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23/11/2017

Filosofia e religião – não estamos lidando com irmãos siameses?


Voltaire foi talvez o filósofo que mais propagou e incompatibilidade entre filosofia e religião. Todavia, sabemos bem que, a quatro paredes, dizia que sem a religião a população seria ingovernável. De lá para cá a modernidade fez da religião, quando em contato com a filosofia, uma adversária, talvez inimiga. Perdeu-se o ideal de Agostinho, Boécio e Anselmo. Para estes, a religião não era uma venda nos olhos, mas exatamente o oposto, uma luz para conduzir a investigação em busca do melhor conhecimento.

Esse entendimento da religião, hoje, é difícil de ser explicado, tamanho o movimento que a modernidade fez, pela boca de voltairianos de todos os matizes – até mesmo Marx! – no sentido de opor as luzes da fé às luzes da razão. Mas para quem não é neófito em filosofia, uma certa comparação pode fazer pensar. Basta lembrar do recados das musas para Parmênides. O que disseram? Primeiro: o que é é, o que não é não é. Segundo: o caminho do que é, é possível, o caminho do que não é, claro, não é possível. Afinal, o que seria investigar o não é?  Terceiro: o que escapa ao que é e ao que não é, pode ser chamado de simples non-sense. Ora, quando Parmênides se deu conta dessa ontologia casada com a lógica, ele sentiu que havia mesmo recebido um recado divino. Para nós, preceitos lógicos parecem naturais. Para ele, tratava-se de um achado divino para entender o mundo e o pensar. Ganhar o aviso divino do quanto seria bobagem voltar os olhos para o que não é e para o non sense – isso lhe foi espantoso! Os recados dos filósofos cristãos nunca disseram outra coisa senão algo análogo ao recado das musas para Parmênides: a luz da fé nos dá o que é, então, podemos seguir por aí de modo a não gastarmos nosso tempo com os caminhos fechados, do que não é, ou tolos, do non sense. Uma estrada iluminada é um campo de investigação, mas a parte não iluminada, as beiradas da estrada, não devem ser contadas como lugar de investigação – não são, ou simplesmente são o sem sentido.

Quando o estudante de filosofia compreende essa ligação entre a ontologia católica e a ontologia parmenídica, ele entende a razão pela qual não foi difícil para os cristianismo produzir uma quantidade grande de filósofos, todos eles estudiosos da filosofia grega. A fé que dá o campo de investigação da razão é perfeitamente um recado prudente, de bom senso. Anselmo consagrou tal preceito na fórmula: “não quero saber para crer, mas crer para saber”. Em outras palavras: não quero investigar às cegas, tateando, sem hipóteses, e sim com diretrizes em que posso crer, para seguir adiante sem me preocupar em ter pego um caminho que não é um caminho, ou um caminho tolo. De certo modo, ao iniciar uma investigação conjunta, a do elenkhós, Sócrates pedia a mesma coisa de seu interlocutor ou parceiro de investigação: diga-me o que acredita nesse assunto, verdadeiramente, sinceramente. Só então, ao ter uma crença firme, iniciava-se a colocação de outras afirmações, num processo contínuo de depuração por levantamento de contradições. Quem faria diferente?

Quando iniciamos uma indagação, quantas coisas antes não temos que simplesmente crer? Quando Descartes iniciou pela dúvida e a fez hiperbólica, não lhe foi fácil colocar em dúvida o conteúdo do pensamento e da imaginação. Só mesmo imaginando um Deus louco, enganador, seria possível não ter certeza de coisa alguma, teve de admitir ele. Um Deus louco seria aquela Deus que viesse a dizer: pesquise no que não é, ou no sem sentido.

Cada um de nós, filósofos, temos que cotidianamente repensarmos nossa relação com a religião, num gesto de humildade intelectual necessário.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo: 03/12/2016

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8 Responses “Filosofia e religião – não estamos lidando com irmãos siameses?”

  1. 16/01/2017 at 13:23

    Interessante.

  2. 14/01/2017 at 17:23

    Interessante.

  3. Sergio Fonseca
    06/12/2016 at 15:41

    Livro: Efeito Isaías de Gregg Braden. Experimento e fé se juntam aqui, um estudo espiritualista da física quântica.

  4. Sergio Fonseca
    05/12/2016 at 19:50

    A dificuldade está na aproximação da fé com o experimento. Talvez a filosofia contemporânea rejeite tanto a religião pelo fato dela desconsiderar completamente o experimento. Quando Pierce junta ciencia e forma de vida e diz que o experimento pode “não dar em nada”, não sei se aqui a fé estaria segura!!!

    • 05/12/2016 at 23:43

      “Fé e experimento”? Do que fala? Quem iria juntar isso, que ridículo!

  5. Luís Fernando Gotarde
    04/12/2016 at 22:12

    Caro Paulo, tua pergunta “Quando iniciamos uma indagação, quantas coisas antes não temos que simplesmente crer?” me parece de um mesmo tom provocativo com o qual James nas “Conferências” indagou sobre os limites do repertório filosófico empirista e racionalista. Mas, principalmente, quando, em “A vontade de acreditar”, tratou de situações nas quais a pessoa se depara com uma decisão importante que afetará profundamente sua vida em que os critérios não se resumem a métodos científicos ou silogismos.
    Tanto naquele momento, quanto na atualidade, penso serem, essas tuas, críticas – mais que atuais – para ontem.
    Um abraço,

    • 05/12/2016 at 09:06

      Gotarde, não provocativa, apenas é uma constatação, acreditamos mais que duvidamos, claro. Caso contrário, não falaríamos uma linguagem.

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