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29/03/2017

Filosofia feminista, legitimidade e questão do aborto


O feminismo é um movimento social e merece um lugar na sociologia. Os estudos de gênero cabem no âmbito da filosofia social. Essas duas afirmações são bem aceitas no mundo intelectual e acadêmico. Todavia, há uma terceira, nesse contexto, mais difícil de aceitar. Trata-se daquela que diz que existe uma filosofia feminista, ou seja, problemas na ordem da tradição da conversação metafísica que precisam do feminismo.

À primeira vista, ao menos por um ângulo, é fácil acreditar que o homem genérico não é tão genérico, e que continua sendo o macho-branco-europeu, e que uma antropologia bairrista sorrateira se infiltra na metafísica e na epistemologia e nos faz assumir as discussões tradicionais, da relação entre linguagem e mundo, sem notar o “ideológico de gênero” em tal prática. Não é difícil dizer, se pensamos um pouco, que a linguagem que visa acessar o mundo não-linguístico ou a linguagem que só pode acessar o mundo linguístico é sempre uma determinada linguagem, e não a linguagem sem RG ou endereço. Assim, se os problemas filosóficos tradicionais tivessem sido equacionados por mais de um gênero, poderiam ser diferentes ou mesmo outros. Sim, podemos imaginar isso. Mas, quando pensamos isso mais de perto, e exigimos elementos mais palpáveis para levar adiante tal imaginação, nem sempre conseguimos dar passos sólidos.

Em outras palavras: será que a conversa sobre gênero tem algo a acrescentar para o nosso saber ocidental que não aquilo que a sociologia ou a filosofia social sociologizante tem a dizer? Será que feminismo é alguma coisa que possa caber no campo filosófico? Será que feminismo, em filosofia, não é realmente apenas uma forma de dizer, por outras palavras, algo como “a ótica dos operários muda a filosofia”? Talvez estejamos com o feminismo apenas repondo uma pergunta meio que carcomida, a velha questão que um dia alimentou a “filosofia do proletariado” ou coisas assim, como se uma ótica classista, agora transformado em ótica de gênero, pudesse realmente mudar tudo na filosofia.

Alguns podem dizer que em epistemologia o feminismo talvez não pudesse mudar muito, mas que em ética sim. Mas, eu pergunto, o que propriamente? Uma discussão sobre o aborto é uma discussão sobre algo que traz a perspectiva de gênero na jogada. Qualquer um de nós pode concordar, sem muito esforço, que homens e mulheres, simplesmente por serem homens e mulheres (considerando gênero e não sexo), são empurrados para posições diferentes em relação ao aborto. Por mais que uma mulher seja favorável à “proteção de crianças” ou “cuidado com o mais fraco” ou “proteção à vida”, sempre para ela seria mais fácil fazer a defesa do direito ao aborto (ou descriminalização do aborto) do que para um homem? É isso que o feminismo pode nos dizer? Caso seja algo assim, independente disso ser verdade ou não, temos aí alguma coisa de uma narrativa filosófica? Não é isso algo de uma narrativa geral, pensável por qualquer sociologia ou qualquer romance ou novela?

Quando consideramos o aborto uma questão de ética, e certamente ele é uma questão ética, podemos grosso modo sacar duas alternativas do bolso do colete: primeiro, podemos colocar o problema a partir da busca de fundamentos, sejam eles filosóficos ou religiosos ou científicos; segundo, podemos colocar o problema como algo que não vai se resolver por conta de fundamentos, mas sim por um jogo de “dar e requisitar razões”, como em qualquer discussão política. Por uma via ou outra, no que esse problema precisa do feminismo mais do que precisa de tantas outras óticas? Se o feminismo vai poder colocar mais cartas na mesa, por exemplo, falando algo como “meu corpo minhas regras” ou outros jargões das discussões de gênero, será que realmente isso é alguma coisa que não seria colocado independentemente do feminismo? Por exemplo, em um “mundo masculino”, a ideia de legalizar o aborto pode ser fazer necessária para libertar a mão de obra feminina, e se isso vier a ser uma verdade e uma necessidade mesmo, não poderia vir à tona na agenda social sem qualquer participação do feminismo?

O que tenho a dizer é que uma ótica a partir de “questões de gênero” é bem menos plausível de legitimidade que várias óticas em que o assunto “gênero” seja um tema a mais. Gênero me parece antes um tema transversão nas ciências humanas que um tema vertical, uma disciplina, uma filosofia. Mulheres podem falar em qualquer lugar. Quando começam a falar a partir de grupos feministas ou a partir de cátedras de “filosofia de gênero” criam uma auto-segregação completamente desnecessária. Talvez até prejudicial.

Paulo Ghiraldelli 59, filósofo. São Paulo, 14/10/2016

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8 Responses “Filosofia feminista, legitimidade e questão do aborto”

  1. Luis Henrique
    31/10/2016 at 23:32

    Segregação não é um problema só do feminismo, como questão de gênero e epistemológica. Vale para sociedade em geral tão carregada de certezas políticas rasas, limitadas no seu próprio campo de visão. É um problema de pessoas carregadas de raiva, empacadas.

    • 31/10/2016 at 23:55

      Luis Henrique isso é outro problema. O Feminismo gerou uma perspectiva teórica específica, daí o complicador.

  2. Nara Peregrino de Carvalho
    23/10/2016 at 01:32

    Discordo de que a perspectiva feminista possa segregar. Ela pode e deve especializar, no sentido de trazer um olhar com informações mais específicas de um grupo diretamente envolvido em questões a ele afetas. Especificar pode segregar? Talvez. Mas também evita algo pior: a anulação de um sujeito por outro, incapaz de enxergar certas nuances de questões estranhas como, por exemplo, o aborto.

  3. Eder
    15/10/2016 at 11:38

    Isso vale também para o chamado Estudos pós-coloniais que reivindicam epistemológicas próprias como “filosofia africana”?

    • 15/10/2016 at 11:45

      Eder tudo na vida deve ser pensado com o “cada caso é um caso”. Filosofia africana é como filosofia americana? Ou é algo como “vamos tentar dizer que a filosofia é africana”? Nessa segunda acepção, a coisa vai mal.

  4. Pedro de Sousa Portela
    15/10/2016 at 00:42

    Não sei, mas acho um exagero que qualquer assunto hoje que ganhe alguma relevância social, já queira uma emancipação epistemológica, um status de disciplina com objeto próprio e tal. Existem cursos por aí, com grades curriculares surreais, de trinta, quarenta disciplinas ou mais. Enfim, acho exagerado! Não é mesmo, professor Paulo?

    • 15/10/2016 at 08:44

      Pedro, o feminismo não é de hoje, pode reivindicar status de disciplina, aliás, já possui isso faz tempo nos Estados Unidos. O problema que o texto levanta é sobre o que especificamente reivindicar.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo