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16/08/2017

Posso ser feliz com meu namorado(a)?


“Só conhecemos realmente alguém a quatro paredes”. Por esses dias um personagem gay da novela Babilônia se opôs veementemente contra essa tese. “A quatro paredes é que não se fica conhecendo ninguém” – disse ele. Tenho de ceder: os gays tem lá sua sabedoria.

A intimidade é a intimidade. Só isso. Ela não é o lugar da verdade. Enquanto não conseguirmos nos livrar da ideia, vinda lá da rabeira do platonismo e do para-choque do romantismo, de que a sacrossanta intimidade é como um fim de arco-íris, onde nos espera o pote de ouro da sinceridade, não vamos conseguir namorar direito e muito menos casar sem descabelamentos posteriores.

A filosofia passada que, como Nietzsche disse (com certo apoio de Gramsci, quanto à ciência), virou senso comum, nos ensinou a ver o mundo como o reinado de “essência” e “aparência”, e então abraçamos Rousseau e outros seus colegas quando estes localizaram no “interior”, especialmente vendo este como “o coração sincero”, o canto daquilo que “realmente é” – a verdade. Acreditamos nisso e estamos, então, pronto a ficarmos decepcionados ao descobrirmos que podemos viver nos lugares mais íntimos de alguém, podemos compartilhar intimidades, e isso não nos revela muito do que uma pessoa pode fazer ou não fazer no futuro. Na intimidade não está o perene, e, por extensão desse conceito, a verdade. Na intimidade está apenas mais um de nós, um “eu íntimo”, ora bolas. Um outro “eu íntimo” pode brotar quando uma outra intimidade for exigida.

A solução para tal problema, no âmbito amoroso, não é o “pacto da sinceridade” ou a adoção do “casamento aberto”, eufemismo para o lar dos cornos. A solução está simplesmente em saber que estamos envoltos com necessidades e liberdades, e que isso nos faz agentes de ações diversas. Em suma, as coisas são bem mais simples. Ou seja, se quero saber se minha mulher pode me trair, devo confiar muito mais na disposição libinal dela, no clima caseiro, nas decepções e frustrações diárias, tudo o que é muito visível, e esperar bem menos do chamado “convívio íntimo”, ou seja, o convívio do quarto, da cama, do sexo e das trocas de juras de amor. A quatro paredes podemos enganar outros e a nós mesmos com uma facilidade incrível.

É duro absorver isso. É duro despedir Platão e Rousseau. É duro abandonar a ideia de que nossos diários contem verdades. Há um sofrimento em aceitar somos o que somos ou seremos ou que seremos, e que isso tem pouco a ver com o “a quatro paredes”. Somos seres superficiais. Sem qualquer conotação pejorativa, pois de fato vivemos na superfície. Por isso tudo, se quisermos ser mais felizes é necessário sermos o que somos no amor. E o amor envolve observação.

É mais trabalhoso, é sim. Pois se o que somos capazes de fazer está no que já fazemos abertamente, então, nosso trabalho de observar o parceiro amoroso e ter a coragem de ver sua insatisfação é um exercício hercúleo. Pois ao notar isso esfregamos em nossa própria fuça nossas falhas e incompetências. Nós todos que nos envolvemos com Eros não sabemos muito fazer isso, observar o parceiro para que a flecha do cupido não desça do coração para a bexiga e sai na urina. Estamos preocupados demais com outras coisas, e menos com nossos parceiros que, afinal, a quatro paredes conhecemos e, então, achamos que os temos na mão. Pensando assim, nosso destino é um só. A moça logo vai ficar irritada e decepcionada quando ficar sabendo que a sua melhor amiga (uma melhor amiga serve para outra coisa?) deu para o seu marido. O rapaz vai ficar nervoso ao descobrir que sua mulher deu para o chefe no serviço (afinal, um chefe é para que, né?).

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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8 Responses “Posso ser feliz com meu namorado(a)?”

  1. 03/10/2015 at 09:58

    Eu acho que quanto mais expostas mais conhecemos as pessoas, prefiro quem diz que o poder é o que mostra as pessoas realmente, somos todos um buraco negro.
    Excelente texto.

  2. Thiago Zucarini
    19/05/2015 at 15:06

    Outro texto muito bom, Paulo. É incrível a força que o platonismo e Rosseau exercem na vida de todos ao fazermos acreditar que buscar o íntimo do outro é que mostrar a “essência”, até no relacionamento com amigos, porém o foro íntimo é só uma faceta dessa teia de conhecimentos e vivências que todos temos em contra-partida ao homem-cebola de Pascal, como você já explicou em outros textos.

  3. Leni Sena
    16/05/2015 at 20:40

    É verdade, “a quatro paredes podemos enganar outros e a nós mesmos com uma facilidade incrível”. Num momento parece que nada irá abalar a relação de tão embevecido que a pessoa se encontra na intimidade das quatro paredes. A intimidade é, justamente, quando a pessoa tá mais sujeita a se enganar. É nessa hora que ela ignora os sinais de fora das quatro paredes.

  4. Júnior
    16/05/2015 at 18:24

    Ghiraldelli, sei que não há relação direta com o texto, mas o que você acha do filósofo André Comte-Sponville? Ele já escreveu vários livros sobre o desejo, o amor e a felicidade, provavelmente você já os leu

    • ghiraldelli
      17/05/2015 at 02:11

      Não é a parte boa dele.

  5. Pedro de Faria
    16/05/2015 at 18:11

    Eu gosto duma música da banda The Hives chamada B is for brutus. Em dado momento ela diz “Judas time has come to do / What’s expected of you”. Sempre chega a hora de fazermos o que é expectado que façamos? O homem é uma bomba relógio cuja a explosão nós já sabemos onde será? Não estava “na cara” de Judas o que ele faria?

  6. Micaías de Souza
    16/05/2015 at 16:32

    E esta busca, entre o essencial e superficial, dá-se mais entre os jovens que os mais velhos. Acho que esta premissa “Somos seres superficiais. Sem qualquer conotação pejorativa, pois de fato vivemos na superfície. ” é um dado da experiência. Uma coisa que o convívio dos mais velhos podem ensinar aos jovens. Há um relaxamento no relacionamento quando não espera do outro um amor quase metafísico, no estilo do romantismo. Talvez por isso que os símbolos românticos, Romeu e Julieta, são sempre jovens.

    • ghiraldelli
      16/05/2015 at 16:56

      Bem, a questão é velha em filosofia, a saída da dicotomia essência e aparência. Eu apenas quis mostrar como isso afetaria relações pessoais. Veja que um leitor aí não entendeu, e continuou na dicotomia.

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