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23/04/2017

Félix no centro do furacão


felix-1Por mais mal que Félix faça o público o perdoa. No próprio enredo do folhetim, ele também não fica isolado, o filho e a verdadeira mãe o acolhem. Três amores: o do público, o do filho que sabe agora que não é filho e o da ex-chacrete, que é sua mãe.

O público deixou de lado a homofobia e a maldade e foi ganho por aquilo que faz qualquer um folclórico, fraco e, portanto, perdoável: Félix é no fundo um pobre diabo. Ele tem deixado claro que não faz as coisas por maldade, mas por amor – amor que não teve: aquilo que seu pai negou. Além disso, ele faz as coisas de maneira engraçada e, dentro dos limites, franca. Nenhum vilão de folhetim foi tão sincero quanto ele.

O filho tem de amá-lo mesmo. Não há saída para Jonathan. Félix pode aprontar todas, e o menino vai lá com a mesada na mão oferecer ao pai. Jonathan é aquele tipo que teve de sair da adolescência bem cedo. Quando se está em um mundo louco não temos a prerrogativa de enlouquecer e, então, tomamos juízo. Muita gente se fez estável em famílias em que a cada dia uma bomba estoura e põe tudo a perder. Jonathas parece intuir que antes um modelo de pai para ele formar sua identidade pessoal do que nenhum. Antes reconstruir o pai todos os dias que não ter nenhum barro para começar. Muita gente se faz gente assim.

A ex-chacrete ama Félix porque ela é montado pelo amor. Ela não odeia ninguém. Ela tem valores simplórios como realmente ocorreu com dezenas de chacretes. Eram pessoas que dançavam e eram cuidadas pelo Chacrinha. Ele morreu e tudo acabou. Só isso. Nada existe além desse modo da banalidade extrema. Nessa simplicidade havia amor a tudo e a todos em um clima de eternas adolescentes felizes. Os filhos perdidos são fonte de uma culpa imensa para elas e, neste personagem, isso se personifica de modo claro. Amor de culpa, sim, mas quem disse que amor com adjetivos aqui e ali é menos amor que amor dito puro?

Perdão, busca e culpa – eis aí os três motores do amor que é direcionado a Félix.

Em nossas vidas cotidianas deveríamos esperar sermos amados por alguma coisa melhor que isso? Ou já somos suficientemente dignos para sentir esse amor e não se aproveitar de seu motor pouco resguardado?

Félix se emociona com esses amores, ao menos dentro dos limites que ele pode saber e viver, na trama em que está. Mas não retribui à altura. Vamos censurá-lo? Como? Nós retribuímos à altura o amor que recebemos?

Quanto ao público, Félix não retribui porque os que estão torcendo por ele querem que ele se regenere, senão de tudo ao menos de um modo que cesse a angústia que gera em todos nós.  Mas ele não para. É compulsivo na sua maldade e vingança. Ou ele ou nada. Essa é sua lei. Lançado no fundo do poço, ele ainda consegue gritar e seu grito não é de socorro, mas de acusação capaz de fazer os da superfície viverem em um inferno pior que o dele.

A respeito de Jônathas ele, Félix, ensaia tentativas de se tornar um pai de verdade. Mas não consegue. O turbilhão em torno de sua própria alma o impede de ser qualquer coisa que não o solitário Félix.

A respeito de sua mãe verdadeira, é muito provável que ele tirará proveito dela como faz com qualquer um, magoando-a de um modo imperdoável.

Félix é o pivô de toda a trama e Matheus Solano já se consagrou como um ator de primeira linha, espetacular. Mas Félix ultrapassa a própria trama e talvez Matheus Solano já esteja começando a temê-lo. Por uma razão já dita: ele lida com o amor de uma maneira que nos desnuda, uma vez que nos pegamos também fazendo coisas que ele faz. Perdão, busca e culpa são os motores do amor que a ele chega. Mas ele não está voltado para o amor que chega, apenas para o que sai ou, melhor dizendo, para o amor que não existe, que é na verdade o desprezo de César. Félix só tem olhos para aquilo que Jônathas soube contornar: buscar o amor do pai para ter a aprovação daquilo que se é. Metade de nossas ansiedades e angústias são fruto disso, de êxitos ou fracassos que ganhamos ao tentar satisfazer as expectativas que depositaram em nós.

Toda a expectativa de pais e outros elementos, mas fundamentalmente do pai, precisam ser satisfeitas.

Dentro do útero estávamos em dupla, mãe e filho em simbiose. Tudo era líquido e amor. Mas como sair dali pelo portão vaginal e ganhar a terra, a gravidade, ter peso e ver o cordão umbilical ser cortado? Como então criar um segundo útero para que o processo de gestação continue? Como formar um ambiente, uma esfera, na terminologia de Peter Sloterdijk? Há de se ter uma lugar cercado capaz de imunidade e onde possamos nos desenvolver! E esse lugar precisa ser uma esfera que se desenvolve e aprende de modo conjunto conosco. Tudo nos impulsiona a imaginar que nossa performance diante do pai irá contribuir para a esfera, de modo que a família se torne um “nós”, um bom oikos, um nicho acolhedor. Mas nem sempre somos bons naquilo que nosso pai espera que sejamos bons. Eis aí então a eterna busca pelo amor que não veio na forma do reconhecimento necessário. Estamos então diante de alguém inexoravelmente ansioso, neurótico, talvez com algum grau de esquizofrenia. Félix é muitos de nós.

Não conseguimos sorver o amor que recebemos. Achamos todo esse amor motivado pelo que ele realmente é motivado, no caso, o perdão, a busca e a culpa. São amores que não são amores para nós, parece que podemos acusa-los de terem motivação egoísta. Vemos adjetivos no amor que recebemos porque precisamos descartá-lo para de novo olhar para o amor que não recebemos, ou que achamos que não recebemos, que é o do pai. Nossa esfera não se constrói. Não formamos o novo útero. O “nós” se estabelece, mas ficamos de fora. Caímos abertamente diante do mundo aberto. Vamos então dar pancadas no mundo, e ele as devolverá com o dobro da força.

Paulo Ghiraldelli, filósofo

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5 Responses “Félix no centro do furacão”

  1. Sara
    24/11/2013 at 18:26

    ‘Nossa esfera não se constrói’. Que profundo isso….

  2. Alexandre
    24/11/2013 at 17:22

    Eu fico me perguntando se o Walcyr Carrasco escreve tendo esse tipo de visão em mente ou se apenas se projeta no personagem, ou talvez ocorra um pouco dos dois. É interessante perceber o quanto os autores se projetam em suas histórias e personagens.
    .
    “Jonathas parece intuir que antes um modelo de pai para ele formar sua identidade pessoal do que nenhum.”

    Será que não é melhor não conhecer um pai do que ter que conviver com um pai extremamente chato e desagradável? No primeiro caso pelo ou menos dá para idealizar.

    • 24/11/2013 at 20:08

      Os romancistas não precisam ser filósofos, eles são romancistas.

    • Alexandre
      30/11/2013 at 00:44

      Compreendo…
      Paulo, por curiosidade, você gosta da obra de William Shakespeare?

    • 30/11/2013 at 02:09

      Alexandre, gosto, claro – mas não para ler.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo