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24/08/2017

Nossa dívida para com o feminismo: ele inventou a mulher


Fazemos parte de um mundo em que preferências sexuais na base de “eu gosto de menina” e “você gosta de menino” conta pouco. Ao menos no âmbito do que chamamos de a modernidade tardia ou os nossos tempos contemporâneos, meninas e meninos dizem gostar de pessoas, não de meninos e meninas. Criamos uma ampliação da androgenia e de variações homoeróticas. Assim fizemos por conta das possibilidades da sociedade da abundância, gerada pela sociedade da paz, isto é, a sociedade de mercado. Ela nos fez abandonar a virilidade histórica. Mas, no particular, isso só foi possível porque na modernidade tardia fomos capazes de inventar a mulher.Foi na distinção entre homem e mulher, por causa de inventarmos a mulher, um feito claro do feminismo, que pudemos agora chegar a abrir mão dessa distinção no âmbito das questões sexuais.

O feminismo é fruto da sociedade da opulência, da sociedade da leveza (Sloterdijk). Nesse âmbito, por conta de todas as suas lutas e até criações de disciplinas universitárias afinadas, ele fez valer o dito de Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher, torna-se mulher”. Ou seja, mulher do ponto de vista meramente da posse de genitálias nada mais diz da mulher; esta é, ao menos após o feminismo, mulher à medida que se engaja na vida de mulher, que agora é efetivamente distinta da do homem. A mulher só se distingue do homem à medida em que passa a ser secundária ao homem. Antes disso, não é nada. A mulher é mulher à medida em que não é mais o escravo ou o gado, mas a parceira em estado de “segundo sexo”. Nessa hora, ela emerge e, ao dizer que quer ser igual, aparece como mulher e se torna, então, diferente. A mulher torna-se mulher.

Antes do feminismo havia a mulher associada à genitália. Depois do feminismo apareceu a mulher. Aí sim começaram a nascer meninos e meninas. Aí sim os berçários do mundo começaram a fazer sentido e também o azul e o cor de rosa fizeram sentido.

Somos capazes hoje de termos entre nós vários habitantes de Plutão com direitos e, portanto, considerados como habitantes. Criança, negro e até pobre viraram gente. O cão está a caminho. E junto disso tudo, a mulher. O feminismo inventou a mulher e esta, agora, pode exercer sua condição de subalterna. A mulher jamais será igual ao homem, será diferente, talvez superior, e sem dúvida acoplar-se-á a tal coisa alguma vagina, mas isso será, daqui para a diante, algo ad hoc. Aparato para fazer sexo os homens possuem entre eles. Sem contar os robôs.

Temos que entender que nossa sociedade da abundância, da opulência, transformou tudo em diversão e, então, fez do sexo um tipo de celular, uma maquininha portátil de diversão. Sexo é uma coisa, mulher e homem é outra coisa. À medida que o sexo se tornou uma diversão cotidiana, o homem e a mulher, agora efetivamente inventados, deixaram de se colocar como o que é necessário ao sexo.  Jéssica Rabbit e Homer Simpson já foram eleitos símbolos sexuais há algum tempo atrás. Dá para entender isso e, então, compreender que o sexo não tem a ver mais com as revistas de assunto “feminino”? Sexo é erotismo ou pornografia. Homem e mulher são outra coisa. São usuários de aparatos de diversão, onde entra o sexo. E pode o sexo se tornar ele próprio o usuário de seus usuários.

Hoje ninguém mais entenderia Durkheim lendo Platão e criando algo como a categoria “divisão sexual do trabalho” para a análise de sociedade primitiva. Durkheim hoje é mais difícil de ser entendido pelos jovens. Seu vocabulário fala da palavra sexo de um modo ininteligível para os jovens.

Por sua vez, Freud também viveu numa sociedade sem mulheres. Eles chamava as mulheres de mulheres, mas o feminismo não havia inventado, ainda, a mulher. Freud não sabia nada de mulheres porque jamais encontrou com uma mulher. Por isso mesmo ele fez a pergunta “o que as mulheres querem?” Nós não, nós estamos dando de cara com um monte de mulher no cotidiano. Somos então postos a reconstruir todos os nossos vocabulários para podermos conversar sobre esses novos plutonianos.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

PS: um amigo me contou que uma moça filósofa foi no programa do Ronie Von e, por conta da juventude e desinformação, disse ao apresentador que não havia mais distinção entre homem e mulher. Ronie riu e disse “ah, esse pessoal da filosofia”. A menina ignorante não sabia estar diante do cantor que fez a pré-história da androgenia no Brasil. O curso de filosofia precisa voltar a ter alunos cultos, informados, sabedores da história da cultura etc.

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5 Responses “Nossa dívida para com o feminismo: ele inventou a mulher”

  1. 28/01/2016 at 01:16

    Se há uma dívida, a grande questão para ser respondida deveria ser: Como reparar a dívida que temos com o Feminismo?

    • 28/01/2016 at 11:48

      Gabriel não temos dívida nenhuma para com o feminismo que deva ser reparada. Temos dívida apenas. Nem toda dívida deve ser paga ou tem como ser paga.

    • 22/04/2016 at 18:38

      Eu não entendo essa coisa de “reparar”, há muito disso escrito em projetos políticos pedagógicos.

  2. 28/12/2015 at 12:13

    sem nos esquecermos que “homem” e “mulher” são categorias linguísticas. nosso sexo, ou melhor dizer, nossos órgãos genitais, são definidos por nosso DNA. nosso gênero, que é resultado de uma construção cultural, é definido por nossa família, nossa comunidade e, a partir da individualização, criamos nossa personalidade, identidade, opção e preferências sexuais. o que é engraçado e paradoxal, pois mesmo o/a transgênero recria seu discurso conforme a imagem/fantasia social normatizada sobre o que é ser “homem” e “mulher”.

    • 28/12/2015 at 16:02

      Não Quintas, o DNA não diz mais muita coisa.

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