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25/07/2017

Filósofo é estuprado em São Paulo


Não fumo maconha. Nem cigarro eu aprendi a fumar direito. Aliás, mesmo pedofilia eu não pratico!Julgamento de Socrates Nem lá tenho posição política definida a priori. Sendo assim, mesmo sendo um zero à esquerda em matéria de transgressão, incomodo muita gente. Por quê?

Ora, exatamente porque às vezes acho que FHC está certo debatendo a descriminalização da maconha. Às vezes acho que o Serra, errado em tanta coisa, está certo em ter proibido o cigarro em lugares públicos. Acho sempre que a maneira como o Brasil lida com o grito “pega pedófilo” substituiu o grito “pega comunista”, e esse tipo de coisa é errada, inútil e perigosa (para todos!). Às vezes acho que a esquerda, mesmo quando acerta, erra ao repetir demais um marxismo chato que Marx jamais endossaria. Às vezes acho que a direita dita liberal tem um só representante no Brasil, o Pondé. Tenho ódio mortal de quem maltrata cães e, de certo modo, animais em geral. Acho o trabalho no Congresso do Jean Wyllys exemplar. É isso.

Essas posições todas aí incomodam! Verdade! Incomodam muita gente. Deveriam incomodar? Creio que não. Tem gente com bem mais bandeiras que eu e com mais visibilidade, esse pessoal deveria causar mais problema. Todavia, quando encontro essas pessoas que eu acho que deveriam ser mais irritantes, descubro que elas até recebem menos estocadas que eu. Tento investigar as razões. Puxo dali e daqui e … pimba! Descubro! Claro: sou filósofo.

As pessoas esperam de um filósofo uma pessoa que irá ter o título de filósofo caso fale o que elas querem ouvir. Fora disso, elas ficam muito bravas. Isso não ocorre com sociólogos, historiadores, médicos, psicólogos, diretores de teatro, cineastas, jornalistas, cabelereiros e políticos. Eles podem ter qualquer opinião. Filósofo não. Filósofo pode fazer a graduação em filosofia, o mestrado, o doutorado, o pós-doc, pode virar professor livre-docente e titular. Pode fazer tudo isso, inclusive, duas vezes. Não! O título de filósofo é alterável. Falou o que um leitor quer ouvir, vira filósofo. Falou o que o outro leitor não quer ouvir, ou até o mesmo, perde imediatamente o título.

A atividade do filósofo, de uns tempos para cá, principalmente à medida que a filosofia voltou ao ensino médio, as publicações aumentaram e a imprensa nos redescobriu, adquiriu certa popularidade. Alguns colegas meus que nem se chamavam de filósofos e nem se consideravam como tal, passaram a se chamar a si mesmos de filósofos, largaram áreas paralelas e se reintegram na filosofia. Por sua vez, o público tentou entender quem eram essas pessoas, “os filósofos”, e, em geral, acabaram conferindo a elas uma visão meio que de manual velho: “sábio do local”.

Tudo isso ocorreu nesses últimos vinte anos. Justamente no período de surgimento popular da internet. E na internet autores e leitores se encontram. Eis aí a oportunidade de um público que recém descobria ou redescobria o filósofo, encontrar um filósofo cara a cara. Eis aí o acontecimento: o público passou a querer fazer conosco o que faz com outros elementos pop, como jogador de futebol, técnico, cantor etc. Querem que tais pessoas, e agora nós também, se comportem segundo seus desejos idiossincráticos. Quando não agimos assim, ficam muito mais enraivecidos do que com qualquer outra pessoa. Pois somos os “sábios do local”, e certo público, inclusive pela baixa escolaridade ou escolaridade ruim – que é o normal no Brasil de hoje – quer um certificado de inteligência imediato. Precisa disso. Quer mostrar para si mesmo ou para outro que há um filósofo que endossa o que ele já pensa. Briga conosco se o contrariamos. Não entende que nosso papel é justamente o de contrariá-lo para que ele possa pensar.

Ora, esse público não quer pensar. Não adquiriu a disciplina – só possível de adquirir em instituições voltadas para tal – do pensamento com rigor. Não sabe o que é rigor. Confunde tudo. Age como criança mimada com um brinquedo novo: exige que o brinquedo brinque do seu modo, não do modo objetivado no brinquedo. Quebra o brinquedo. Como não pode quebrar o filósofo em questão, gritam e esperneiam dizendo “não é filósofo”. Mas um dia antes, esse filósofo tinha falado o que era simpático e essa criança mimada, e havia sido eleito “o filósofo brasileiro” por ela.

Precisamos da volta de uma escola pública de qualidade urgente. Principalmente a escola de ensino médio. É nesse lugar que as coisas vão de mal a pior. E é justamente aí que se aprende tudo que é necessário para que não se saia por aí querendo estuprar filósofos. Pois o que sinto é que há uma relação de amor-ódio do público conosco. E uma tal relação pode, qualquer dia desses, virar uma relação sexual desagradável. Temo que um bicho brutalizado desses aí desencadeie uma campanha “eu estupro o filósofo”! Verdade. Há clima para tal.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Blog pessoal: http://ghiraldelli.pro.br

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12 Responses “Filósofo é estuprado em São Paulo”

  1. Ana Paula
    23/10/2013 at 13:00

    Paulo, você é uma piada… DE MUITO BOM GOSTO!!! Parabéns, adoro ler tudo o que você escreve. Gostaria de ser um ‘tantinho’ inteligente pra pensar (e escrever) como você. Um abraço e, continue polemizando, que é disso que o “povo” precisa, “chacoalhar as idéias”…

    • 23/10/2013 at 16:21

      Ana Paula, escrevo para gente inteligente, aberta! Você gosta? Fico feliz.

  2. Thiago S.
    23/10/2013 at 01:17

    A Filosofia não existe para endossar o senso comum. Vamos deixar isso claro, se possível…

  3. Robson de Moura
    22/10/2013 at 18:09

    Quando eu era garoto, eu fui buscar nos filósofos “fundamentos”. Eu queria estar certo, de posse do bem e ser belo. Não demorei muito, juro, pra perceber que eu era uma besta. Não sou grande coisa já adulto, mas essa besteira já não tenho. Às vezes vejo nas reações furiosas contra filósofos isso: crianças mal resolvidas dominando seus adultos como orixás fazem com seus ‘cavalos’; crianças buscando a ‘verdade’, o ‘bem’ e o ‘belo’ nos filósofos. Posso estar enganado, mas filósofo não é guru ou santo pra fornecer narrativas assim (hoje). No papo com filósofos o cara se repensa, percebe limitações, e… culpa o filósofo! O crianção culpa o outro por si mesmo! De longe, como acompanho, tenho orgulho de filósofos. Sinto essas reações como resultado da grandeza do ofício deles. Mas intimamente pros caras deve ser foda. Eu leio o Fédon, imagino Sócrates e penso “putz, que retidão! Que grandeza de caráter!” Fico orgulhoso. Mas o cara foi levado a matar-se né. Isso não é pra todos. Como leitor, tento participar da melhoria do ambiente, porque do jeito que tá, concordo com o texto: daqui a pouco ouviremos o “estupra o filósofo!”. E algum crianção ressentido pode lá no meio pode muito bem dizer “e os leitores dele tabém”. Nosso rabo também pode não ficar mais a salvo.

  4. Orivaldo
    22/10/2013 at 17:24

    Faça o que incomoda, pois o que não incomoda já está feito.

  5. 22/10/2013 at 13:08

    A sociedade vive em marasmo no senso comum. É gostoso ouvir uma palavra (mesmo que errada) que te de apoio. O problema é ouvir uma crítica, aceitá-la e contra-argumentar… não estamos em uma sociedade preparada para isso, e ai a burrice impera.
    Precisamos estudar MUITO para mudar esse quadro.

  6. Gustavo
    22/10/2013 at 10:04

    Os que querem estuprar o filósofo são os que, ou têm ressentimentos, ou têm receio de serem estuprados pela filosofia.

    Inté.

  7. LENI SENA
    21/10/2013 at 22:12

    Ao contrário dos que querem estuprá-lo tento aprender o máximo tudo que o caro professor fala, pra mim é uma honra falar com um filósofo.Passei a gostar de filosofia justamente porque ela joga na cara tudo aquilo que a maioria das pessoas não querem ouvir.Mal sabem essas pessoas que o agridem, que é mais interessante, e BOM, fazer amor com a filosofia do que sair por aí estuprando filósofos.
    Abraços, Paulo!

  8. Alex Domingos
    21/10/2013 at 20:14

    Muito bom…excelente resposta para esses “sabichões” que não suportam uma visão contrária.

  9. Jeferson
    21/10/2013 at 18:09

    Já cheguei a me irritar com alguns poucos filósofos. Mas confesso que isso me ajudou a pensar e a mudar posições radicais. Eu acredito que as pessoas não querem mudar de ideia, porque quando mudamos de ideia, mudamos atitudes, hábitos, medos, sonhos e caminhos. E mudar de rota dá a sensação que perdemos tempo e teremos que começar do zero. Ao menos, é o quê eu sinto e percebo em pessoas mais próximas.
    E relaxa Ghiraldelli, nem precisa ser filósofo pra que isso aí aconteça, basta pensar um “tisco de nada” diferente pra virar alvo. Estamos todos marcados (risos) — quem diria que pensar poderia causar tantos problemas?

    • 21/10/2013 at 20:21

      Jeferson, precisa ser filósofo sim. Os outros podem falar o que quiserem.

    • Eduardo Bernardes
      22/10/2013 at 00:36

      A irritação, por parte de alguns, não atinge apenas os filósofos. Posso lhe garantir, por experiência própria, que os psicólogos padecem do mesmo mal. Se este profissional expõe uma opinião contrária à maioria, também é alvo daqueles que não suportam o contraditório.

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