Go to ...

on YouTubeRSS Feed

20/10/2018

Feminismo para além da imbecilidade


Por que o feminismo é burro? Não! O feminismo não é burro, mas o número de mulheres – e até de homens – que para alimentar sua completa condição de mentalmente limítrofe precisam de jargões feministas cresceu demais. Querem exemplos?

Esses dias saiu uma reportagem mostrando uma pesquisa científica que fala que homens que fazem sexo com mais de vinte e uma mulheres na vida estão na faixa dos que menos podem contrair câncer de próstata. A notícia foi para as redes sociais. E os comentários dos “feministas” e das “feministas”, utilizando do jargão “machismo” para qualificar a reportagem, pularam de todo lugar. Os dados empíricos e a metodologia não foram considerados para avaliar a pesquisa, se correta ou não. Os comentários apenas se basearam no seguinte moralismo barato: homem que é mulherengo ou “galinha” não presta, e isso é um homem que não valoriza a mulher, um “machista”.

O termo “machista” aí serviria se, na base dessa pesquisa, estivesse algo viciado, ou seja, a perspectiva masculinista estaria fomentando epistemologicamente um caminho acriticamente predeterminado, a ponto de interferir no básico do trabalho. Mas há anos essa pesquisa vem sendo feita por homens e mulheres da ciência, e o que importa aí é o número de ejaculações em relações sexuais completas.  Não necessariamente a masturbação e outros tipos de sexo deram o mesmo resultado para os grupos analisados que fizeram sexo com mulheres. É só isso.

O feminismo aí, na sua gritaria contra a reportagem e a pesquisa exclusivamente pela baixa inteligência ou baixa cultura dos avaliadores que chamaram o tópico jornalístico de “pesquisa de machista”.

O que ocorre com os opositores conservadores do feminismo nessa hora? Eles fazem como eu, inicialmente. Chamam tais feministas de limitados. Mas no segundo passo, distantes de mim, querem desqualificar todo o feminismo para levar adiante a bandeira que, no limite, protege o homem na sua condição de preservador do status quo. Há dominação masculinista na sociedade. Quem pode negar isso? Isso é novidade? Há um conhecimento a respeito do homem e da mulher que só foram possíveis por causa do movimento feminista. Nessa hora, eu vou para um lado e os conservadores vão para o outro. Mas há gente limitada de todos os lados para não entender minha análise. E eu estou realmente, nisso, sendo analítico – crítico, digamos.

Outra situação na qual o feminismo é utilizado para a confusão mental é o da substituição do evento pela suposta motivação.

Um delegado atende uma mulher que foi molestada. Ele a atende de forma pouco empenhada e fica claro, para os que estão presentes, que ele foi de fato relapso. Também há indícios, por conta de uma fala dele sobre o vestido da mulher, que ele talvez tenha sido mais relapso por conta do endosso da chamada “culpa da vítima”. A velha história popular sobre a mulher que não se daria ao respeito e, por isso, estaria autorizando o homem a investidas não explicitamente consensuais. O que ocorreu aí? Simples: um funcionário público deixou de cumprir sua função. Essa é sua falta. Esse é o evento ocorrido na delegacia. Chamar isso de machismo é algo que deve estar no contexto da situação principal que é a do funcionário público ter sido relapso. Ele poderia ser machista e atendido bem a moça. Ele poderia não ser machista e atendido mal. A motivação dele importa menos, se é para olharmos acrítica geral e para vermos a punição cabível que a sua ação de funcionário público relapso merece. Chamar tudo isso de machismo e querer punir o delegado por machismo é, na verdade, protege-lo. Pois o básico é que ele é um funcionário público nada exemplar.

Quando digo isso estou trabalhando no campo analítico. Não estou dizendo que não há machismo. Estou dizendo que machismo, no caso, não é o qualificativo que deve levar adiante o carro chefe da denúncia em relação ao funcionário. Antes de machista ele é um funcionário relapso. Um bom funcionário engoliria seu machismo e atenderia a moça muito bem, ainda que, chegando à sua casa, pudesse dizer para a esposa: “hoje veio lá um moça vagabunda, com um vestido na testa, e disse que foi molestada”. Um homem desses pode ou não ter a repreensão da esposa em casa como homem e marido. É problema deles. No âmbito do trabalho o machismo, ainda existindo, pode ser o motivador, mas o evento não é um evento exclusivamente de machismo, é principalmente de funcionamento capenga da máquina do funcionalismo público, caso o delegado não seja punido por ser um delegado relapso.

Novamente, nesse caso, os conservadores querem ficar com a fala do feminismo ruim, que reduziria todo o evento a machismo, de modo a mostrarem o quanto os feministas não sabem analisar nada. Até aí eles, mais ou menos, me seguiriam. Mas certamente passam do ponto porque querem, no fundo, mostrar que toda e qualquer denúncia feita pelo feminismo é sem sentido, é errada. Eu vou para um lado, eles vão para outro e, no entanto, haverá quem ainda assim não me entenda. O mundo não é feito só de inteligentes.

O feminismo inteligente é muitas vezes condescendente com o feminismo burro por razões de adesão ao fascio.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

Tags: ,

18 Responses “Feminismo para além da imbecilidade”

  1. Frederico Reis
    28/06/2018 at 21:07

    Eu discordo quanto a parte do delegado. Acho que ele deve sim ser punido por não exercer sua função corretamente, mas ignorar o machismo é tratar o sintoma e não a doença. Existe uma causa primordial para o relapso dele que deve ser revista para que não se repita.

    • 28/06/2018 at 21:27

      Frederico leia o texto dez vezes. Mas pensando.

  2. Ray
    31/03/2016 at 02:37

    Interessante, me levou a reflexão.

    Curioso admitir que dentro de todos os textos que li sobre o feminismo, este, escrito por um homem, soou mais coeso.

    Aí segue minha pergunta, quais mulheres, escritoras seriam as mais inteligentes para falar sobre esse assunto e que poderia ser indicado.

    Obrigada.

    • 31/03/2016 at 09:31

      Ray, a discriminação contra minorias, quando atinge as próprias, cria uma ferida. Para escrever de modo filosófico, nem sempre ter uma ferida é bom, às vezes é melhor apenas ter uma noção clara da ferida. O feminismo de Simone de Beauvoir e de Marta Nussbaum são opostos, o melhor é pinçar aqui e ali. Entende?

  3. Otávio
    25/11/2015 at 09:51

    Muito bom e gostei muito da clareza com que escreves tuas ideias. As minhas, não tão bem fundamentadas e embasadas, vão ao encontro do que tu dizes. O feminismo, a consciência negra, têm sido um desserviço às próprias lutas. Argumentos como já ouvi, “você, branco, tem como papel ser racista”, por exemplo. “Elogiar uma mulher educadamente é machismo também”. Coisas que sequer entendo. Lerei mais tuas ideias.
    Grande abraço.

    Otávio “Xavante” Canez.

  4. José
    31/10/2014 at 01:10

    Tem uma feminista famosa, autora de um blog dos mais conhecidos do país, professora de universidade, que diz que o senhor é machista. Como lida com esse tipo de crítica?

    • 31/10/2014 at 02:44

      Não sei quem é e quando escuto isso sei que veio de quem não leu nada e se leu não entendeu nada. Ou então está de má intenção. Todo movimento minoritário é defendido por mim, mas eu também tomo um cuidado imenso, como tomei nesse texto (não sei se entendeu), de mostrar que esses movimentos podem criar uma campo semântico confuso e que isso depõe contra eles mesmos. Como movimentos minoritários ou movimentos sociais tomam caráter partidário, é normal que no meio apareçam militantes que não querem nem saber de nada, apenas querem jogar para a plateia, então sempre estão procurando caçar pessoas para expor diante da guilhotina. Aí tais movimentos funcionam com o caráter de fascio, gerando o fascismo. Taxar sem ler ou rotular sem analisar é típico desses aproveitadores. Agora, não se pode por conta dessa gente de caráter ruim e inteligência pior ficar magoado e, então, deixar de lado a importância da bandeira de gays, negros, feministas etc.

    • LMC
      31/10/2014 at 11:42

      Essa feminista blogueira me
      lembra aquele personagem
      do Marcelo Adnet do
      programa Tá No Ar que só
      vive culpando a Globo por
      todos os males do universo.
      Dêm uma olhada.

    • 31/10/2014 at 11:44

      Mas existe tal blogueira? Quem é?

    • Augusto
      01/11/2014 at 14:47

      É a Lola Aronovich, Paulo, figura bastante conhecida, professora da federal do Ceará.

      “Lola Aronovich ?@lolaescreva 21 de nov
      @vianna_flavia Sempre achei o cara machista. Mas depois ele foi ofuscado por outro colega filósofo cujo nome começa c/Pon e termina com dé.”

      https://twitter.com/lolaescreva/status/417764950589706240

      https://twitter.com/lolaescreva/status/416566437432401920

    • 01/11/2014 at 14:49

      Augusto, não, realmente não conheço. Agora, o Pondé também não é machista, muito pelo contrário. Ele invoca contra a feminismo aí sim, pelas razões que falei, ele toma o feminismo só pela sua facção burra.

  5. Ferdnand
    30/10/2014 at 22:41

    O que acha o nobre professor sobre os livros de Camille Paglia?

    • 30/10/2014 at 22:48

      Ferdnand! Coisas dos anos oitenta. Passou. Moda.

    • José
      31/10/2014 at 18:41

      Acho que ela te chamou de filósofo machistóide. Ela é professora da UFRN.

    • 31/10/2014 at 19:56

      José eu não sei quem é. Talvez apenas uma tola.

    • LMC
      01/11/2014 at 10:48

      Não seria o Escreva Lola.
      Escreva,não,Zé?Ela é da
      UFC.

  6. José
    30/10/2014 at 15:33

    Eu acho que hoje tem pessoas que fazem defesas muito apaixonadas do feminismo, há um certo exagero em muitas feministas. Elas veem machismo em tudo, parece que se tornaram seitas religiosas. Ao mesmo tempo é cada vez mais notar o superficialismo com que classificam as coisas, muito baseadas em emoções e em clichês limitados a grupos que tem comportamento parecido ao de torcidas de time de futebol.

    • 30/10/2014 at 15:52

      José eu tentei fazer essa análise, bem agudinha, para ver se as pessoas não percam suas paixões, mas as usem em favor da inteligência. Todo movimento de minoria ao criar condições para uma vida melhor para seus membros pode gerar costumes e depois leis perigosas até para o próprio grupo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *