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18/11/2017

Feminismo para inteligentes


Atacar o feminismo virou moda. Todo movimento merece uma crítica. Todavia, a crítica ao feminismo nem sempre reconhece que antes dele não tínhamos a menor ideia do que é uma mulher. E isso vale para mulheres e homens.

Nossa cultura ocidental atual, que prezamos em muitos aspectos, deve mais ao feminismo como movimento social, cultural e intelectual do que pode admitir. E não admite isso não por “machismo”, essa palavra caduca que as feministas descabeçadas utilizam para tudo. O não reconhecimento disso advém das circunstâncias históricas do feminismo. Trata-se de um movimento centenário, mas que ficou marcado na consciência popular atual segundo seus estereótipos tirados de uma de suas fases, a partir dos sixties.

Nos sixties tudo foi não só radical, mas exagerado mesmo. E então veio a caricatura, ou seja, o exagero do exagero, logo em seguida. A calça boca de sino e o mundo colorido dos anos setenta representou bem isso. A droga consumida por diversão nos sixties, nos anos setenta passou a ser negócio e morte. A política de protesto de esquerda nos sixties passou, nos anos setenta, a ser o terrorismo de grupos como As Brigadas Vermelhas na Itália. Do lado do Leste, o protesto dos sixties transformou-se na repressão soviética e o endurecimento do regime comunista. O feminismo entrou nesse turbilhão do apogeu da caricatura. Nos anos setenta é que de fato surgiu aquilo que até hoje é o que muitos – talvez até o Pondé! – tome como sendo feminismo, o cultivo da mulher que quer ser homem.

Foi dessa situação caricaturesca que o feminismo se fez feminismo na consciência popular, principalmente no Brasil. Afinal, sabemos bem que o Brasil é um lugar em que muita coisa chega apenas por importação do superficial que por demanda própria, ainda que aqui tenha havido, desde o anarquismo dos anos dez, uma corrente de feminismo que buscou agregar características da terra.

Mas, também aqui, sem feminismo não saberíamos nem mesmo penetrar as mulheres e as próprias mulheres, talvez, ainda hoje fazendo como algumas evangélicas atuais fazem, ou seja, nem podendo lavar as partes pudendas! O feminismo lésbico, por sua vez, deu mais contribuições ainda, pois foi por meio dele e até contra ele que o movimento lésbico se libertou da ideia de que ser feminista era ser a mulher-macho! Aliás, as próprias lésbicas mudaram, pois se mulher gosta de mulher é porque gosta da feminilidade, caso contrário, procuraria homem.

O certo é que o feminismo foi além de tudo isso. Nas universidades americanas criou a própria epistemologia feminista. Indagou-se aí se era possível falar de discussões sobre os estatutos da ciência e suas metodologias, seriamente, sem rever a noção de “homem genérico”, que era o parâmetro exclusivo para o modelo de intelecto humano. Isso foi fundamental não para se criar duas epistemologias separadas, a partir de “estudos de gênero”, mas para ampliar a noção do que poderíamos chamar de “O homem”. A epistemologia geral nunca foi mais a mesma após os “estudos de gênero” dar suas opiniões. Nem a psicanálise. Menos ainda a história e a filosofia, isso sem contar, é claro, a sociologia e a antropologia.

Apesar de tudo isso, o feminismo tem ainda uma face atávica, tanto quanto seus críticos mais televisivos e jornalísticos. É que o feminismo acabou integrando a agenda das esquerdas e, entre estas, talvez tenha se tornado parte da face menos evoluída, a que ainda pensa o marxismo de modo leninista, vanguardista, exclusivamente militante etc. Desse modo, torna-se vítima das maquinações da direita que, até por falta de sofisticação intelectual, como é de praxe, não faz outra coisa senão ideologizar ainda mais um debate que só perde ao ser ideologizado.

O feminismo desse naipe é militante antes que reflexivo. Vê em tudo a necessidade de denunciar “opressão” e “machismo”. Ao fazer isso, ganha a marca de toda e qualquer militância: a perda da criticidade. O crítico espalhafatoso não consegue criticar-se. Entre outros erros, isso cria o fundamental tropeço, o semântico. O caso da palavra “machismo” é típico.

Tudo vira machismo! Aristóteles vira machista mesmo não podendo ser feminista. Kant vira machista e Marx também, mesmo quando o feminismo não tem conotações socialmente válidas. Mas há ainda coisa pior: a palavra “machista” é utilizada para qualificar faltas e até crimes que, enfim, sem a palavra, seriam vistos e punidos pelas suas reais características, e não por motivos supostos. Outro dia mesmo vi uma garota acusar um delegado de machista, quando na verdade, fazendo isso, ela acabou por diminuir a falta dele, que era a falta de ser um funcionário público inapto. Esse feminismo cria a inversão de tudo, ainda que, nesses casos, temos de admitir, trata-se mesmo do feminismo que perde para o analfabetismo, e não propriamente feminismo.

O feminismo deveria ser recriado. Mas não pode mais fazer isso. Já fez tal coisa tantas vezes que, agora, nem isso pode. Só tem é que viver como vem vivendo, trazendo ganhos e levando pancada, às vezes por querer levar pancada.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo.

PS: uma leitura recomendada: “Feminismo e pragmatismo”, de Richard Rorty. Em português no livro Verdade e progresso, da editora Manole.

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One Response “Feminismo para inteligentes”

  1. Adriano Apolinário da Silva
    17/08/2014 at 15:16

    Aprendi mais um pouco! Obrigado. Uma professora citou uma vez, se não me engano Jorge Luis Borges, que dizia que reler é mais importante que ler. Talvez tenha razão. O fato é que reli o texto e peguei o que não tinha pegado.

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