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23/03/2017

Bases da nova filosofia da moda


É necessário antes ser que ter. Privilegiar o ter antes que o ser é um pecado igual a do “querer aparecer”. Deseja aparecer então “põe uma melancia no pescoço”. Uma boa pessoa é humilde, ou seja, não tem vaidade e, portanto, não gosta de aparecer.

Eis as frases que reinam no espaço de idiotia que o senso comum reserva a todos nós. Nenhum de nós escapa do senso comum, no entanto, não por isso temos que frequentar justamente esse seu campo pior.  As frases do parágrafo acima não servem nem mesmo para livro de auto-ajuda, e olha que esse tipo de literatura é um crime ecológico dos piores: árvores são derrubadas para se fazer livro que não deveria existir.

Somos produzidos segundo o aparecer e, toda vez que negamos isso do ponto de vista do conhecimento não perdemos apenas intelectualmente, mas criamos ditos práticos, ou seja, ético-morais, que não nos ajudam nem um pouco para uma boa vida.

Descemos das árvores. Saímos das cavernas. Deixamos os campos e criamos cidades. Inauguramos o vidro. Fizemos espelhos. Desenvolvemos o vestuário. Passamos do autorretrato do Renascimento ao selfie atual tendo no meio disso a TV. Essa é nossa história. A história dos homens e mulheres é a história da luta das classes para aparecer. A nossa política não é outra coisa que teatro, exposição de grandes campos semânticos do corpo, principalmente do rosto, e uma titânica disputa pelo reconhecimento mútuo.

Dito isso, precisamos falar outra coisa para nos convencermos que somos produzidor pelo aparecer e nos fizemos, então, para aparecer mais ainda?

Quem pensa que temos rosto porque nos olhamos no espelho, para sabermos quem somos, e só então nos exibirmos, errou feio. Não olhamos no espelho senão ao meio do século XIX. Só nessa época tivemos os espelhos efetivamente refletores. Só ao final do século XIX a burguesia trouxe a prática do uso dos espelhos como utilidade e decoração em todas as casas. Portanto, até então, toda nossa história é a da produção do rosto e do resto de nós como o que cultivado e construído pelo olhar do outro, com pouca decisão exclusivamente nossa. Ou aparecemos ou não somos.

Um símio tem uma face, mas não podemos dizer que tem um rosto. O homem tem rosto. Nele a esfera que gera a intimidade da interfacialidade gera a face enquanto rosto. No olhar do bebê para a mãe e vice-versa dá-se a protração, e isso esteve ocorrendo lá na mais originária situação no âmbito da vida do nosso parente simiesco ancestral, do qual viemos. Foi algo necessário para que tivéssemos evoluído como evoluímos, ou seja, tendo rostos. Nosso rosto é projetado para diante como o que é puxado pelo olhar do outro. Bochechas, nariz, olhos, testa e queixo são elementos que ganham um plano harmonioso, que podemos aperfeiçoar nessa função alimentando a indústria do cosmético e da cirurgia. Esse plano que é o rosto permite receber luz. Nenhum animal e nenhum de nossos ancestrais possuem um rosto tão adaptável ao jogo de sombra e luz de modo a mostrar todas as partes e garantir, assim, expressões variáveis. O rosto mais semelhante ao nosso, o do símio atual, está muito distante do nosso. Não ganha com protração, não passa por ela, além disso, tem pelos, olhos pequenos, nariz achatado e não é o porta estandarte da escola de samba do corpo. No nosso caso é diferente: nossa frente é nosso rosto e este é o que deve ser visto para que nós possamos dizer “estamos aqui”. Estar no mundo é estar rostificado. Somos se aparecemos e aparecemos para ser o que somos. A regra darwiniana deve ser alterada: não é o mais apto que vive, mas o mais atrativo.

A noção de protração é do filósofo Peter Sloterdijk. Ela garante uma filosofia que privilegia o aparecer. Aí está uma base concreta para qualquer filosofia da moda que queira ser séria. Tomando a esfera como o que é um campo diádico, ou seja, um ambiente no qual há no mínimo dois polos em ressonância, então sempre o rosto será alguma coisa em protração, uma vez que é o que faz o rosto ser gerado e desenvolvido para o outro. O outro não está fora da esfera. Ele pertence à esfera. O homem é sempre gêmeo sem o saber. A rosticidade é fruto disso, da esfera, dessa intimidade. A protração é o modus operandi dessa rosticidade. Uma esfera inicial própria para a protração é a da mãe que amamenta o bebê o que o fita, não à toa imortalizada como cena nas obras que mostra Maria com o menino Jesus. Eis um símbolo de vitória da civilização, vitória do homem, acabamento do humano.

Estar na moda é apresentar o rosto e seus adereços, a maquiagem e a roupa, de modo a dar continuidade ao ímpeto de continuamente nos tornarmos o que somos: seres para o outro, seres que aparecem. Atratibilidade em primeiro lugar e reconhecimento em segundo, só então, em terceiro, vem aa identidade. Por isso antes vem a moda e só depois o RG.

Quando os filósofos começarem a entender isso, lendo mais Sloterdijk, vamos ter uma filosofia da moda que não diminua a moda.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

Leu o texto correlato: Os feios, os bonitos e os remendados – o guarda roupa de carnes da modernidade

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2 Responses “Bases da nova filosofia da moda”

  1. maximiliano
    23/06/2016 at 16:07

    Excelente texto, se consideramos que a maioria dos filósofos até agora somente reduziram à moda aos aspectos sociológicos.

  2. Ademar Braga
    07/01/2015 at 18:58

    A nossa existencia tem uma dimensao que é publica ?

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo