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20/11/2017

A filosofia da educação e a pedagogia de Peter Sloterdijk


Podemos identificar, em sentido técnico, uma filosofia da educação em Peter Sloterdijk? E uma pedagogia, também?

O princípio pedagógico socrático-platônico veio da filosofia como uma tentativa de pederastia invertida. Na pederastia tradicional o desejo vinha do homem mais velho para o jovem, e então Sócrates atuou no sentido de mostrar que o bom filósofo, talvez como educador, seria aquele que pudesse no meio da relação com o seu desejado, torná-lo um desejante. Sócrates foi um grande sedutor. Ele trouxe à tona o componente erótico ou libidinal das relações humanas no caminho das relações pedagógicas, mas em um sentido oposto ao comumente estabelecido. O jovem é que deveria se sentir atraído pelos seu guardião.

Durante toda a antiguidade e, de certo modo, também nos tempos medievais, a relação amorosa se manteve como um imperativo no trabalho pedagógico. Até hoje muitos não entendem a pederastia intrínseca à Igreja Católica (não estou falando aqui dos desvios, como estupros etc.) por não compreenderem que o cristianismo era tão erótico – mesmo sob São Paulo e Santo Agostinho – quanto tinha de ser, uma vez que nunca rompeu de modo radical como a herança clássica socrática. Mas o sucesso da educação grega – idealizada ou real – tanto quanto a boa formação dos seminários tornou-se uma realidade exatamente porque jamais tentou (como depois fez a burguesia com a ênfase no seu ensino profissionalizante) retirar do ambiente pedagógico o seu núcleo erótico ou libidinal.

A escola burguesa ou moderna, humanista ou profissional, foi aos poucos combatendo esse erotismo. O amor na escola tornou-se piegas, por um lado, e por outro, crime. Quando Paulo Freire reinvocou uma pedagogia de ombreamento, regrada por relações amorosas, teve logo de ser absorvido por diminuições de todo lado. Uns o enfatizaram pela esquerda, falando antes do oprimido do que do erotismo. Outros o enfatizaram pela direita, falando que sua pedagogia tinha aspectos técnicos, era uma nova técnica didática. Talvez os únicos que tenham entendido Paulo Freire tenham sido os brucutus, ou seja, a extrema direita. O pavor desta em relação à libido fez com que ela odiasse Paulo Freire, pois percebeu nele o componente erótico, libidinal, vindo da Grécia e da Igreja, contra a qual todo o mundo burguês se insurgiu. Afinal, o mundo burguês, ou seja, o mundo moderno, tem um só centro de vivência do amor: a mercadoria. Só ela pode despertar amor e receber amor. Se ela vê em qualquer outro lugar investimentos libidinais, logo requisita algum agente para ir até lá, nesse lugar de subversão, e avisá-lo de que o erotismo é pecado. É pecado que o erotismo se faça fora do shopping.

Até aí, tudo isso é sabido bem por nós todos, filósofos contemporâneos.  Mas Peter Sloterdijk tem um elemento a mais a respeito do erotismo no interior da pedagogia. Para ele, a energia libidinal não tem seu melhor uso nas relações entre mestre e aluno, mas nas satisfações entre o estudante e a sua própria inteligência. A escola é melhor se é um espaço no qual o estudante possa curtir seu passo-além na direção de si mesmo. Ele fica feliz quando realiza algo que antecipa o que ele própria será. Há uma satisfação intensa, e que garante o aprendizado, quando o que é feito mostra-se uma conquista na direção de se fazer a mais do que já se fez. “Aprender é curtir a antecipação de si mesmo” – eis o lema de Sloterdijk. Ele continua: “[esta escola deve assumir] que o capital real é a libido do aprender. A criança traz sua curiosidade, seu entusiasmo, que é o impagável meio da feliz antecipação de seu próprio eu, para o interior do processo de aprendizagem. O que importa é a expectativa do próximo estado a ser alcançado” (entrevista a Reinhard Kahl publicada na revista alemã Pädagogik número 53, em 2001).

Alguns podem ver aqui os mesmos ditames da pedagogia nova, de cunho pragmatista, que foi posta à luz por John Dewey na transição do século XIX para o XX, doutrina esta que se fez presente no Brasil não só por Anísio Teixeira, mas também por Paulo Freire. Todavia, um olhar mais técnico, nota a diferença. Sloterdijk não está abençoando a curiosidade da criança para motivar seu interesse, como na escola nova, mas está enfatizando o elemento libidinal que alimenta um motor nuclear, que é antecipação de si mesmo contida no processo de aprendizagem que virá a ser bem sucedido. Todos nós nos lembramos da experiência incrível de felicidade que é poder vislumbrar no processo de aprendizagem um quadro do que logo poderemos ser ao estarmos avançando, concluindo uma etapa.

Essa diretriz pedagógica pode ser melhor entendida se vamos ao livro de Sloterdijk (está para ser publicado no Brasil, já foi traduzido pelo meu amigo da UFRJ, Marco Casanova, para a editora Estação Liberdade), Du mu?t dein Leben ändern (2009). Nesse escrito, Slotedijk vê o homem como acrobata, como aquele que passa toda a vida em exercício, em práticas, mas que não a realiza senão em um sentido bem especial, o de fazer hoje repetidamente para que o mesmo possa ser feito amanhã de modo melhor. Sloterdijk vê, então,  como sendo o ascetismo uma das características humanas essenciais. Ele o tira do campo religioso e inverte a posição de Nietzsche: ao invés da religião conter o princípio do ascetismo é o princípio do ascetismo que faz do homem um homem, e é ele que engloba esforços nossos para imitarmos deuses, de modo que a religião é um caso especial desse princípio.

Quando nos defrontamos com essa ideia de que “onde procuramos homens, encontramos acrobatas”, podemos entender a ideia de antecipação como o chamariz para o investimento erótico ou libidinal. A educação é exatamente isso, se bem feita: a antecipação de si mesmo é o que faz com que possamos dar o passo seguinte e seguinte e, então, passar pelo processo todo e ter aprendido. Há uma felicidade nisso que pode ser notada em toda criança. Querer se o que se espera ser. Ou então, parafraseando Nietzsche, o processo que conta com o imperativo “torna-te o que tu és”.

Talvez gregos e padres nunca tenham feito outra coisa senão isso: forjar modelos para processos ascéticos. Mas, no caso de Sloterdijk, a discussão ganha um nível de especifidade muito interessante. Não é o modelo que importa, mas o si mesmo que está se delineando e que ao mesmo tempo é antecipado como possível. É nessa hora que uma relação de desejo, uma relação libidinal, se impõe entre o aprendiz e sua própria inteligência. Essa relação corre por fora de uma escola profissionalizante ou humanista ou seja lá qual for. Trata-se antes de tudo de uma escola que não quer criar um ambiente frustrante para tais antecipações de si mesmo que estão sucessivamente se pondo no processo de aprendizagem. Essa possibilidade de auto-superação é o que está no âmbito da pedagogia de Sloterdijk. E isso não é para qualquer professor.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Figura: Bubbles, mezzotint by G.H. Every, 1887, after Sir John Everett Millais (1829-1896). Imagem do volume I das Esferas de Sloterdijk.

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2 Responses “A filosofia da educação e a pedagogia de Peter Sloterdijk”

  1. Matheus
    27/05/2016 at 00:45

    Sloterdijk tá a caminho de fazer muito não só pela filosofia, mas pela psicanálise também, ou ao menos ele recuperou muito bem a psicologia grega.

    “Aprender é curtir a antecipação de si mesmo”.

    Aí tá porque sempre gostei de aprender tanto e sobre tantas coisas, às vezes até me esqueço de quem vou ser porque é tanta coisa a se aprender…

    E é tão triste ver como vão nossas escolas e universidades, onde há cada vez mais burocracia formal, e cada vez menos esse erotismo-lúdico entre professores e alunos (que pode até se utilizar da burocracia e das formalidades dentro do jogo libidinal, até, e acho que aí está a arte em ser mestre, como poucos conseguem mesmo tão bem dominar) De fato, esse jogo tão singelo e único demanda muita inteligência, perspicácia, sensibilidade, para além de conhecimento técnico. Acho que quem consegue ver isso, vê que o professor não pode ser qualquer um, vê e valoriza a educação, e assim com eu, gostaria que os professores não apenas ganhassem mais, como fossem melhor tratados.

  2. Marcos
    25/05/2016 at 22:28

    Faz sentido o que você falou. Essa noção de Sloterdjik de antecipação de si mesmo no processo de aprendizagem, como aquilo que motiva os alunos a continuar, tem tudo a ver. Eu vislumbro o que tu disseste quando eu lembro da minha escola, pois eu não conseguia gostar das aulas das minhas escolas públicas desde a 6ª série até o início do Ensino Médio, mas gostava muito do curso de inglês que passei a frequentar desde quando eu estava na 8ª série. Nessa escola de inglês americano muito boa, com bons professores, e como eu sempre quis falar inglês e morar nos EUA desde pequeno, a partir do momento que me vi falando inglês, me vi motivado a querer aprender mais e a continuar a aprender. Hoje, sou professor de inglês. É claro que para tudo isso, é preciso investimento dos pais nos filhos e uma boa escola com professores bem formados…

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