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19/06/2019

A filosofia da bunda


Meu primeiro contato com a bunda não foi com a bunda, mas com os seios. Ao contrário de Drummond, eu adorei. Depois, mais velho, então tive o contato com a bunda, a minha e a alheia. Finalmente, então, tive meu primeiro contato filosófico com a bunda. Não veio como algo eroticamente agradável, mas foi divertido.

Quando bem jovem eu li o Cândido, de Voltaire. Guardei para sempre a parte em que a “velha” conta de como metade de sua bunda foi decepada. Quando ainda era uma moça, uma de suas nádegas serviu de alimento a homens; e depois, operada por médicos franceses para estancar o sangue, ela ficou lisonjeada porque, só com a metade da bunda, ainda assim conseguiu ganhar umas cantadas do próprio cirurgião. Esse trecho do livro foi uma festa para mim. Comer a bunda – canibalisticamente e não só metaforicamente! Voltaire nunca foi meu filósofo predileto, mas por conta dessa passagem jamais pude menosprezar o mundo das desgraças de seu herói, um mundo que ensina o filósofo a perder o amigo mas não perder a piada.

No entanto, a metade da bunda tornada regalo de homens, no escrito voltairiano, introduziu-me na perfeita filosofia das nádegas, de um modo, digamos, mais profundo. A filosofia sempre foi acusada de fugir do corpo e, ao mesmo tempo, até por conta disso, também sempre teve a prerrogativa de poder apresentar o corpo de modo chocante, sem ter que se esforçar. Ou seja: de historiadores a poetas e, claro, desenhistas, todos podem falar do corpo e, então, da bunda, até padres o faziam e o fazem, mas somente os filósofos ganharam e mantém o direito de escandalizar alguém ao falar do corpo. Todos escrevem sobre a bunda e nada acontece. Quando escrevo, cai o mundo. A Internet traz a rebelião dos analfabetos, aqueles que não conseguem entender se falei profundamente ou não do recheio do ânus. Felizmente, não escrevo para estes. Mas não se pense que são só os toscos e néscios que reclamam. Caso assim fosse, a filosofia não teria nenhum privilégio.

Nós filósofos ficamos com o direito a usar da bunda do único modo capaz de quase competir com alguma atriz que faz “a bunda do momento”. Só nós conseguimos, ao falar da bunda da mulher, irritar feministas carcomidas e homens bobos. E temos o que falar!

Peter Sloterdijk é quem fala da bunda contemporaneamente, em um sentido estritamentebunda amarela filosófico. Ao desenvolver o que seria um novo cinismo, para além do de Diógenes, ele mapeia partes corporais e chega à bunda. Nota então sua condição popular, plebeia, diante das “partes altas” do corpo, majestáticas. Nenhuma parte do corpo aceita um lugar qualquer, a bunda sim, ela vai do trono imperial ao trono de todos e ao chão. Toda bunda se presta a tal democracia de repousar onde puder. Sloterdijk conta que a bunda “diria às esferas superiores: acho que nossas relações bilaterais estão ficando uma merda”. Pois a bunda sempre soube, segundo ele, seu lugar: “espancada, pisoteada e beliscada, a bunda vê o mundo de baixo, de um ponto de vista plebeu, popular, realista”. “Milhares de anos de maus tratos não passaram por ela sem deixar vestígios. Fizeram dela uma materialista de tendência dialética. Seu princípio é o de que as coisas estão uma merda, mas há esperança”. Ela é cínica em sentido filosófico, uma vez que nada há no corpo que mais se aproxime do cinismo herdeiro de Diógenes, pois há aí aquela noção da necessidade do não necessário: o homem só precisa, mesmo, morrer e defecar – diz o ditado. Só isso é necessário, e só a bunda é testemunha real disso. “Assim sendo, de todos os órgãos do corpo, a bunda é o que se acha mais próximo da relação dialética entre liberdade e necessidade”. Por tudo isso, no mapa corporal filosófico, ela ganha destaque na narrativa de Peter Sloterdijk, quando de seu Crítica da razão cínica.[1]

Diógenes usou a bunda. Ele defecou na Ágora. Incentivado por bundas femininas, masturbou-se em público. Ele fez filosofia mostrando que todas as práticas sociais atenienses, tão louvadas como sendo culturais e, no entanto, de acordo com a natureza, não eram nada naturais, eram convencionais. A afronta do corpo à cultura, por exemplo, macular a Ágora, tinha como objetivo mostrar o quanto havia de mero hábito e acordo, tácito ou não, em condutas que pareciam sagradas por serem mostradas naturais. Natural era a bunda, não Atenas. Natural era o filósofo ao lado do cão na rua, não Alexandre oferecendo o que Diógenes quisesse, quando este preferia apenas ganhar o seu banho de sol.

Por isso mesmo, diz Sloterdijk, que “compreender a bunda seria a melhor escola preparatória para a filosofia, a propedêutica somática”. E ele arremata: “quantas teorias de prisão de ventre nos teriam sido poupadas!”.

Da minha parte, creio que a bunda faz mais que lançar o povo contra os reis ou jogar merda nas convenções. Vejo a bunda como quem vê o Deus do Antigo Testamento, punitivo de um modo tão estremado que nos faz rir. Ora, mas fazer rir também não quebra convenções? Não era este, também, o papel de Diógenes, aquele que Platão chamou de “Sócrates tornado louco”?

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

[1] Sloterdijk, P. Crítica da razão cínica. São Paulo: Estação Liberdade, 2012, pp. 2019-12.

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10 Responses “A filosofia da bunda”

  1. Degel Cruz
    12/02/2015 at 20:41

    Paulo, não sou filosofo mas me agrada e instrui acompanhar seu pensamento que explica a filosofia com finalidade de questionar. instigar a reflexão. Nesse sentido a bunda, como objeto filosófico, também é provocante e, democrática, de modos a me permitir dizer que ela, apesar de ser universal (é o que diria Platão?) é incompreendida ou pelo menos confundida, talvez porque há milhares de bundas particulares que são vistas, com mais precisão pelo outro do que pelo seu portador. Parece-me que sabemos pouco sobre a nossa própria bunda e especulamos sobre a bunda alheia, invejada às vezes, desejada outras e desprezada, por preconceito ou ignorância de quem a deprecia. A introdução filosófica da bunda é ousadia pura que suscita um problema semântico porque o sinônimo cu, empregado pelos lusitanos, não tem o mesmo efeito e consequência. Bunda é herança africana que, primitivo de abundar, permite o aproveitamento filosófico que, como o mestre Paulo disse, bem dito, de forma mais profunda a bunda, muito além das aparências, de seu uso midiático onde é mercadoria, adorno, peça de consumo ela, ocupa na filosofia (ou pode ocupar) um espaço ontológico. Talvez Descarte estivesse tentando ver sua bunda quando certificou que “cago, logo existo” (evidência assustadora que nos obriga a procurar um local isolado e fechado para o ato, denunciado até pelo cheiro) e , logo em seguida, substituiu o verbo para “penso”, fundando pois o racionalismo. Se o entendimento aqui é uma cagada, vou direto para o banheiro ou… não?

    • 12/02/2015 at 20:50

      Pode ir ao banheiro, nada a ver. O texto diz respeito ao cinismo. Diógenes de Sinope.

  2. 12/02/2015 at 19:42

    Muito bom o texto!

    Professor de filosofia no Brasil se refere à bunda como “bumbum”. Sloterdijk acertou em cheio quando disse que é tudo viado mesmo.

    • 12/02/2015 at 20:04

      Quando um professor de filosofia fala “bumbum” ele merece apanhar de cinta.

    • Nightville
      04/10/2015 at 21:21

      Kkkkkkkkkkkkkkkkkk achei interessante toda a desenvoltura e construção da sua idéia

  3. Wagner
    12/02/2015 at 18:59

    A bunda da Paola Oliveira me fez lembrar de uma bunda francesa.

  4. LENI SENA
    11/02/2015 at 23:30

    Nadegas a declarar!rsrs
    Dos filósofos que sempre citas em teus textos, Slorterdijk, é um dos mais difíceis que levo pra entender o que ele fala. Vale ressaltar que só faço ler o que escreves, não me aprofundo no trabalho deles. Enfim, tô aqui de gaiata fingindo que entende muita coisa quando deveria tá procurando um curso de filosofia. Essa história de vir fuçar aqui fudeu com a minha cabeça (como se ela já não fosse)… no fundo eu sempre pensei de forma diferente a respeito de tudo, o que tu escreves faz muito sentido pra mim, não me causa espanto pelo contrário, as vezes, é como se tu escrevesse o que penso. Que diabo tá acontecendo comigo?

    • 12/02/2015 at 00:05

      Leni quando puder faça um curso no CEFA. Vai gostar.

  5. José
    11/02/2015 at 21:11

    Acho que a bunda não combina com filosofia. A filosofia tem nobres preceitos e busca a razão. A bunda é da ordem básica da vida e não deve ser exposta pelos bons costumes.

    • 12/02/2015 at 00:05

      José se nem eu explicando com essa didática você não entende, então, por favor, não leia MAIS NADA MEU.

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