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23/10/2017

Frenologia do personagem de Samuel Jackson (*) …


ou caviar é para quem tem pedigree, não para quem tem dinheiro ou para qualquer um.

Despertar o amor nas pessoas é difícil, mas fazer brotar o ódio não é coisa para dar trabalho. Não dá mesmo! Basta dizer para elas o seguinte: “sabe aquele modelo de vida que vocês, mesmo sabendo que jamais alcançariam, queriam para vocês? Pois é, acabou!”. O sangue muda de temperatura quando os bípedes-sem-penas são avisados que seus particulares ideais não fazem mais nenhum sentido social. Isso que emerge neles é um ódio conservador, uma força reacionária, e um dos piores sentimentos que se pode obter de um animal de rebanho. Movido por esse ódio, o indivíduo saca fácil de sua arma.

Uma coisa é sacar da arma, outra coisa é sacar e atirar. Outra coisa ainda é não sacar, e por o objeto de ódio sob uma tortura específica de modo a fazer seu destino ser um exemplo de infortúnio. Nesse terceiro caso, em que há essa pedagogia social, vigora o mais terrível de todos os ódios. O que se quer aí é que se aprenda de modo exato o que o Oráculo de Delfos queria que todos que fossem ao templo de Apolo tomassem como o que se deveria dar atenção: conhece-te a ti mesmo. Ou seja: saiba o seu lugar na vida social – esse era o sentido próprio dos dizeres, que tinham antes características a respeito do ethos, e nada a ver com investigações de tipo psicanalítica, como a que fazemos hoje quando falamos de saber quem somos.

Quem é negro escravo nem sempre é ensinado pelo branco livre qual é “o seu lugar”. O policial do negro não é o branco, e o cumpridor do Oráculo é o negro. Ele, negro, dá as lições básicas para que o negro (re) descubra o seu lugar. O guardador de lugares de uma sociedade escravocrata como foi a nossa ou como foi a dos Estados Unidos, o negro que conseguiu se superar dentro do entendimento do que é um escravo e o que ele deve fazer para se tornar o melhor escravo do mundo, é o negro cujo ódio para com aquele que não aprendeu tal lição é o mais violento do mundo. Em especial se o negro que não aprendeu a lição está dizendo algo terrível como isto: “está me vendo? Sou livre, e minha liberdade que hoje é só minha será a liberdade de todos, pois a instituição chamada escravidão está com os dias contados”.

O que o negro livre ecoa para o negro que se tornou até mais livre por conta do estudo psicológico de si mesmo, dos outros negros e do branco patrão, é simplesmente o seguinte som: “todas as humilhações que você seguiu para, dentro da escravidão, se tornar senhor do próprio branco, veio de um esforço inútil, pois negros e brancos serão iguais e o seu posto terá fim natural e o seu saber valerá menos que os seus dentes de velho”.

No filme Django Livre, de Tarantino, a cena que mais expressa esse fundamento psicossocial do que Marx chamou de luta de classes, e que Nietzsche viu como um estranho alimento da alma, o ressentimento, é aquela em que o negro capataz enxerga ao longe o negro Django entrando a cavalo na fazenda. Um negro a cavalo? Não pode ser! Como que aquele negro está a cavalo? O que ele conseguiu fazer para ir além de poder barbear o patrão e andar altivo em um cavalo, livre? Será que ele é o futuro diante do passado? Será que ele é a América e eu, eternamente, o puxa-sacos que veio no Navio Negreiro? Será que havia mais de uma saída para o lema de Delfos? A cabeça do capataz ferve e mil pensamentos ocorrem entre o tempo em que Django aponta no portão de entrada até o momento em que ele chega na escada da casa grande.

Falo de diferenças de cor, de aspecto, de lugar na sociedade? Sim!

Comentei em texto os rolezinhos. Expus que nossa sociedade não pode ir pelo caminho de proibi-los, que essa é uma saída ruim, pois ela parte do princípio do direito que não existe como legítimo que é o falso direito de imputação de estigma e criminalização antecipada. Eis que uma leitora surgiu do ventre do diabo, com o ódio do rosto do personagem de Samuel Jackson na cena em que ele vê Django a cavalo. Ela escreveu o que os jornalistas conservadores gostariam de poder escrever nos grandes jornais: “sério mesmo que você [eu, Paulo Ghiraldelli] está querendo defender essa pratica insolente de perturbar as pessoas de bem? sou pobre, negra, de família humilde e ninguém nunca me expulsou de lugar algum, apenas por eu ter aprendido valores”.

Quem lê isso assim pode pensar que inventei essa citação, de tão perfeita que ela é, de tão viva que ela é. Ela é um retrato deste meu texto. Mas ela realmente ocorreu e foi daí que me veio o motivo para eu voltar ao tema do ódio – esse ódio específico que vem dos resultados do que se pode tirar de Delfos, e que Sócrates jamais imaginou. Afinal, Sócrates jamais pensou que um escravo pudesse ir a Delfos.

O ódio desse tipo de leitora pode ser instrumentalizado. Ou melhor, já está sendo instrumentalizado. Nós o vemos na digitação de jornalistas conservadores que descobrem que eles próprios não são os ricos que eles defendem e idolatram, e que esses ricos não estão nem aí para com eles. Você quer vê-los com ódio mesmo é quando eles descobrem que muitos dos que não defendem os ricos, o senhores, são proprietários, são nobres, são escritores bem nascidos, são os que fizeram boas universidades e são os que podem comer caviar não porque têm dinheiro, mas porque sabem como comer caviar.

A pior coisa do mundo que pode ocorrer ao ressentido nato é ele querer tirar uma foto para posar de escritor e sair com cara de estivador nanico, um sempre rosto suado que aparece tosco em cima de um pescoço mínimo que enfaixa um corpo diante de um terno apertado, ou dentro de uma camisa que deixa a barriga proeminente. O rosto dentro de uma barba fora do lugar, tendo na cabeça menos ideias e mais um cabelinho meio que espetado, grossinho. E isso sem ao menos mulher gostosa para apresentar junto de si. Inteligente? Mulher inteligente? Ah, isso seria pedir demais. Nenhuma mulher inteligente e bonita fica do lado desse arremedo de mini rinoceronte.

O caviar não é coisa de rico, é coisa para quem tem pedigree.

© 2014 Paulo Ghiraldelli, filósofo

*O título do artigo me veio após ler um comentário do amigo Tiago de Andrade. Usei sem licença, mas aqui estão, ao menos, os créditos e o agradecimento: valeu Tiago.

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5 Responses “Frenologia do personagem de Samuel Jackson (*) …”

  1. Thiago Leite
    26/01/2014 at 22:01

    Racismo, xenofobia, homofobia e etc. O sujeito consegue se libertar disso num clique de botão? Não falo de quem é vítima disso, mas de quem tem isso dentro de si. É só ler a respeito que o sujeito está liberto desse mau? Só isso resolve, Paulo?

    • 26/01/2014 at 23:44

      Thiago, de onde você tirou isso? Do meu texto? Meu Deus!

  2. Saulo Almeida
    26/01/2014 at 19:31

    Deixa eu ver se entendi. Uma mulher negra não pode dar o testemunho verossímil de que sempre entrou e saiu dos shoppings sem sofrer qualquer constrangimento.Essa mulher está,assim, obrigada a militar em favor de certas causas pelo simples fato de ter nascido negra. Ela deveria, então, participar a contragosto de um rolezinho só para mostrar como ela é uma negra bacana. Agora percebi bem a relação entre escravidão e o ressentimento.

    • 26/01/2014 at 20:36

      Deixa eu ver se entendi: o Saulo não pode usar de um exemplo verídico, por que o exemplo contradiz o que ele gostaria de pensar, é isso? Não, é pior: o saulo não consegue caminhar no registro da filosofia, para ele, a filosofia tem de ser uma sociologia quantitativa, com estatísticas vendo quantas mulheres negras fazem um coisa e quantas fazem outras etc. Não, Saulo, o blog de filosofia é exatamente não ser lido jornalisticamente, mesmo quando os textos estão em linguagem simples, para todos. É por isso que o blog é útil porque ele está a serviço de gente que quer pensar nos cânones da filosofia, aprender a usar dessa ficção que é a filosofia. Acho que agora vai, não? Melhorou?
      Viu o Django, lembra-se da cena? Veja e leia o artigo novamente, você verá as coisas se abrirem para você. Mesmo que depois você crie outras ficções, vai começar a gostar desta minha.

  3. Junior Barbosa
    26/01/2014 at 16:17

    Ótimo texto! A tortura é o passatempo daqueles que não tem tempo para pensar, e muito menos conversar. Eles se esquecem das horas, quando adentram uma eternidade dogmática limitada pelo calabouço imaginário. Quanto mais tempo passam lá, mais acreditam que são deuses. Não atoa esses produtores de conserva estão surdos, não somente pelos seus berros, mas pelos gritos de quem eles acham que torturam, e pelo barulho de suas máquinas.

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