Go to ...

on YouTubeRSS Feed

23/11/2017

Francis Bacon e a experiência


Caso fosse possível escolher uma placa para colocar na entrada da Modernidade, creio que esta seria a mais emblemática: que só passe por essa porta aquele que tem predileção pelo erro.

Os gregos (e os medievais ainda envoltos no pensamento clássico) nunca deram grande importância ao erro. Claro que, após a hegemonia do pensamento cristão, explicar o mal passou a ser uma necessidade. Mas o erro propriamente dito, e não o pecado ou o erro moral, nunca foi levado a sério senão pelos modernos. Foram os modernos que inverteram o modo de se estar na Terra. Antes, os homens se sentiam vivendo na verdade, e o erro lhes parecia contingente. Este, então, era tão desimportante que jamais ganhou uma teoria propriamente dita. Com Bacon e Descartes, os pais do pensamento moderno, os homens se viram quase que morando no erro, sendo que o difícil de conseguir passou a ser o correto, a verdade.

Descartes e Bacon tentaram esboçar uma teoria do erro. O primeiro disse que o erro vinha do atropelamento da vontade sobre o entendimento, quando da formulação de um juízo. Nem bem entendemos algo e formulamos um juízo, pressionados pela vontade. Erramos por afobação. Diferentemente, Bacon procurou expor um rol de elementos responsáveis por nos tirar do caminho reto.

Francis Bacon (1561-1626) falou em quatro “ídolos” responsáveis pelo erro: os da tribo, os da caverna, os do foro e os do teatro. Os “ídolos da tribo” nomeavam os elementos vindos da nossa própria constituição humana. A espécie humana teria sido feita como que um espelho que, ao refletir a realidade, não raro a entorta ou desfigura. Os “ídolos da caverna” eram os elementos postos pela condição de cada indivíduo, de sua vida no seu pequeno mundo, sua educação e convívio com outros. Os “ídolos do foro” apontavam para os elementos sociais coletivos, como o mercado, a vida social, o discurso. Nossa linguagem, nossas próprias palavras, nos arrastaria antes para a fantasia que para a realidade. Por fim, os “ídolos do teatro” seriam os elementos vindos da filosofia e da ciência, que poderiam muito bem nos arrastar para concepções errôneas.

Descartes se preocupou com o mecanismo psicológico do erro, enquanto que Bacon se ocupou dos entraves gerais capazes de nos fazer tropeçar e, então, errar. Olhando para um e outro, não é difícil perceber algo mais alvissareiro em Descartes que em Bacon. Adotando a perspectiva de Descartes, então o erro pode ser evitado se acalmamos o ímpeto da nossa vontade, dando tempo de trabalho ao entendimento. Todavia, se nos encaminhamos pela formulação de Bacon, dificilmente temos condição de evitar o erro. Nossa própria condição humana, como espécie e como indivíduo, na vida social e até mesmo sob as regras da vida filosófica, nos coloca no erro.

Mas por qual razão Bacon se preocupou com isso, fechando-nos em uma situação de poucas portas de saída? Foi o acúmulo de anos de cristianismo que, enfim, teria convencido de vez os filósofos a respeito de que viver após a Queda seria estar vivendo sempre, em todos os sentidos, no erro? Ou ocorreram mais coisas nessa história toda, que efetivamente levaram Bacon a pensar em tais “ídolos” como ele pensou?

Em um escrito chamado “Infância e história – ensaio sobre a destruição da experiência”, o filósofo contemporâneo Giorgio Agamben deixou uma passagem reveladora sobre Bacon, que nos ajuda a decifrar o enigma quanto ao surgimento dessa preocupação moderna a respeito do erro.  Nesse ensaio, na parte que toca em Bacon, Agamben expõe uma frase aparentemente paradoxal:  “(…) contrariamente ao que se repetiu com frequência, a ciência moderna nasce duma desconfiança sem precedentes em relação à experiência como era tradicionalmente entendida”.[1]

O que ocorreu é que Bacon, o homem que fez a apologia da ciência moderna enquanto ciência experimental, não deixou de perceber que a própria noção de experiência, como ele a utilizava, nada tinha a ver com o que até então havia sido chamado de experiência. A experiência era, até então, não o experimento, mas o acúmulo de sabedoria pela vivência. Ora, essa experiência caiu na berlinda. Foi justamente ela, até então grande responsável pelo conhecimento, que começou a brotar aos olhos dos modernos como o que produzia antes o erro que o saber.  Ser uma pessoa experiente transformou-se em ser uma pessoa presa a costumes e práticas irremovíveis e pouco racionais. Fazia-se necessário, para os modernos, ser antes de tudo alguém disposto antes à prática experimental que à vida experiente. A experiência acumulava os “ídolos”, só a nova experiência, o experimento, poderia ter força para afastá-los, ainda que só parcialmente.

Em outras palavras: quando a experiência começou a ser enterrada, uma vez que ela própria foi transferida para os objetos, em especial os instrumentos para o experimento, é que a ciência experimental ganhou força. Foi necessário perder em experiência para ser ter um mundo capaz de pensar experimentalmente. Bacon percebeu claramente esse paradoxo e sua necessidade. Mesmo sem ser cientista, por essa sua percepção ele se transformou, na história da filosofia, em pai do pensamento científico moderno.

Após Bacon e, enfim, com a própria prática da ciência moderna, fomos perdendo a noção do que era levar adiante a experiência na filosofia medieval. A própria noção de “prova” mudou completamente. O mundo ligado à lógica da linguagem como instrumentos da experiência e da prova foi substituído pelo mundo afeito à experiência com instrumentos técnicos materiais. Provas da existência de Deus, por exemplo, se tornaram ridículas, pois a prova, para os modernos,  passou a ser sempre a partir de uma situação empírica, com dados empíricos, e Deus, por definição, é extra-empírico. Não cabendo em experiências, Dele não se teria prova alguma. Entramos para o pensamento que, depois, foi chamado de positivista, e rapidamente muitos perderam a capacidade de compreensão de como foi o raciocínio dos filósofos cristãos, que dominaram quase toda a época medieval .

[1] Agamben, G. Infância e história. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2012, p. 25.

Tags: , ,

6 Responses “Francis Bacon e a experiência”

  1. Diego Mendes
    28/01/2016 at 15:15

    Prof. Paulo Ghiraldelli, com teu texto fica claro a concepção de “experiência” nos modernos e, antes deles, nos gregos e medievais. Mas, afinal, em que ponto o conceito de “experiência” nos pragmatistas clássicos avança, ganha outros contornos, em relação aos modernos, ao ponto de fundar uma nova escola filosófica?

    • 28/01/2016 at 16:29

      Diego, os pragmatistas mais atuais tomam a experiência como o que se faz na linguagem, então, é na pragmática da linguagem que buscam o ponto de partida para suas análises. Exemplo: antes de procurar a verdade, ver como usamos a palavra verdadeiro. E assim por diante.

  2. Ariel
    01/07/2015 at 22:53

    Olá,
    Queria entender um pouco mais os ídolos do foro… teria alguma experiência que possa demostrar que esse ídolo exista?
    Valeu

    • ghiraldelli
      02/07/2015 at 11:38

      Leia o próprio Bacon nessa parte do Novo Organon. OK?

  3. Valmi Pessanha Pacheco
    25/09/2014 at 12:19

    PAULO
    Excelente digressão. Permita-me dizer que me veio a lembrança frase de nosso memorialista mineiro PEDRO NAVA que, para ira dos empíricos, afirmou: “Experiência é um farol que ilumina a traseira do carro”.
    Parabéns.
    Valmi Pessanha.

  4. Usp10
    23/09/2014 at 16:49

    Ótimo texto professor!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *