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30/05/2017

A filosofia é para o homem-cão, não para o homem-barata


Há dois e somente dois tipos de homem: o que sentiu o “respirar fundo” de um cão e o que não sentiu. Há o homem que sentiu e percebeu o respirar fundo ou o suspiro do cão, descansando em sua perna em um gesto único que, para nós humanos, significa “agora estou bem, estou acolhido”, e há aquele homem que ainda está cobrando dos que amam cães que estes, para serem coerentes, amem baratas. O primeiro sabe o que é a vida, o segundo nada sabe, nem da vida ou da morte, nem de coisa alguma.

O primeiro homem tem condições de ser filósofo. O segundo, definitivamente não. Falta a este a capacidade fundamental de aquisição de experiência. Pode passar por mil experiências, aventuras e desafios, mas jamais terá feito parte de um elemento fundamental para a filosofia, ser sugado para dentro, recuperar toda sua capacidade de se sentir duplo – como todos somos – a partir do oferecimento, pelo cachorro, de ampliação da ressonância de sua microesfera, de sua bolha inicial. Falta a ele aquilo que é a capacidade inata de entrar em relações, ou, nas palavras de Martin Buber, o “instinto de relação”, que a maioria de nós teria ou deveria ter.

Na teoria das esferas de Peter Sloterdijk, todos nós somos no mínimo duplos. A subjetividade é mostrada como uma esfera construída por ressonâncias que se fazem por interpenetrações várias, sendo que uma marcante é a do interior do útero, que ocorre entre o que será o feto e o que será a placenta. A partir daí, toda intimidade que se liga à subjetividade, sempre nos conduzirá a sermos aptos a relações (ou não), e isso poderá nos dar a condição especial de termos experiências que podem ser incorporadas como vivências. Construímos mundos porque estamos sempre construindo novos interiores, tendo por base o interior consistente que é ele próprio um duplo, o pensamento. Platão definiu o pensamento como a conversa consigo mesmo. Sócrates viu isso como um “dois-em-um”, segundo Hannah Arendt. A imediata configuração esférica que se realiza entre o homem que sente e percebe o cachorro no seu pedido de descanso, de agradecimento e de confiança (sabemos que os cães fazem isso quando se sentem acolhidos, num gesto de crença na confiança alheia) é uma ressonância chave para que se forme ali um campo esférico ou que um campo esférico já construído seja ampliado em melhor mobiliado. Nesse sentido é que Sloterdijk diz que o homem é um selvagem designer de interiores.

Ser um selvagem significa ser capaz de experiências, vivências, antes mesmo de qualquer constituição de uma situação de sujeito-objeto. Um selvagem designer de interior é o que mobilia um espaço subjetivo mesmo antes de ser um sujeito. A experiência com o cão não precisa ser linguística, a interpenetração ali não é do tipo sujeito-objeto, que exige confronto, ou uma experiência intersubjetiva. Trata-se de uma vivência em que a intimidade se revela na sua faceta de algo que, se pudesse ser verbalizada, seria como “agora tudo está bem”.

A filosofia pode dar condições para teorizarmos sobre isso. Mas ela própria prefere acolher aqueles que viveram isso, que podem viver isso. Ela não tem como acolher os sabichões da retórica que ao verem uma tal situação correm chamar baratas ou pernilongos ou outros bichos do tipo para dizer que está havendo ali incoerência, que no fundo os que se apegaram ao cão são ou inautênticos ou ingênuos ou falsos. Esse sabichão não é apto à filosofia, muito menos é merecedor do amor do cão. Ele carece de condição humana.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

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2 Responses “A filosofia é para o homem-cão, não para o homem-barata”

  1. Leni Sena
    30/06/2015 at 21:49

    Sentir o outro é algo tão simples e ao mesmo tempo inviável para algumas pessoas. Isso porque somos duplos, imagine se fôssemos uno.

  2. Osmar Gonçalves Pereira
    30/06/2015 at 10:01

    Nas madrugadas frias a olhar a rua em silencio a dor ciática se esfuma quando Bob e Ash se aninham, um de cada lado, e ressonam.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo