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25/07/2017

Foucault e a masturbação


Adriana Gonzaga presenteou-me com um texto chamado “O saber gay”, de Foucault (veja aqui). Não conhecia, e me parece que ela, Adriana, acertou bem na sua leitura. Trata-se de uma entrevista de 1978 não incluída em Dits et Écrits. Entre vários assuntos postos, Foucault volta ao tema da masturbação. Ele fala da novidade da interdição da masturbação na entrada da modernidade; comenta de como que o problema se desloca para a precaução da masturbação como prática das crianças. Liga isso ao próprio momento em que a infância nasce como conceito que se envolve com determinações cronológicas e jurídicas, e com a transformação da pedagogia (Comênio (1592-1670) é contemporâneo de Descartes (1596-1650)).

Foucault focaliza a masturbação por conta de duas questões de seu interesse estritamente filosófico, não histórico: 1) redefinição da noção de desejo; 2) criação do sujeito moderno. Desejo tomado como ele o toma, como uma noção pós-deleuziana, na sua acepção tem a ver com o tocar-se, com o tirar prazer de si mesmo, numa relação de si para si. Assim, na masturbação Foucault encontra mais um indício de subjetivação em sentido moderno. Se ele quer fazer antes a história do sujeito do que basear-se no sujeito para dar a verdade da história (como ele confessa em outros lugares), a masturbação, como ele diz, é um elemento fantástico, um bom indício. Uma relação de si para si, e não de si para o outro, é um excelente elemento que, uma vez fundado e regrado, uma vez tomado como preocupante, mostra mais uma prática de subjetivação. Se olharmos pela ótica de Sloterdijk, poder-se-ia dizer: eis aí mais um momento que se insere na formatação da intimidade e, portanto, da subjetividade (uma relação de si para si só é possível na medida que somos, individualmente, um duplo). Agora, olhando mais de perto, uma tal formulação de Foucault traz um problema.

Eis o problema abaixo, como ele pode aparece a alguns.

Foucault diz ser uma novidade sairmos das perguntas que envolvem outros,. No caso do confessionário o que se indaga é sobre a busca da mulher do outro, sobre a intenção de ficar com o outro ou com um animal. Ora, no caso da novidade do interesse com a masturbação, aparece a preocupação a respeito do pecado do tocar-se, do individualismo no ato de prazer. Mas, ao menos à primeira vista – e este seria o problema – Foucault estaria apenas colocando para os modernos aquilo que Agostinho, bem antes, já havia definido como o pecado: o prazer efêmero que, enfim, ao invés de trazer a virtude e a eudaimonia (ou seja, a satisfação completa e perene que é o encontrar Deus), seria na verdade a porta para o vício. Busca-se o prazer com os próprios meios para a satisfação própria. Acostuma-se a isso. Eis que tal prática se torna um vício. Nada há de mais solitário. Nada há de mais perigoso. Ora, esse cultivo do ego, não é bem desenhado por Agostinho? De que fala Foucault então, ao apontar para tal como alguma coisa nova?

Tudo se esclarece se notarmos com cuidado a confissão do roubo de peras por Agostinho. Explico.

No roubo de peras, Agostinho confessa ter tido prazer individual em tal prática. Seu grande prazer era o de romper com a vontade de Deus, posta em seu coração por meio da inscrição das leis, segundo uma vontade férrea. Fazer valer a sua própria vontade, contra a vontade de Deus inscrita nas leis, seria a intenção do roubo que, no caso, nada tem a ver com o interesse por peras ou interesse por prejudicar o proprietário. Obtido esse prazer, logo o desejo reapareceria, e cobraria mais prazer e assim por diante. Viria a angústia, o trabalho incessante da reiteração e reposição, ou seja, o vício. Nada de eudaimonia ou vida com Deus que, enfim, é exatamente a completude e portanto o nada precisar ou desejar. Sendo assim, Foucault estaria forçando um pouco falar do prazer solitário no início da idade moderna. O prazer solitário já estaria em Agostinho. Mas, é também no roubo de peras que há a resposta para essa ideia de ver em Foucault alguém que estaria falando de uma novidade não novidadeira. Ali no roubo de peras o prazer não é propriamente solitário. Romper com a vontade de Deus é colocar sua vontade à prova, e isso dá prazer, mas esse prazer não se completa sem o outro. O parceiro está lá sim! Na confissão de Agostinho, o prazer é garantido pela presença dos moleques companheiros do roubo. Sem eles, diz Agostinho, ele não levaria a cabo o roubo. O gostoso de romper com a lei está em poder se exibir, receber o aplauso do outro. A busca de novo aplauso é que irá dar origem ao vício. Mas o ato do roubo, então, não é completamente solitário. Não é propriamente o prazer da masturbação.

A novidade de Foucault é, então, poder nos levar a dizer o seguinte: Agostinho funda o “homem interior” (na acepção de Charles Taylor), o buscador do prazer do si mesmo,  mas não do si mesmo pelo si mesmo, isto é, não ainda o ato que tem a ver com a fundação sujeito. O sujeito, o que se faz por práticas de subjetivação que implicam numa relação do si para com o si, tem muito mais a ver com o não-aplauso, com o puro querer que encontra a satisfação do si com o si. Isso é a masturbação. Não nos masturbamos para aplauso, ou seja, o prazer da masturbação não está no aplauso para engrandecimento do ego, como no roubo de peras assistido e feito para ser visto. Mesmo se nos masturbamos diante de outros, para ampliar o tesão e o prazer, ainda assim será para nós mesmos, e não para o prazer advindo do aplauso. O aplauso infla o ego e dá prazer ao ver a vontade nossa se exercendo. A masturbação não infla ego, ela cria mais uma prática de formação do sujeito. O “homem interior” de Agostinho ainda não é o sujeito moderno. Isso faz toda a diferença.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 10/10/2016

Foto: Foucault em dois momentos: anos 40 e anos 70.

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4 Responses “Foucault e a masturbação”

  1. aline
    10/10/2016 at 18:18

    É recomendado ou não se masturbar? Deve ter um jejum ou cada um q descubra a quantidade ra si? Nos diSTANCIA da virtude?

    • 10/10/2016 at 18:59

      Aline você não está num blog de auto ajuda ou de conselho sexuais. O tema aqui é outro: subjetivação.

  2. Alan A.
    10/10/2016 at 10:49

    Talvez a conclusão do último parágrafo seja essencialmente correta, mas penso que precisaria ser justificada de outra maneira.

    Se Agostino precisa do aplauso do outro, isso não fala tanto do ato em si, como de uma disposição pessoal dele (ator frustrado?).

    O prazer no ato de roubar as peras consiste em ir contra uma lei já estabelecida, seja por Deus ou pelo direito penal.

    Como bem notado no texto, isso prepara o caminho para o homem moderno, como manipulador de um mundo “desencantado” no sentido de Weber. Se as peras estão aí, por que não posso pegá-las? O então, por que não posso adquiri-las por R$ 0.1 e revende-las por R$ 10,00?

    Digo isso, porque no mundo conectado e midiático de hoje, assistimos a uma espécie de inversão dessa tendência. Existem na Internet milhões de vídeos caseiros de pessoas comuns se masturbando, talvez à procura de reconhecimento. Pelo contrário, salvo pessoas muito sem noção, ninguem divulga vídeos de si mesmo robando ou em atos contrários à lei penal.

    Uma outra coisa que achei interessante no texto de Foucault, é que a masturbação aparece como uma das primeiras tentativas de patologização da sexualidade, coisa que também seria feita depois com a homosexualidade.

    • 10/10/2016 at 16:59

      Alan ou não entendi sua objeção ou você não entendeu Agostinho. Acho que você não entendeu agostinho: é sim o ato dele, de aplauso, não do roubo: o roubo em si não é o problema. Veja que mexi no texto para torná-lo mais claro.

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