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20/10/2018

Filósofo mata a mulher e vai na pizzaria


violência contra a mulher“Mulher gosta de apanhar” – disse alguém. Um filósofo viu e acho bom reproduzir. Chocar e fazer pensar eram suas intenções. Fez correto?

Sei de um filósofo que estava massageando o pescoço da esposa e foi apertando e apertando e quando ela tentou reagir já não dava mais. Morreu asfixiada. Creio que se lembram desse caso, não?

Sei de outras mortes causadas por filósofos. Mortes de mulheres. Todavia, são mortes controversas quanto a real culpa dos filósofos. Os filósofos falam coisas por aí querendo influenciar pessoas. Ora, às vezes influenciam mesmo!

O filósofo pode colocar frases de todo tipo na praça. O que ele não pode fazer é não se responsabilizar por suas frases em um grau realista. Em um país em que todo dia há a morte de 15 mulheres por violência doméstica, eu posso falar as frases que talvez (eu nunca saberei!) venham a ser interpretadas de modo a ampliar a violência? Posso! Mas devo ao menos arcar com a dúvida: será que a mulher número X não morreu por causa de que o marido está imerso em uma cultura de descarte da mulher, uma cultura incentivada pela minha frase?

É óbvio que diante dessa pergunta posso me defender da seguinte maneira: caso eu vá percorrer uma cadeia causal entre a minha frase “machista” proferida e o ato de espancar uma mulher, se eu realmente conseguir estabelecer essa cadeia, eu não sou filósofo, sou um computador. Talvez um computador maluco. Não se pensa essas coisas em termos de culpas imputadas por conta de cadeias causais bem encontradas. Por isso mesmo, não se responsabiliza criminalmente um filósofo por conta da morte das mulheres por violência doméstica, caso ele tenha dito “mulher gosta de apanhar”. Todavia, dado que o filósofo é um educador público, a sociedade pode cobrá-lo eticamente, perguntando para ele o seguinte: será que você não está alimentando no homem uma tranquilidade interior quanto a viver em uma cultura em que ele já vive, isto é, uma cultura em que a mulher e a surra são pares que se atrairiam naturalmente?

Aqui todo cuidado é pouco. Um passo errado e censuramos o filósofo. E eu garanto: uma sociedade que censura seus filósofos já fez tudo que podia ter feito de ruim, e daí para diante vão morrer mais mulheres do que até então. É preciso questionar o filósofo no sentido de ver o que é que ele escreve; o que ele faz no sentido da sua atividade essencial. A frase “a mulher gosta de apanhar”, assim posta, solitariamente, não existe. Ela sempre vem em um contexto. Esse contexto precisa ser explicitado. Deve ser analisado. Analisar não é avaliar se a frase é verdadeira ou falsa. Isso não é filosofia, é plesbicito. E como tal, não leva à reflexão.

Refletir sobre uma frase é, antes de tudo, não só ver o seu contexto, mas realizar dois outros movimentos. Primeiro, desterritorializar, colocá-la em outros territórios, em outros contextos, para testar o que ela pode ou não fazer. Segundo, alterá-la, e para tal mexer no sujeito ou no objeto, mantendo o verbo. Por exemplo, que tal colocar ao lado dela a frase “homem gosta de apanhar”. Essa frase existe também no jargão popular? Não! Existe uma similar, que alguns diriam equivalente, não que não é equivalente: “homem gosta de sofrer”. Não raro as mulheres dizem umas para as outras algo desse tipo, como uma lição sobre “como prender seu homem”. Todavia, ninguém diria, com essa frase, que ela poderia ter funções devastadoras como pensamos que a frase “mulher gosta de apanhar” tem ou pode ter.

Esses exercícios ampliam o que se pode e o que não se pode colocar nos ombros de uma frase e, enfim, do filósofo que a pronunciou ou endossou.

O filósofo que apenas diz as frases e não faz esse exercício, ele está longe de fazer filosofia, ele está apenas fazendo uma arte que até pouco tempo diziam que era a arte do papagaio.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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8 Responses “Filósofo mata a mulher e vai na pizzaria”

  1. Jokas
    02/10/2013 at 11:02

    Essi filósofo pelo menos não mostrou a bunda para a platéia.

    • 02/10/2013 at 16:02

      Jokas, parece que você gosta de bunda de homem. É olavete? Olavo de Carvalho e olavetes adoram bunda de homem.

  2. Vagner
    30/09/2013 at 21:32

    Só mesmo a filosofia para nos fazer refletir sobre o absurdo e patético mal estar existencial. Por que cargas d’água gastar o precioso tempo que não volta mais para se horrorizar com essa hipótese nefasta de espancar o ser que merece ser amado?

    • 01/10/2013 at 13:00

      Vagner, refletimos sobre isso para entender se quando abrimos a boca não falamos mais merda do que o necessário, nós filósofos que vivemos com a boca aberta.

  3. Mariana
    30/09/2013 at 20:32

    Filósofo machista deveria ser proibido de ser filósofo.

    • 01/10/2013 at 13:02

      Mulher burra deveria ser proibida de frequentar a internet.

  4. 30/09/2013 at 20:06

    Trata-se de Pondé sua fala?

    • 01/10/2013 at 13:04

      Pondé? Bem, não sei. Por quê? Ele disse isso? Bem, no caso desse artigo eu estava praticamente em autoanálise. Aliás, como sempre.

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