Go to ...

on YouTubeRSS Feed

28/02/2020

Por que a filosofia é necessária na escola? O espaço do erro.


Por que a filosofia é necessária como matéria escolar? Porque em todas as matérias deve-se acertar, mas na filosofia o erro pode ser o grande objetivo. Devemos acertar na conta de dividir, na colocação dos plurais, na identificação dos rios e montanhas e também falar que Manoel da Nóbrega e José de Anchieta fundaram São Paulo. Bem, se é assim, boas notas virão. Mas, em filosofia, acertos não trazem ganhos. Uma boa nota talvez tenha que ser dada ao aluno que fracasse em suas experiências. Na química é imperdoável uma experiência falha, na filosofia isso é uma benção.

Parece-me necessário que ao menos em uma matéria escolar seja premiado o erro, não o acerto. E que não se tire daí que a filosofia é mais fácil por isso. Os jovens não são educados para errar, por isso, sabem pouco disso. São treinados para “não perder tempo” e “acertar tudo”. Devem ser velozes e sagazes. Quanto mais cedo terminam uma prova com o maior número de questões corretas, mais pomposamente são promovidos. A experiência errada, a derrota, a frustração não conta. Serve apenas mesmo como derrota. Mas a filosofia é o lugar do erro! É o lugar em que a experiência é de fato uma experiência.

Um exemplo talvez deixe claro o que quero dizer. Suponhamos o pensamento do Eterno Retorno de Nietzsche. Ele formula uma concepção de história em termos de tese cosmológica, imitando os antigos: tudo que ocorre agora já aconteceu e voltará a acontecer, e isso incessantemente. Vivemos em círculos, e a repetição é nossa regra. Aceitemos isso e passemos a viver segundo uma tal concepção. Feito isso, façamos a experiência de transformar essa tese cosmológica ou essa filosofia da história em imperativo ético – pois não nos resta outra opção. Que seja assim: viva cada momento com a capacidade de querer o que efetivamente vai ocorrer, uma vez que este é um momento que irá se repetir, e não só mais uma vez, mas muitas. Você é capaz de viver assim? Eis aí uma experiência bem proposta: a experiência de viver segundo o amor fati. Amemos os fatos. Vivamos como quem tem pode ser suficientemente corajoso para querer o que está passando não seja algo que não volte inúmeras vezes. Trata-se de uma experiência em pensamento, e também um desafio ético. Pode-se aceitá-lo? Há coragem para tal? Pode-se sair vitorioso disso? Temos condições de enfrentar a vida vivendo cada experiência não como o que irá passar, mas como aquilo que irá voltar uma vez e uma vez e uma vez mais? Eis aí um laboratório de filosofia. Uma aula ou várias. Um curso! Uma vida.

Filosofia não é auto-ajuda e não é política. É experiência. Tudo muda de figura quando adentramos a aula de filosofia. Acertar pode ser errar e errar pode ser acertar. Suponhamos que o professor coloque como tarefa a assunção dessa experiência do pensamento, a adoção do “eterno retorno” como imperativo ético. É uma experiência de “acertar” ou “errar”? Ou realmente, pela primeira vez, em um caso assim, a escola deixa de ser artificial para trazer o jovem para o uso efetivo da valoração de vivências? Nesse caso, não se está aprendendo história da filosofia (a lição de filosofia contemporânea: Nietzsche) e ao mesmo tempo filosofando? Sim!  E isso tem a ver com tirar nota por acertar uma questão? Não! A filosofia é uma matéria necessária porque coloca a escola como um lugar de acontecimentos, não de pseudo-acontecimentos. Por isso a filosofia é para todos e ao mesmo tempo não é para qualquer um.

Claro que se pode objetar que para que tal ocorra é necessário ter um bom professor, ou seja, alguém bem formado que ganhe bem de modo a não abandonar o magistério. Mas isso não é uma objeção, pois tal requisito vale para os outros professores também, e deveria ser uma proposta do estado, a de recuperação social e econômica do professorado. Mas, supondo que essa regra básica seja ponto pacífico, aí sim, na avaliação entre o que deve estar no currículo obrigatoriamente, a filosofia deve ganhar destaque. Em nenhum outro lugar o jovem poderá errar. Errar nos faz humanos.

Só errar nos faz humanos. Sem uma disciplina na escola voltada para nos fazer humanos, de que adianta a escola?

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor de Sócrates: pensador e educador (Cortez, 2015).

Tags: , , , , , ,

6 Responses “Por que a filosofia é necessária na escola? O espaço do erro.”

  1. Alex Ricardo
    04/10/2016 at 04:40

    Perceber, reconhecer e aceitar que a condição de ser humano está relacionada a imperfeição. Algo totalmente difícil de ocorrer diante de professores doutrinadores, detentores de uma verdade particular e que a querem tornar universal. Talvez essa seja uma das maiores desventuras de qualquer docente de filosofia. De tal modo que se permanece em um mero discurso de contemplação e que se cria repulsa daquilo que cause desconforto. Há ainda uma grande leva de professores de ensino médio, não competentes para conduzir a filosofia, que desconhecem essa postura. Nesse caso, o amor fati é inexistente.

    • 04/10/2016 at 08:45

      Alex mas a doutrinação é isso aí, não existe. Só existe na cabeça do adversário.

  2. Maximiliano J. Paim
    14/06/2015 at 20:55

    O teu amigo Pondé também gosta de dizer que o erro (ou o fracasso) nos faz humanos. É onde vocês se encontram – talvez o único ponto.

    • ghiraldelli
      15/06/2015 at 11:40

      De modo algum! Não estamos falando a mesma coisa não. Aliás, ele lá sabe o que fala?

    • Maximiliano J. Paim
      15/06/2015 at 19:57

      Realmente, não. Ele sabe o que falará apenas pra vender livros, artigos e carregar seguidores.

    • BETHOVEN SOARES DARCIE
      14/06/2016 at 09:49

      kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk O questionamento é sempre mais interessante que a resposta. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *