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11/11/2019

Filósofos na mídia: escorregões de conservadores e progressistas


9781441115386Um conservador sofisticado diz que não se importa com política, mas com a arte, e cita um filósofo da estética antes de iniciar sua preleção. Todavia, a arte não vem, e eis que a preleção é, mesmo, sobre política – e conservadora, é claro. Resumindo: a choradeira será contra aqueles que atentarem não contra a vida, mas contra a propriedade. Casas e fábricas? Não! Bancos. Ao final, ficamos com a impressão que esse tipo de filósofo, ao chegar à mídia, com seu uniforme de liberal conservador, comprou ações de algum banco e já se acha banqueiro! Só pode ser isso.

É assim em todo lugar do mundo. O filósofo britânico Roger Scruton é um conservador que ultrapassa esse perfil, mas, ainda assim, quando fala da política, não sabe dizer outra coisa senão condenar o sistema de previdência social do Welfare State europeu. O discurso sobre qualidades de vinho, sobre o belo e as considerações sobre o desenvolvimento da universidade ficam para trás. Sobra aquela coisa ranzinza que qualquer jornalista de direita fala todo dia.

Esse tipo de conservador pode citar qualquer filósofo. Não adianta nada. No frigir dos ovos seria até bom que não tivesse citado. Para aproveitar seu discurso, é melhor voltarmos aos vinhos, ao belo e coisas do tipo. Porque no campo político ele irá atirar pedra em Rousseau, talvez sem muito saber efetivamente que Rousseau era romântico e, em várias situações, muito próximo de sua própria posição.

Um progressista nos daria coisa melhor?

Um progressista sofisticado não diz do que gosta e do que não gosta. Seu discurso é político em qualquer circunstância. Não cita filósofos antes da sua preleção que, enfim, será mesmo de política. Faz sua preleção levando em conta a bibliografia da filosofia política. Em geral, pega pela história da filosofia e vai dos gregos aos modernos e contemporâneos. Todavia, na hora “H”, antes de qualquer outra referência, utiliza a explicação tradicional a respeito da mercadorização da vida. Fala das abstrações embutidas nesse processo e sua associação ao fetichismo e à reificação.

É mais ou menos assim em todo lugar do mundo. Há filósofo frankfurtiano que ultrapassa esse perfil. Pode radicalizar seu discurso, pois, afinal, o filósofo que leu Marx o levou a sério, não pode simplesmente adotar a via reformista, ou seja, a melhoria de vida na economia de mercado. Ao menos como ponto no horizonte, tem de colocar a possibilidade de uma sociedade sem mercado, pois só nela haveria o fim da ideologia, por obra do fim da reificação e do fetichismo.

Esse tipo de progressista, às vezes é difícil de ouvir pelo motivo inverso pelo qual reclamamos do conservador. O progressista centra-se de tal modo na crítica ao capitalismo que ao fim e ao cabo nada é importante senão utilizar todos os fenômenos como exemplos da atuação do demônio na Terra: a mercadorização.

O progressista faz um discurso plausível, mas repetitivo. O conservador faz um discurso às vezes novo, talvez menos repetitivo, mas ao caminhar para o campo político, que atropela o que disse que iria fazer, torna-se também repetitivo e, nesse caso, até mentiroso.

Caso no fosse por esse tropeço do conservador, que começa a falar de uma coisa e depois descamba para a política, então ele seria comparável com o progressista por meio de uma fórmula: enquanto o progressista fala de uma bela teoria filosófica, a da alienação, mas cansa a todos porque só fala disso e acaba por amarrar toda a novidade da realidade em tal camisa de força, o conservador tergiversa expondo sua erudição na teoria sobre o belo, sobre o juízo do gosto e coisas do tipo.

Infelizmente, o conservador não faz isso que promete ou parecia prometer. Ele faz um discurso político. No fundo, ele quer vencer o progressista retoricamente e, assim, até hipostasia teorias de esquerda que nem estão fazendo mais sucesso.

O discurso do progressista revela-se cansativo e o do conservador errado, até mentiroso às vezes.

Os conservadores deveriam fazer o que prometeram: falar de arte, por exemplo. Os progressistas fazem o que prometem, mas falam sempre da filosofia política apenas da perspectiva de alguma variante do marxismo. A filosofia que encosta na mídia tem de sair dessa dupla via. Isso cansa. Cansou a academia, mas para escapar foi beber na água da filosofia analítica. Uma boa coisa, mas também com limitações. Todavia, no âmbito da mídia, a filosofia não pode ir por essa vida, uma vez que nesse campo a filosofia dever permanecer mais próxima da literatura que dá ciência. Ao menos por enquanto. Aliás, talvez, isso nunca mude.

 Paulo Ghiraldelli

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13 Responses “Filósofos na mídia: escorregões de conservadores e progressistas”

  1. Luís
    20/10/2013 at 21:08

    A tipologia é provocante, porém acho mto interessante entrar nas exceções, talvez sejam mais interessantes, para ampliar o debate e pensar em uma filosofia feita no jornal, que mesmo falando de política e partindo de um um ponto do espectro, acaba enriquecendo os jornais e os leitores, poderia citar o Ortega y Gasset ou Gaetano Mosca,por exemplo.Bom,será que não deveríamos pensar não no fato de o autor estar em um ponto do espectro como algo relevante e sim, no talento de quem escreve ? utilizando sua perspectiva política(não gosto de ideologia) apenas como um primeiro degrau, mesmo que este sirva de apoio aos demais ?

    • 21/10/2013 at 10:30

      Qualquer intelectual, Luís, pode fazer escrever para o grande público, basta saber que está escrevendo para o grande público. A filosofia tem um vocabulário técnico, mas isso não atrapalha. Nós somos treinados para traduzir isso para o público leigo. Agora, o problema é que o jornalismo é político demais, e a política é uma coisa meio burra.

  2. Rick
    18/10/2013 at 16:39

    A Dilma convocou o exército para garantir a privatização do petróleo. Paulo, isso não é um fato muy insólito? Quem antigamente diria que um governo do PT seria capaz disso? De fato, os tempos mudaram. As coisas giraram 180º graus no Brasil. kkk

    • 19/10/2013 at 01:40

      Não vejo nenhum problema nisso. Nem na privatização e nem na convocação da segurança.

    • Rick
      19/10/2013 at 16:37

      Vc é a favor das privatizações?

    • 19/10/2013 at 20:09

      Cada caso é um caso.

    • MÚMIA
      21/10/2013 at 16:08

      Você que priva pela educação pública não deveria falar isso. O leilão do pré-sal será um grande perda de investimentos exatamente na educação em médio prazo. Saímos perdendo.

    • 21/10/2013 at 17:25

      Múmia, você voltou? Ora, fale você disso Múmia, você tem vindo aqui e posado de sábia, escreva, publique.

  3. Thiago S.
    18/10/2013 at 15:33

    Paulo,
    você poderia explicar melhor essa necessidade da Filosofia estar mais próxima da Literatura que da Ciência quando se trata do espaço midiático? Obrigado.

    • 19/10/2013 at 01:41

      Não se trata do espaço midiático, isso é uma questão de tendência histórica e geográfica. A filosofia continental, e não a analítica, tende a uma amizade com a literatura.

  4. Marcola
    15/10/2013 at 16:41

    Já estão ameaçando os professores por abandono de cargo. Esse secretário de educação do RJ e o sr. Cabral estão batendo o recorde de desgoverno. É a criminalização do direito de reinvindicar!

  5. MARCELO CIOTI
    15/10/2013 at 11:38

    Paulo,vai ser difícil pros filósofos conservadores e progressistas que você
    citou,falar sobre as eleições de 2014 aqui no Brasil tendo Marina Silva e o
    Bornhausen juntos.Você conhece o filósofo alemão Ernst Cassirer?

    • 15/10/2013 at 11:58

      Marcelo, a dificuldade sua é a de quase todo mundo, as pessoas não conseguem entender direita e esquerda, elas ficam olhando para personagens fixos e não para a história e para as movimentações. Esquerda e direita são, na origem, aquilo que se definiu na Assembléia francesa, mas em cada contexto, as disputas por hegemonia se alteram devido às composições que são o chamado “jogo da política”. Muita gente não consegue ver a política, a tomam como quem quer aprender a nadar só lendo um livro de natação. Sem as composições, debandadas, perda de prestígio, traições etc. nao há política – nem vida.
      Cassirer é um clássico. Mas tem coisa melhor sobre o assunto dele.

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