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16/12/2017

O que virá com o fim do PT?


Estava claro para mim, no início de 1992, que finalmente o século XIX havia acabado. A extinção da URSS era o fim não só do “socialismo real”, mas também da possibilidade da teoria da luta de classes se manter como um visão predominante a respeito das transformações sociais. 

Isso ficou ainda mais evidente com a campanha do “Fora Collor”. Nada havia no movimento – e escrevi sobre isso na época – que pudesse estar afinado com objetivos exclusivamente classistas e econômicos no sentido do marxismo clássico. A revolta contra Collor foi, durante boa parte do tempo, motivada por um descontentamento moral. Lula, Covas, Brizola e até Quércia pareciam então como que “pessoas do bem”, contra as quais a população mais pobre, insuflada por determinações momentâneas, fora posta ao lado de um falso “caçador de Marajá” que, de posse da Presidência, abria o Palácio do Planalto para PC Farias, um nítido e perigoso bandido.

Revista Veja do anos oitenta

Revista Veja do anos oitenta

Claro que Collor irritou a população com o confisco da caderneta de poupança. Este ano acabou não trazendo posteriormente nenhum benefício, ficou como um tiro nas costas da classe média em seus diversos graus. Mas, na base do movimento “Fora Collor”, a questão não classista e não econômica é que esteve sempre fervendo. Não à toa os primeiros a se mobilizarem contra ele foram estudantes de classe média alta, em colégios de gente rica. Era fácil encontrar “musas” e “musos” no movimento, já que a imprensa sempre vê tais figuras nos que possuem os rostos da classe média alta.

Ficamos sem perceber isso, o não caráter de luta de classes no conjunto da coisa toda, porque o movimento do “Fora Collor” desembocou em partidos ainda classistas, voltado para a política do início do século XX e alimentados por doutrinas do século XIX. Nesse ciclo, PSDB e PT herdaram bandeiras social-democratas interiores ao MDB e PMDB e, enfim, completaram uma época. Essa época chega ao fim agora, de uma vez por todas, com o esfacelamento do PT e com a inutilidade já anterior do PSDB.

Que tipo de esfacelamento temos? O que derrota o PT e faz o “Muro de Berlim” finalmente cair de uma vez, aqui entre nós? Problemas econômicos tem um peso, mas, novamente, o motivo é fundamentalmente de psicopolítica: traição da palavra, imoralidade administrativa, afronta ao brio da população. Dilma e Lula, na juventude, já estavam vivendo um apontamento para o que seria o resto, logo depois, do fim da modernidade clássica. Mas o destino quis ser mais irônico e trazê-los maduros, de cabeços brancos, para serem eles próprios imolados pela população de modo a não se deixar dúvida sobre a extermínio das diretrizes de uma época. O episódio dos grampos, da publicidade das falas e da incompetência de Lula e Dilma em perceberem em que tempo vivem, mostra o quanto a população está para enterrar dinossauros.

Cena do filme Adeus Lênin

Cena do filme Adeus Lênin

O Impeachment de Dilma, acontecendo ou não, agrupado à tentativa de Lula ser ministro para escapar da Justiça, é uma afronta que apenas sela de vez o fim do PT e o fim de qualquer possibilidade de existência de algum partido com o nome de “trabalhista” ou “do trabalhador” ou “socialista” e coisas do tipo. Finaliza-se uma época que, bem nos Estados Unidos, nasce para imediatamente morrer, que é esquisito canto do cisne de Sanders. Na verdade, “direita” e “esquerda” continuarão a existir no meio jornalístico, mas terão pouco a ver com questões de classe e, muito mais, com panoramas sobre o modo de automanutenção dessa estufa de mimos (Sloterdijk) chamada “sociedade da abundância”.

O que está em jogo agora são os estilos a respeito de como articular peso e não peso, gravidade e movimento anti-gravitacional, de modo a ver o que é que se pode chamar de realidade – a realidade 2.0 – no interior da estufa, as zonas de conforto do mundo atual, os Estados Unidos e a Europa, e bolsões aqui e acolá nos BRICS. Ar condicionado, vegetarianismo, invenção de papeis sexuais, entretenimento, performances esportivas, morbidez falada, biogenética e geração de monstros – esses serão os temas que dominarão os cenários dessas estufas, mesmo que tensionadas pelas migrações periódicas. A “questão dos pobres”  será a questão da entrada dos bárbaros, mas não mais a questão central, mesmo que tais zonas de conforto venham a ampliar diferenças até no seu interior menos afeito à rudeza.

Richard Rorty no passado recente se deu conta disso. Peter Sloterdijk atualmente sabe bem sobre tudo isso.

Em um prazo de menos de cinco anos e não ouviremos mais falar de “partido dos trabalhadores”. No máximo ficará por aí uma sigla moribunda, como alguma coisa extemporânea, como é o hoje o PCdoB ou PCB e adendos.

Peter Sloterdijk

Pessoas de direita e esquerda, no sentido defendido por gente que se diz socialista ou que se diz liberal de direita, não farão sentido nesse novo mundo. Estarão balbuciando coisas, mas completamente fora das narrativas internacionais que já estão sendo tecidas, há uns quarenta anos, por outros fios e cores. A “esquerda” tenderá cada vez mais a ser redesenhada por temas que manterão um vago sentido de generosidade para os menos fortes e liberdade de criatividade, ao passo que a direita irá se por sob o crivo do conservadorismo genérico e certo nariz torto para com a liberdade que se faça generosa demais para os menos fortes.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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22 Responses “O que virá com o fim do PT?”

  1. Plinio
    16/04/2016 at 08:32

    Talvez este autor acredite, também, que com as “diretas já” e a “civilização” do regime, a ARENA tenha desaparecido…

    • 16/04/2016 at 08:36

      Plínio, ninguém proíbe de sair gritando “Elvis não morreu”. Pode fazer isso.

    • Plinio
      21/04/2016 at 18:56

      Desculpe-me a limitação, mas não “captei” sei se o autor acredita, ou não, que a “arena” tenha desaparecido. Nós todos, creio, entendemos que Elvis Presley tenha morrido, fisicamente. Mas seu legado, suas músicas, filmes e “movimentos” são sempre citados, lembrados e copiados por todos os “rock n’ rollers for ever” Novamente me perdoe se não compreendi sua afirmação. De toda a forma não sairei “gritando” que “Elvis não morreu”porém, estou seguro que, em nossa faixa etária, temos grande admiração pelos momentos e alegrias que as obras e ideias de Elvis nos proporcionaram, ainda que não as tenhamos vivido integralmente. Acredito que não sejamos “viúvas de Elvis” mas, conceitualmente, o ideário permanece …alguns ainda se portam como sendo “Elvis forever”, vide Vegas! Creio ser esta a questão.

  2. Maximiliano Paim
    30/03/2016 at 09:01

    Lendo o Esboço para uma Teoria das Emoções, do Sartre, é impossível deixar de citar e tentar correlacionar que ele diz que a conduta emotiva diante da monotonia da vida o refúgio é o que se segue diante de um cenário no qual se esvaíram os caminhos – a obscuridade do isolamento dissimula o umwalt que amedronta. Me parece que há convergência aí com a bela e fascinante teoria do Sloterdijk do homem como design do espaço de mimo.

  3. Romildo
    28/03/2016 at 15:29

    Ora, ora,
    Abre los ojos y darse cuenta de que es un golpista!

    • Romildo
      28/03/2016 at 15:29

      Hilário esse comentário! Viu?

    • 28/03/2016 at 15:38

      Rpomildo, abra los ojos y darse cuenta que é un energúmeno.

  4. FARC
    28/03/2016 at 15:28

    Abre los ojos y darse cuenta de que es un golpista!

  5. Romildo
    27/03/2016 at 17:18
  6. José
    26/03/2016 at 21:31

    Mas porque só o fim do PT sendo que praticamente todos os partidos brasileiros sao siglas de fachada ou obsoletas, representando pouco ou nada?

    • 26/03/2016 at 22:30

      Tá explicado no texto José, e de maneira didática. Putz, acho que Umberto Eco estava certo.

  7. Thadeu Ximenes
    26/03/2016 at 16:26

    Parabéns pelo texto, meu caro professor.

    Sempre com posições muito límpidas e lúcidas. É evidente que o sistema, precisa de tempos em tempos, se “mexer” para depois se recompor, e, este é um dos momentos…a era petista já se foi e com isso comprovando que os “fracos” podem até assumir poderes, mas momentaneamente visto que os interesses se confundem nessas pequenas trajetórias dos fracos que alcançam posições mas não sabem como desenvolvê-los por estarem aquém do que sabem e podem. Enfim, sempre a velha nova situação de embates entre “fracos e fortes”.
    O que é necessário mesmo, é ter-se um grau de entendimento capaz de estabelecer os “por quês” de tantos certos e errados e para isso, como disse vc, uma formação mínima nas áreas de humanas.

    • Thadeu Ximenes
      29/03/2016 at 17:35

      Caro professor boa tarde, novamente.

      Não me resta outra alternativa, senão, agradecer-lhe pela resposta. Havia feito um comentário sobre a sua disseminação quanto ao fim do PT e eis que me dou conta do quão desatualizado estou diante da contundente forma como foi recebida a minha alusão sobre este fato. Vejo assim, o silêncio como uma ação, uma ação que suplementaria a insuficiência da palavra.
      “Não propriamente a sabedoria do calar, do não dizer por já haver dito tu-do, por não ter nada mais que dizer. Mas a sabedoria do que não foi dito, do que ficou à margem ou talvez no centro, o que por ser mais denso não pôde subir à superfície do rio da linguagem”. (TELES, 1989, p. 13).
      Assim, resta-me o consolo de parafrasear o que apregoava a mitologia mais primitiva(sumérico-babilônica, por exemplo) de que as coisas só tinham existência quando os deuses pronunciavam seus nomes(…)
      obrigado

  8. 26/03/2016 at 01:15

    Uma bosta de texto.

    • 26/03/2016 at 02:01

      Claro Zé, nós filósofos não falamos o que a patuléia quer ouvir, e ela geme. Você gemeu.

  9. Fernando
    26/03/2016 at 00:52

    Interessante. Partidos politicos brasileiros nunca tiveram consistência intelectual, exceto os de esquerda, e, mesmo nesses casos, sempre limitada a pensadores do partido e nunca gente com mandato (ex. governo petista abraça capitalismo mas PT ainda se coloca como socialista real em textos do partdo).
    Sempre me deu dó esse confusão que é a intelectualidade política do país e principalmente o vácuo no lado liberal (de esquerda e de direita). Vivemos numa democracia liberal e não tem ninguém falando grosso em nome da liberdade. Você acha mesmo que desapegar dessas tradições é o caminho? Não vai ser tão ou mais difuso quanto hoje?

    • 26/03/2016 at 02:00

      Fernando, para a filosofia direita e esquerda são questões posteriores e circunscritas. E como eu disse, agora redesenhadas.

  10. Renato Victor Bariani
    25/03/2016 at 23:22

    Na idade em que está o sr. Paulo Ghiraldelli ainda descobriu que existem dois olhares que desnudam os contornos da geo política mundial. Um científico e outro emocional.
    Se artigo é totalmente desconexo do universo que ele vive, carregado daquilo que ele quer ver. Se isso valesse necessitaríamos de pelo menos um bilhão de planetas terra para construir a teoria pessoal e sentimental agrupada em sete desejos dos mais de sete bilhões de habitantes do planeta.

    • 25/03/2016 at 23:24

      Bariani o texto é para iniciados em filosofia, não para caipira ou autodidata ou petista. Essas três raças não tem mesmo como entender.

  11. Maximiliano Paim
    25/03/2016 at 22:59

    O lipídio do sebo petista será desmanchado pelo sabão dos novos tempos. Já são nítidas mesmo essas bolhas.

  12. Josué
    25/03/2016 at 21:44

    Uma bobagem a histórica. Quem disse que o PT acabou? A necessidade do PT vai continuar sendo.motora das transformações que foram iniciadas pelos governos petistas. GOSTE A INTELECTUALIDADE OU NÃO .

    • 25/03/2016 at 23:00

      Josué quando eu vejo gente como você eu entendo o que realmente o Zika Vírus faz no cérebro do feto. Infelizmente você sobreviveu.

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