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19/08/2017

Filhos em campanhas – você coloca? O amor pela verdade


Não batizei meus filhos. Não os levei em manifestação do PT. Não comprei camisa de time de futebol para eles. Procurei poupá-los ao máximo de participarem do que não entendiam. Procurei blindá-los contra gostos meus que poderiam dar errado!

Gostei de ver a manifestação no vão do Masp, de protetores de animais, com os seus filhos, reclamando da Vaquejada. Acho que isso é algo que as crianças podem entender. Claro que, nesse caso, é gosto meu. Mas é diferente. Há uma informação aí possível de ser passada para a criança, de modo a não fazer dela um fantoche. Odeio fantoches. Tenho uma sensação angustiante quando vejo alguém enganando um cachorro. Há algo de estranho entre eu e a mentira, talvez por isso eu tenha me tornado filósofo.

Ser filho único, no meu caso, é ter uma sensação inexplicável de não conhecer a inveja ou o ciúmes. Ou seja, meu feedback positivo, com olhos voltados para mim, me deixaram na situação de não compreender a disputa, o ter raiva de outro pelo outro ter algo que não tenho e, principalmente, a mentira. Mentir sempre foi, para mim, uma tolice, um erro grave. Pois mentir é ser descoberto no passo seguinte. Filhos únicos recebem observação diária, não podem se esconder. Não aprendem a se esconder pois logo percebem a inutilidade num lugar, a família, onde todos o observam, e só o observam! Assim, filhos únicos acabam se tornando ingênuos. Amantes ingênuos da verdade. Quando digo que algo não fui eu quem fez, acreditem, não foi. Não é que eu não saiba mentir, é que não tenho como ver algo belo no que fiz. Acho até meu cocô bonito. Até quando erro feio, eu digo “fui eu”. Não por virtude, mas por ser assim, filho único. Gosto de me expor. Sou aquele assassino que assina em sangue seu nome na barriga da vítima. Sempre acho que alguém gostará, que deve gostar. O jogo claro, sem mentiras, é onde sei viver.

Essa minha disposição para a clareza, que me fez filósofo, me coloca sempre na defesa da não manipulação. Por isso, se pego uma criança numa manifestação política, com dizeres de ódio ou amor numa camiseta, servindo ali a desejos dos pais, isso não me faz bem. Não sou do tipo que vai lá até aos pais e lhes dá uns tapas. Mas que fico constrangido, com vergonha alheia. Sinto o mesmo se alguém finge jogar um galho para um cão e esconde o galho, fazendo isso por muito tempo, tapeando e decepcionando o cão. Isso me toca de uma tal maneira que preciso sair do local, posso ficar agressivo. Razões inexplicáveis entre eu e a verdade — e isso me tornou filósofo.

Um filósofo é um amante da verdade, mesmo que possa ter uma teoria da verdade como eu tenho, que é a de Davidson, uma teoria em que a verdade é antes de tudo conceito primitivo (como ponto em geometria euclidiana), e, portanto, tem condições de validade, e não garantias fortes (para mais, pode-se ver meus livros sobre Davidson e Rorty). Um filósofo é um amante da verdade; e isso vale até mesmo para um filósofo como eu, que acha que o texto de Schlick, “o futuro da filosofia”, onde ele mostra que Sócrates buscava antes o significado que a verdade, é algo brilhante. A verdade, ou melhor, a claridade é sempre o meu elemento preferido. Sou filho das Luzes. Sou amante de certa forma de pahrresia, a prática do “falar franco” de Sócrates, tão bem descrita por Foucault (pode-se ver “A parrhesia em Foucault”, de Fréderic Gros ou ir direto para A coragem da verdade, do próprio). Exijo isso na vida. Sinto isso maculado quando vejo crianças sendo postas como porta vozes daquilo que não sabem o que é. Não me parece justo, não me parece digno, não me parece que os pais tenham esse tipo de direito sobre os filhos.

Tudo isso faz parte da minha relação ingênua, talvez infantil, própria do filósofo, para com a verdade.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 28/11/2016

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2 Responses “Filhos em campanhas – você coloca? O amor pela verdade”

  1. denis
    28/11/2016 at 20:57

    porque não levam em um bosque da cidade ou em um parque, na pracinha, tem tantos lugares legais pra levar, e escolhem a pior opção, Nossa só por deus mesmo!!

    • Matheus
      30/11/2016 at 20:21

      Pois é, depois chega a polícia com bomba de efeito moral…

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