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27/03/2017

Verbete crítico sobre filosofia política


Filosofia política é uma coisa, ciência política é outra. A segunda lida com os instrumentos das ciências em geral para analisar as relações entre o estado e a sociedade. A primeira lida com dois elementos, que podem vir juntos ou separados: teoria política e utopia.

Uma teoria política visa estabelecer o funcionamento ideal entre estado e sociedade, com vistas a respeitar a justiça, tomada como conceito filosófico. A utopia é uma narrativa que mostra uma cidade idealizada, e é sempre negativa; visa expor uma situação social e/ou estatal irrealizável que, pelo seu exagero positivo, aponta para as sociedades existentes com seus possíveis erros.

A ciência política pode ser exclusivamente descritiva e analítica. Caso queira ser positiva, pode se utilizar de algumas sugestões da teoria política e até fazer leituras das utopias. Mas deve saber que teoria política e utopia vivem no âmbito da filosofia, possuem caráter normativo e imaginativo, destinam-se a fazer pensar, não é para ser colocada no papel do engenheiro social ou na prática do homem de estado, não do modo que se apresentam.

Vamos a um exemplo comum: Nozick versus Rawls.

John Rawls tem uma teoria da justiça. É uma teoria política no interior da filosofia política. Não é uma utopia. Trata-se de um liberalismo igualitarista em termos filosófico-teóricos. Pode ajudar numa formulação social de políticas práticas, mas não foi feito para ser realizada como se fosse um receita de bolo. Estabelece princípios e diretrizes do que seria uma sociedade democrático-liberal, nos moldes americanos (ou ocidentais, se quiser), com uma justiça mais razoável que a vigente. Busca expor um sistema legítimo de justiça distributiva e ao mesmo tempo preservar a liberdade, mas no âmbito do funcionamento teórico.  Por sua vez, Nozick tem uma utopia, não propriamente uma teoria política. Não tem função positiva. Serve exatamente como um exagero liberal, um viés altamente libertário no qual o valor principal e a liberdade individual, de modo a fustigar o ponto central da formulação de Rawls: qualquer tentativa de justiça distributiva por meio de mecanismos igualitaristas da teoria da justiça de Rawls, que envolve taxação, são mostrados, se nos convencermos da argumentação, como uma injustiça (sobre Rawls, Nozick e outros: Ghiraldelli, P. Filosofia política para educadores. São Paulo, Barueri: Manole, 2013).

O que é uma má formulação? Aquelas formulações que não deixam o leitor perceber bem as diferenças explicadas acima. Infelizmente, as formulações pobres são as que ganham o senso comum. Criam então a militância de direita e esquerda informadas por um conjunto que é antes meramente ideológico que doutrinário. Mais engana o militante que o ajuda a ser mesmo um militante consciente. Não à toa, quando estamos na universidade (na boa universidade, cujos professores ensinam os alunos a discordar deles), conversamos sobre liberalismo e comunitarismo na base de Rawls e Nozick, entre outros, é claro. Mas não conversamos sobre Mises ou leninismo. Isso fica para militância incapaz de entender filosofia, que absorve só ideologia, só amalgamas meio tresloucados, e que alimentam grupos aqui e ali como pouco cultura.

É isso. É simples. E isso divide bem os inteligentes dos não capazes.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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5 Responses “Verbete crítico sobre filosofia política”

  1. Novin
    05/10/2015 at 01:06

    Cara, na boa , por que não faz uma vizitinha ao mestre Pr. Caio Fábio?

    • 05/10/2015 at 13:17

      Novin, na boa, faz uma visitinha com “s” a uma professora que possa alfabetizá-lo. Caso não entenda a professora, apenas siga o corretor do Word, já ajuda bem. Consegue?

  2. Alexandre Aleixo
    03/10/2015 at 20:10

    Mas como essa visão em certos termos separatistas da filosofia lida com a abordagem pragmatista?

    • 04/10/2015 at 00:08

      Alexandre esse verbete é conceitual e em nada desmente o pragmatismo.

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Filósofo