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22/09/2017

Filosofar é produzir desencaixes


O que faz o meu filosofar se faço desacordos, se crio antes bagunça que ordem?

Talvez a pior desgraça para um filósofo autêntico, segundo os cânones tradicionais, seja efetivamente saber que vai morrer. Ao envelhecer, deve vir o desespero. Mas não vem. Não aparecem, porque os filósofos tradicionais são os produtores de um sistema, e possuem todas as suas conquistas em forma de saberes que, no limite, estão bem organizados. Eles fecham um celeiro que jamais pode ser criticado por um burocrata. As dúvidas realmente emergem nesse prédio como falsas dúvidas, pois elas encontram um lugar para se acomodarem e perder a força ou então podem ser pulverizadas por um canhão alienígena, que todo filósofo tem condições de sacar “do conjunto de sua obra”.

Não sou um desesperado diante da morte porque estou diluído em pensamentos que não formam um todo coerente como o celeiro à prova de burocratas. Mas, se tivesse em busca de um sistema e ele viesse a me parecer fechado e alcançável, eu me desesperaria. Porque ao morrer essa organização se pulverizaria. Perder a vida consciente, afinal, não é isso? Se não é isso então a morte é um engodo, coisa difícil de acreditar. Ter a morte no horizonte é um absurdo só superado em monstruosidade do absurdo de não tê-la. Ter um pensamento organizado e estar prestes a vê-lo se perder, como se não tivesse sido organizado, não é o desespero esperado pelo filósofo de sistema?

Justo ele, no entanto, se realmente já está prestes à canonização como um filósofo, não teme. É um profundo desgraçado porque deixou de ser filósofo ao ser filósofo. Como Cioran diria, virou sábio. Sábios proferem verdades, filósofos buscam conhecimento.

Todos os dias que abordo algo com o meu filosofar e produzo uma peça nova, uma outra peça antiga do meu sistema não sistemático se desarruma mais ainda. Isso me tranquiliza. O caos se põe no horizonte e isso me faz sentir próximo da vida, que não pode, por tudo que vejo e admito ainda, ser algo organizado. Nem a Natureza de Newton pode ser organizada! Ou melhor, só pela pode! Mas sei que se há o caos, posso tentar arrumar por partes as coisas de modo a enganar a mim mesmo e, com isso, acreditar que controlo algo. Até pode ser verdade! Controlo minha capacidade de não conseguir controlar. Ponho um enunciado, faço um texto, equaciono um problema, dou minha sugestão filosófica, e então eu mesmo sei que parte dos textos de ontem vão ter de ser rearranjadas ou abandonadas ou citadas como “pesquisas futuras”. Que bom!

Saber que meu pensamento já está diluído é saber que nada ocorrerá de muito grave quando os átomos do meu cérebro ficarem iguais ao meu pensamento.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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13 Responses “Filosofar é produzir desencaixes”

  1. Sônia
    20/02/2015 at 11:07

    Professor, a filosofia é sempre revolucionária? Então qual o sentido de olhar para o passado, para os clássicos. Ser revolucionário não é ser contra a tradição.

    • 21/02/2015 at 09:25

      Sônia a escravidão era uma tradição no Brasil, felizmente nos livramos dela.

    • Sônia
      24/02/2015 at 11:17

      Sim professor mas o que eu estava perguntando é que, como uma atividade que seria revolucionária como a filosofia poderia respeitar os seus clássicos. Caso alguém queira ser filósofo, como ele pode ser inovador mantendo a tradição de Platão?

    • 24/02/2015 at 12:16

      Se ele mantiver a tradição de Platão ele será revolucionário naturalmente. Para entender isso que estou falando é necessário entender Platão, claro. Nesse caso, sugiro a leitura do meu A aventura da filosofia e, a partir daí, a própria obra do Platão.

  2. Thiago Leite
    18/02/2015 at 02:05

    Pauolo, vc é o coringa do batmAN UM agente do caos….

  3. 15/02/2015 at 11:11

    Filosofar é morrer todos os dias? A morte não existe, o que existe é o morto, o olho morto do morto que espanta até a morte! Amém!

    • 15/02/2015 at 12:00

      Chico Greter essa coisa de morrer todos os dias é com você. Mesmo Platão, que falou algo parecido, é preciso ser entendido na correlação entre objetividade e morte, dentro da sua teoria.

  4. Alexandre
    13/02/2015 at 14:59

    “Alexandre você é bobinho, se você pode negar a morte fazendo o raciocínio de que ela é psicológica, é uma indução que tem tudo para ser verdade mas pode não ser…”

    Eu não cheguei a negar a morte fazendo o raciocício de que ela é psicológica,eu disse que uma narrativa que diz que não existe vida após a morte pode ser posta em dúvida, assim como uma narrativa que afirme que existe vida após a morte também pode ser posta em dúvida. Basta brincar um pouco com a linguagem e as narrativas serão postas em dúvida em algum nível.

    • 13/02/2015 at 15:18

      Alexandre, você não entendeu. O que eu disse que se quiser criar uma narrativa que dê algum consolo ou um vislumbre de vida contínua ou coisa parecida há outras completamente laicas, mais plausíveis que a sua inicial. Bem, acho que agora vai heim?

  5. Alexandre
    13/02/2015 at 03:59

    Como os limites de nosso mundo são os limites de nossa linguagem sempre poderemos ter esperança na existência de algo como vida após a morte, pois mesmo que não tenhamos uma narrativa que nos convença a respeito disso temos consciência de a qualquer momento uma nova vírgula poderá surgir, um novo detalhe, que mudará nossa visão a respeito do tema, acrescentando novas possibilidades e desenvolvendo novas narrativas.

    • 13/02/2015 at 10:52

      Alexandre você é bobinho, se você pode negar a morte fazendo o raciocínio de que ela é psicológica, é uma indução que tem tudo para ser verdade mas pode não ser, pois a indução traz o problema de que mesmo que todos até agora tenham morrido isso não significa que não venha a nascer alguém que não morrerá (pode já ter nascido e ser você), então ficar acreditando na vida após a morte é mais complexo e mirabolante, pois você teria de remeter ao problema da memória, da consciência refeita etc. Tá vendo como arrumo um consolinho melhor para você, para o chorões?!

    • Alexandre
      13/02/2015 at 13:38

      Ninguém é capaz de imaginar a ideia de fim da própria consciência, pelo simples fato de que ao imaginar o fim da própria consciência você já está exercendo essa consciência, o fim da própria consciência seria a ausência de observação/observador, mas quando você imagina o fim da consciência você já está exercendo uma observação. Mesmo se alguém disser “é como dormir e não acordar mais”, ao imaginar isso a pessoa está se vendo dormindo, a consciência está lá, sendo exercida, o observador está na imaginação. Você pode imaginar o fim da própria consciência como a escuridão, mas na sua imaginação o observador vai estar lá, a consciência vai estar lá, como alguém que está em um quarto escuro. A imaginação do fim da própria consciência é um paradoxo. Você defende com unhas e dentes algo quem nem é capaz de imaginar, algo que nem é capaz de sentir.

      “então ficar acreditando na vida após a morte é mais complexo e mirabolante, pois você teria de remeter ao problema da memória, da consciência refeita etc. ”

      Eu posso simplesmente dizer que é complexo para você por causa da sua linguagem, que é mirabolante para você por causa da sua linguagem e que o “problema da memória, da consciência refeita etc” é algo complicado e de difícil solução para você, por causa da sua linguagem. Vivemos em um mundo com energia elétrica, televisão, internet, e várias outras coisas que seriam tidas como mirabolantes em outras épocas, coisas inclusive que as pessoas nem eram capazes de imaginar, mas que hoje em dia são banais, o conceito de mirabolante é relativo, o conceito de complexo é relativo.

    • 13/02/2015 at 15:19

      Alexandre, agora não dá para responder, é só bobagem e jogo de palavras tolo metade do que falou. O resto está errado.

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