagens e restaurantes , muito menos deixar de ter empregada por apenas mil reais ao mês.Vamos “quebrar” o pacto social do resultado das eleições últimas e tirar do poder pq não estamos satisfeitos…Se não há motivo concreto , fato comissivo atribuível a esta nefasta mulher ? Não importa, que mudem as regras no meio do jogo…Não queremos esperar 4 anos ! ”

    O senhor é um dos maiores pensadores do país !

    Cordial abraço !

    • 12/03/2015 at 08:11

      Antonio S espero que você com meu artigo encontre instrumentos para a defesa do PT. Não dá. Meu artigo é filosófico. E meu artigo nem é social democrata. Insisto, ele é filosófico. As cotas não são para ajudar pobres, são cotas para minorias. Não se empolgue.

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