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28/04/2017

Fronteiras do Pensamento: o contraste entre Roudinesco e Sloterdijk


Claro que não sei como será a fala do filósofo Peter Sloterdijk (pronuncia-se slotertáik) no evento Fronteiras do Pensamento, no início de outubro. Mas teremos sorte extra se servir como um contraponto ao que ocorreu dia 14 deste mês de setembro, quando esteve em São Paulo a psicanalista Elizabeth Roudinesco. É que realmente trata-se de pessoas de visões políticas diferentes mas dentro de um relativo mesmo espectro no plano político, ou seja, a social-democracia.

Roudinesco deixou bem claro como vê o mundo: de um lado um ultraliberalismo (restos de Thatcher), de outro o fundamentalismo religioso (ISIS e dividendos), e de outro ainda um populismo de direita  (Putim e amigos) que alimenta o odor do fascismo (Frente Nacional Francesa). Democratas liberais ou de esquerda caem espantados dentro desse quadro, sem saber muito o que fazer nesse mundo pós-1989, ou seja, pós-Queda do Muro de Berlim. Esses liberais ou social democratas querem de toda maneira manter a Europa no seu mais longo período sem guerras em seu território, que é o que se vive de 1945 até agora. Parece possível, claro. Mas, ao mesmo tempo, a um custo cada vez mais alto de suportar as guerras e migrações que ocorrem no fracasso da Primavera Árabe e adendos.

Dentro desse mundo, Roudinesco vê uma subjetividade reconstruída, ou melhor, remodelada, a partir de uma visão de homem em que o consumo – a mercadorização – e a troca do “conhece-te a ti mesmo” pela medicalização se fazem vigentes. Ele lamenta a perda de espaço da psicanálise, e do próprio Freud, para com a prática dos grandes laboratórios que buscam convencer a todos que a psicologia de cada um nada mais é que resultado do ambiente químico. No meu jargão, mas seguindo o que ela disse: isso pode ser bom para questões de tratamento, claro, mas não como uma maneira de, trazendo tudo ao químico, gerar uma resposta para a pergunta “o que é homem?”.

Sloterdijk lamenta menos esse mundo atual. Ele trabalha com a história filosófica de grande duração. Toma então as sociedades como o fruto de uma forma espiral, onde a cada leveza e liberdade se faz necessário também um novo tipo de estresse. Pois, para cada patamar de liberdade e leveza cria-se também a necessidade de se redefinir o que é sério, penoso, o que é “a realidade”. Há necessidade de a cada patamar fazer-se presente uma nova narrativa ontológica, de modo que o homem não saia por aí como Ícaro saiu. Assim, fenômenos de medicalização são por conta da leveza, tudo tem de ficar mais fácil num mundo que, já faz algum tempo, criou mais tempo livre e desenvolveu a tecnologia de tal modo que passou a fazer do trabalho algo lúdico, algo do âmbito do entretenimento, e ao mesmo tempo fez do entretenimento uma coisa séria, um novo trabalho. A sociedade da leveza é uma sociedade do entretenimento.

A subjetividade individualizada para a qual Roudinesco torce o nariz, é descrita individualizada por Sloterdijk por conta de transformações antropológicas. Enquanto ela vê a medicalização dos problemas psíquicos em exagero, mostrando que consumimos anti-depressivo para pequenas tristezas da vida que fazem parte do que é ser pessoas, Slotedijk vê a medicalização como um dos aspectos de um movimento de individualização mais amplo, que advém de uma maneira moderna de se interpretar a si mesmo, sem as parcerias do mundo antigo, quando o homem se entendia um duplo. Hoje a reflexão está naturalizada. Aquilo que Platão definia como o pensamento, que é a conversa silenciosa consigo mesmo, está posto de lado. Ninguém se acha duplificado na reflexão. Deixou-se de entender o próprio papel da reflexão. O homem se vê solitário, e busca nas saídas fáceis do apartamento single dotado de eletrodomésticos, espelhos e Internet o local em que gera um ambiente povoado, uma fake community. A medicalização viria, então, no esquema de Sloterdijk, não de um movimento geral dos laboratórios capitalistas, mas também deles. Eles, no entanto, respondem à sociedade da leveza em que todos esqueceram que são reflexivos, que são duplos, e que então buscam escapar da solidão por meio dos apetrechos da vida solitária – o apartamento single adornado por falsos alter-egos. Num quadro assim, onde o conflito é com o espelho e, agora, entre vários eus assumidos na Internet diante de outros eus também fakes, o melhor é manter-se em atividade e rapidamente livre de angústias. Os remédios dão isso. Do mesmo modo que a leveza atual da Internet dão informação sem disciplina para o estudante, ou geram o artista sem obra ou o youtuber escritor, ou seja, o autor que nunca leu um livro. O importante é que o entretenimento não pare.

Roudinesco parece não saber para onde ir porque lhe falta uma antropologia, para além da psicanálise, que possa mostrar as fontes da solidariedade. Sloterdijk entende poder estar apontando para tais fontes quando, na tentativas de escapar de teorias presas ao modelo de luta de classes (de Marx) e do panteísmo erótico psicanalítico (herdeiro de Freud, que mesmo fugindo do sexualismo, o reintroduziu de algum outro modo), trata o homem como um ser da prática. “Onde procuramos homens encontramos acrobatas”, diz Sloterdijk. Com isso está afirmando: os homens são os que treinam, são os que farão amanhã o mesmo que já fizeram hoje, mas então melhor. Os homens são filhos da riqueza do mimo e ao mesmo tempo do ascetismo que pode gerar superação. No mimo e na separação, o que se tem é a fonte do viver junto, para o qual o homem foi preparado ontogeneticamente e filogeneticamente.

No modelo psicanalítico, em especial freudiano, somos seres edípicos, que entramos na civilização por conta de criar o tabu do incesto e anunciar nosso mal-estar por tais situações repressivas ou sublimadas. No modelo de Sloterdijk, somos seres que possuem mãe, que foi nossa biomecenas, que nos fez sempre andar em bandos sob mimos e se um dia forjamos alguma lei, alguma justiça para combater a injustiça, tal lei surgiu no momento que um dos filhos não recebeu seu quinhão costumeiro de mimo da mãe. Não somos Édipos, somos Caim e Abel, tanto no convívio quanto na violência. O mito judaico-cristão nos explica mais que a narrativa grega.

Caso Slorterdijk, dia 5 de outubro, fale de outra coisa, me desmentido, esse texto então será mais útil ainda.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 15/09/2016

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5 Responses “Fronteiras do Pensamento: o contraste entre Roudinesco e Sloterdijk”

  1. jonathan
    13/10/2016 at 13:51

    Professor, uma pergunta?

    Tem me parece um pouco da filosofia de Derrida e de Deleuze dentro do pensamento de Sloterdijk, é uma suspeita correta ou um engano?
    Obrigado.

    • 13/10/2016 at 13:58

      Tem aportes aqui e ali, diálogos, debates possíveis. Alguns feitos, outros por se fazer. Meu livro mostra isso, pegue o bicho.

  2. Ismael Assis
    17/09/2016 at 12:33

    Prof. Paulo, boa! Estou lendo minha primeira obra de Sloterdijk, “No mesmo Barco”. Poderia recomendar uma ordem de leitura para a obra dele ? E outra; é possível utilizar a obra de Sloterdijk para escrever sobre educação ? Pois pretendia utilizar tanto escritos seus quanto dele para o TCC. Obrigado, Prof.

  3. Emisson
    16/09/2016 at 19:38

    Paulo.Existe algum fardo ou problema,quando nos deliciamos de nossas respectivas levezas,só que exacerbadamente?

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo