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17/08/2017

A filosofia é “gay”, e Sócrates é estranho!


Acreditar que a filosofia poderia ser uma criação heterossexual é como acreditar que um coelho possa preferir antes pernil que cenoura.

Mas há pessoas que acreditam que um coelho é antes de tudo o Pernalonga, aquele que anda com uma cenoura na boca e que pode, como prêmio máximo, preferir pernil. Há quem não consiga entender que Pernalonga não é uma ficção qualquer, mas uma determinada, a da projeção de um tipo de homem sobre um coelho. Há uma série de situações, pessoas, acontecimentos e coisas que uma vez despojadas de certos elementos não possuem a mínima condição de poderem receber o mesmo nome que tinham. Mas, por uma operação ideológica profunda, a do mecanismo de projeção, isso acaba ocorrendo. Assim foi com a filosofia.

A filosofia é gay (em um sentido especial da palavra), mas no mundo moderno burguês isso não podia ser dito. Ainda não pode. Nesse caso a ideologia foi chamada para fazer seu serviço de sempre: mostrar tudo de modo que tudo efetivamente seja bem visto e nada enxergado.

Por anos e anos não entendemos que a heterossexualidade como um dado natural é uma ficção até meio tola e, por isso, não compreendemos que o homoerotismo poderia produzir – como de fato produziu – algo que almeja ser o suprassumo dos feitos dos bípedes-sem-penas (para lembrar a expressão imputada a Platão). A filosofia seria um polo culminante da cultura humana e, sendo o homoerotismo algo do desvio humano, ele não poderia ter criado a filosofia ou, se a criou, não poderia ter deixado nela marcas centrais. Todavia, foi sim o homoerotismo que criou a filosofia e, sem ele, a filosofia é tudo menos filosofia.

Claro que estou falando aqui da filosofia em seu sentido por nós adotado hoje, ou seja, o do envolvimento sério com as narrativas de Platão. A filosofia narrada e praticada por Platão tem uma dívida para com a sua brilhante inteligência e para com a prática da pederastia invertida tentada por Sócrates. Foi da perspectiva e da práxis homoerótica que se inventou a tal de filosofia.

A sociedade com valores calçados por um Eros objetivo, figurado efetivamente como um deus e um demiurgo, e por um campo de práticas, visões, odores e percepções completamente masculinas criou a filosofia. Sócrates foi o inventor dessa maluquice do “conhece-te a ti mesmo” transformado em guia da investigação filosófica. Esse conhecer-se nunca veio à prática filosófica senão na teia de relações de homens que amavam homens enquanto homens, não enquanto deuses, animais, monstros, mulheres ou crianças. Homens másculos com efebos – essa amizade e amor criados como instituição cultural e educacional de Atenas, segundo suas particularidades, é que fez a pergunta de Sócrates posta no “conhece-te a ti mesmo” ganhar sentido. Mulheres, animais, deuses e monstros sabiam o seu lugar exato no mundo. Só o homem másculo, o homem efetivamente homem e que, por ser másculo, gosta de homens, tinha problemas em saber sobre sua posição e saber se estava mesmo no lugar certo. Ao querer confirmar isso, buscando o “conhece-te a ti mesmo”, esses homens criaram a filosofia. Sócrates foi o melhor intérprete desse desejo, e o fez não no exercício da pederastia comum, mas de sua prática invertida.

A pederastia foi a única instituição no Ocidente que deu certo quanto à tarefa de criar adolescentes em uma sociedade livre. Nem antes e nem depois de Atenas isso se fez com acerto. A prática do homem mais velho de dar espaço social para um mais jovem, cuidando dele, foi a única maneira que o Ocidente descobriu como um modo capaz de educar adolescentes. Mutatis mutandis é o que fazemos hoje, ainda que sob mil disfarces, e com os adereços vindos da abertura do mundo para as mulheres. Se não tivéssemos isso, ainda que agora sob mil capas hipócritas, não teríamos nem socialização nem criatividade. Sócrates seguiu tal prática, mas em determinado momento a inverteu e, nisso, fez a filosofia acontecer.

Ao invés de se colocar como o mais velho que se torna amante do efebo, Sócrates fez o efebo ter curiosidade por ele, por sua vida adulta, pela sua pergunta sobre o “conhece-te a ti mesmo”, e então cair de amores. Sócrates foi acusado de corromper a juventude e, nisso, a acusação acertou. Os jovens não deviam ser apaixonar pelo mais velho na pederastia e não deviam canalizar seus esforços e impulsos, inclusive sexuais, para o “conhece-te a ti mesmo” como uma obsessão. Sócrates é que criou essa virada. Sócrates subverteu o homoerotismo dessa instituição educacional sortuda, a pederastia. Essa virada gerou a filosofia como Platão a re-inventou em suas narrativas, fazendo de Sócrates um personagem, o mestre da ta erotika, a expressão que aglutinava o sentido de arte de fazer perguntas e arte do amor – o que hoje chamamos de o bom namoro.

Sócrates quis deixar marcado na pederastia o quanto ela havia criado a filosofia, mas na sua inversão. Ele quis mostrar que vivendo em uma sociedade completamente masculina, a sua própria formação como filósofo não havia vindo de homens. Ela não era comum! Todos os mestres que ele reconheceu foram mulheres – reais ou talvez fictícias. Com isso, deixou claro que era uma pessoa diferente, que o que fazia era diferente de outros que se diziam ou sofistas ou mesmo filósofos. Mas com isso também mostrou que para ir mais fundo na filosofia era necessário ter uma visão mais ampla que a de uma sociedade centrada em uma só perspectiva. Só o masculinismo não bastava. Era necessário, para ver segredos do intelecto, percorrer o mundo das mulheres (sua mãe, Xantipa sua esposa, Aspásia sua professora de dialética e, por fim, a sábia da Mantinea). Ele havia feito isso e, então, poderia criar algo novo em Atenas. Mas isso só foi possível de ser uma novidade e de gerar algo novo, a filosofia, porque o pano de fundo era homoerótico. Caso não fosse, nenhuma dessas ideias teria tido sentido. Seria tolice falar formação vinda de mulheres em um mundo onde isso não fosse algo estranhíssimo. Sem essa trama talvez o pensamento grego tivesse gerado, como gerou, a cosmologia dos pré-socráticos, que virou física, ou o jogo de retórica dos sofistas, que virou o ensino para a democracia e, enfim, a arte de transformar tudo em questão de discurso público e voto.

No mundo masculino e de amores predominantemente masculinos, que era aquele chamado de cultural, pois livre da escravidão da natureza e do destino animal da qual a mulher era a representante máxima por que gerava uma cria, Sócrates trouxe um saber diferente: o homem não deixa de ser melhor por ficar louco de amor. O jovem pode se apaixonar sim pelo homem mais velho. Não é só o mais velho que, sendo mais velho e tendo juízo, pode se apaixonar pelo mais novo. O mais novo pode aprender a ter juízo nessa relação e sua prudência, a sofrosine, que é uma virtude espetacular, pode muito bem ser aprendida nessas circunstâncias. Ora, então aí entra a filosofia, exatamente na pederastia invertida. Ela ensina a automoderação do jovem sem que ele precise, eternamente, do policiamento do escravo pedagogo. Ela ensina também a responder, no namoro (a arte erótica na qual Sócrates dizia ser doutor), sobre quem se é e quem se deseja ser enquanto homem livre. Respondendo a perguntas do tipo “O que é a Coragem?” ou “o que é o Beleza?” o jovem, junto com o filósofo, poderia tentar então ter nas mãos o que precisaria para depois dizer se ele mesmo seria um corajoso ou um belo. Nesse sentido, enquanto homem livre ele aprendia a dizer de si mesmo verdades ocupando na sociedade de homens livres um lugar autêntico. Esse era o objetivo da filosofia. Quando praticada na sua autenticidade, ainda a filosofia é isso. Ela em um sentido amplo está a serviço da pergunta de Peter Slotedijk: “onde se está quando se está no mundo?”

Tudo isso envolvia, também, um pavonear-se completamente masculino, de exposição de homens para homens. Mas tudo isso envolvia também uma percepção da hybris enquanto um excesso grego, que precisava ser mais bem ponderado. Nenhum grego conheceu o qualificativo “humilde”. Mas o grego, com a filosofia, conheceu algo como “saber a qual lugar se pertence o que fazer para ocupa-lo”. Isto é, há algum conhecimento de si enquanto uma pessoa cujo “si” são sua qualidades exteriorizadas e, não raro, as tituladas pela cidade. Ter esse conhecimento do lugar é o prêmio da filosofia para quem se envolve com ela. Afinal, nunca o “conhece-te a ti mesmo” foi uma autorreflexão no sentido cartesiano e muito menos uma investigação no sentido psicanalítico. Sempre foi uma pergunta que queria dar ao homoerotismo tudo que este poderia fornecer ao homem. Nietzsche percebeu bem isso e expressou tal coisa na fórmula “torna-te o que tu és”. Alcibíades queria ser o que deveria ser, um estadista, e Sócrates filosofou com ele de modo que ele pudesse assim ser. Ambos se frustraram! Mas isso nunca quis dizer que Sócrates fracassou em tudo. Conseguiu seu intento, talvez sem notar, com Platão. E que feito!

A filosofia nasceu gay e só nessa relação homoerótica faz sentido. Fora dela é mero pastiche. Os padres que herdaram o saber grego sempre tiveram isso como algo claro, e assim levaram adiante os seminários. Eles foram exímios na prática da autêntica filiação entre homens, jovens e mais velhos, em uma confraria. A Universidade Medieval herdou tais práticas. No seu início a modernidade manteve essa prática assim ao instituir as relações entre mestre e discípulo e nas regras do mecenato. Por usa vez, as escolas modernas tardias foram obrigadas a quebrar isso, após a moralização do mundo pela burguesia idólatra do trabalho. Só então, com a revolução industrial e com o burguês tendo desejado criar um mundo sem amor e sem sexo, de modo a favorecer a disciplina fabril e o culto do deus Dinheiro, é que a filosofia se descaracterizou e, tornando-se prática asséptica de sala de aula virou prática de professores de filosofia – os que não podem olhar mais o estudante com olhos carinhosos.

Toda relação filosófica hoje é feita nas catacumbas da consciência arredia nos espaços dos corredores de universidades que ainda podem se parecer mosteiros, onde a sensualidade entre pessoas (e aí já não mais importa o gênero) come solta, ou melhor, quase solta. Agora, que até mesmo a boemia não existe entre filósofos, tudo se completa de modo a não reconhecermos mais a filosofia como inerentemente um saber gay. Só quando todos nós pudermos ver que o gay é o elemento comum e o hétero uma ficção e que então aceitaremos ver a filosofia, de volta, como sendo gay. Por enquanto esse saber é crivado por ideologia, porque nós próprios, cada um de nós que se diz hétero, nega tudo, até mesmo sonhos incontáveis.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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20 Responses “A filosofia é “gay”, e Sócrates é estranho!”

  1. paulo jorge A da silva
    29/03/2015 at 22:40

    Sim, porém!?…

  2. paulo jorge A da silva
    29/03/2015 at 22:30

    ”O mundo transformou-se de tal maneira que verdadeiramente não podemos mais voltar para trás, num futuro bem próximo isso será tabu, totalmente derrocado em todo o mundo”. (prof. PAULO).

    NARRATIVA, (CONTO).
    TEMA: Família.
    Família ano 2000.

    Na rua em que eu morava, tinham dois vizinhos, um que ficava à minha direita e outro à minha esquerda, sendo que o casal da casa esquerda era diferente, pois eles eram gays.
    João e André vivem juntos há muito tempo, já Marta e Antônio que é o casal da casa direita, o casal heterossexual, eles tinham dois filhos, João e Ana já o casal gay tinha apenas um filho de criação, Pedro, que por sinal também era gay. Pedro rapaz inteligente, bonito, estudioso, pois já estava para se formar em medicina para o orgulho de seus pais, pois ele sempre foi formado dentro das normas cristãs, enquanto que, João já não dava tanto orgulho aos seus pais, pois infelizmente sua vida era conturbada e cheia de percalços ele tinha uma moto e só andava em alta velocidade e usava drogas fortes, enfim, tinha uma vida marginalizada longe de seus pais, que nada pareciam saber a respeito dessa vida dupla de João. Hoje eu tive uma triste notícia, depois de ter me mudado de Lá há dois anos soube que João sob o domínio das drogas sucumbiu, pois despencou de um viaduto e faleceu para a grande tristeza de seus pais. Porém, na casa esquerda, hoje há uma grande comemoração, pois Pedro se formou em médico, e vai se casar com seu noivo José.
    PJ

  3. paulo jorge A da silva
    29/03/2015 at 22:16

    Sim, porém:

  4. Paulo
    15/11/2014 at 01:43

    Qual o livro que vc tem que possui de fato a vida e a filosofia de Socrates? Tem em pdf ou apenas o livro mesmo?

    • 15/11/2014 at 09:35

      Paulo Henrique a vida de Sócrates eu não escrevi, por razões óbvias, mas meu livro sobre Sócrates vai sair pela Cortez em 2015. Por enquanto, pegue os dois volumes de A aventura da filosofia e o A filosofia como medicina da alma, ambos da Manole.

  5. Aílton Nunes
    12/11/2014 at 21:38

    Paulo, por que tem gente que é rancoroso com você? Te perseguem virtualmente??? Foi algum tipo de ressentimento que tu despertou? Geralmente são extremistas e machistas/neoconservadores. Eles não gostam do seu trabalho. Antes de mais nada, admiro sua luta para fazer da Filosofia neste país, algo de alcance para os interessados, seja quem for.
    A gente nunca deixa de aprender alguma coisa no Blog frequentando periodicamente.

    • 12/11/2014 at 23:09

      Aíton eu sou filósofo, faço minha parte. Onde estão os outros filósofos? Escondidos na academia ou então enfileirados nos partidos ou, pior ainda, nos jornais fingindo não ter partido e se escondendo da conversação. Eu não. Eu me ponho na jogada. Converso com todo mundo. Faço o CEFA gratuito. Isso irrita.

  6. 12/11/2014 at 16:35

    Paulo, desculpe-me fugir do assunto, mas o que você acha do Positivismo antiliberal de Augusto Comete?

    • 12/11/2014 at 18:25

      Martinelli. Dominou o mundo, fez uma parte do romantismo e gerou no Brasil nossa República. Não é pouco! A Igreja Positivista no Rio está caindo, o governo deveria consertar aquilo.

  7. Guilherme
    08/11/2014 at 09:57

    Vale notar que Sócrates também dizia que sexo anal era sua maior fonte de inspiração….

    • 08/11/2014 at 19:21

      Guilherme o seu Sócrates é alguém chamado Sócrates aí na sua casa. O artigo diz exatamente o oposto. Nem fazer piada você sabe.

  8. Frederico Graniço
    05/11/2014 at 12:12

    Muito legal o texto, Paulo. Parabéns!

  9. ana
    05/11/2014 at 08:18

    Frederico, ele é ressentido, não dê importância.

    • 05/11/2014 at 11:55

      Ana parece que a magoada é você (não ressentida, que é uma palavra que você não sabe usar). Pois veio aqui e não percebeu que está passando vergonha ao não entender o texto meu. Um texto fácil. Você é magoada com você mesma. Veio aqui e teve a preocupação de me atacar. Não a conheço. Nunca a conhecerei. Ninguém sabe quem você é. Talvez nem seu pai. E isso a faz vir aqui me agredir. Percebe isso?

  10. Adriano Apolinário da Silva
    04/11/2014 at 23:37

    Primor de texto. Obrigado.

  11. Frederico
    04/11/2014 at 21:32

    Que besteira atroz! A filosofia não é gay, nem hétero, nem branca, nem preta, nem de direita, nem de esquerda, nem isso nem aquilo, a filosofia é universal, é desde seus primórdios a busca pelo universal e por transcender diferenças pequenas e subjetivistas em favor de uma unidade através da qual as diferenças não mais segreguem nem contraponham. Nada mais lamentável que este discurso pós-moderno de fragmentação, particularização e subjetivação psicanalítica da filosofia, tornando-a cada vez mais uma idiossincrasia e uma mera vaidade intelectual.

    • 05/11/2014 at 02:29

      Frederico meu texto é para pessoas que sabem ler, que vão além do título e que estão imersas inteligentemente na filosofia. Não é sua praia.

    • 29/03/2015 at 10:28

      Seguramente Frederico, este texto mostra como a leitura das coisas pode ser subjetiva. Porém a filosofia surgiu e se desenvolveu obviamente através do desprendimento das particularidades e dos imediatismos como você sugere. Reduzir a relação mestre-discípulo ao homossexual é de uma absurda intranscendência (o que diriam os hindus a este respeito?), pretendendo transformar a exceção em regra, mesmo que esta exceção tenha crescido em algumas culturas mais hedonistas.

    • 29/03/2015 at 10:40

      Luis acho que você não sabe o que homossexual, heterossexual, gay etc. O texto explica ao menos o que é a pederastia. A relação mestre discípulo na pederastias É SIM HOMOSSEXUAL, e isso não a reduz, isso a amplia porra! A tira da limmitação da NATUREZA. ô meu Deus!

    • 29/03/2015 at 10:42

      Aliás Luís, você também não sabe o que é hedonismo. Hedonismo nao tem nada a ver com orgia homossexual, e nem pederastia tem a ver com isso. Puta merda você é mais burro que o Frederico heim?

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