Go to ...

on YouTubeRSS Feed

18/12/2017

Felicidade é mesmo modinha? Comentando Calligaris


A depressão está longe de ser um “fenômeno” moderno. Todo tipo de literatura do passado nos mostra pessoas tristes, e nos dá boas dicas para notarmos quanto foram diferentes ou não de pessoas depressivas. Mas há mais a dizer!

Ainda que eu possa concordar com Contardo Calligaris que nossa valorização da “felicidade”, atualmente, coloca parâmetros talvez falsos para diagnósticos sobre o que é tristeza e o que é depressão, fico com vontade de comentar um trecho seu. Em mais um de seus artigos chamativos, Calligaris diz, ao final do texto:

“A pesquisa [B. Q. Ford e outros, no “Journal of Social and Clinical Psychology”, (migre.me/rWhcK)] conclui que o valor cultural atribuído à felicidade leva a consequências sérias em saúde mental. Uma grande valorização da felicidade, no contexto do Ocidente, é um componente da depressão. E uma intervenção cognitiva que diminua o valor atribuído à felicidade poderia melhorar o desfecho de uma depressão. Ou seja, o que escrevo regularmente contra o ideal de felicidade talvez melhore o humor de alguém. Fico feliz.” (Folha de S. Paulo, 29/10/2015)

O que essa pesquisa destaca, cá entre nós, é um lugar comum. No jargão costumeiro das Humanidades, no século XX, chamamos isso de “Teoria da Vara de Lênin”. Uma vara torta para a direita merece uma entortada para a esquerda, mas um pouco mais do que o aparentemente necessário, e então, naturalmente, quando a soltamos, ela fica na posição que desejávamos. Ou seja: se baixamos as expectativas de alguém sobre felicidade, então talvez ela pondere melhor e até aceite ser tida como não totalmente infeliz. Também se parece com a teoria do General Médici, nosso ditador nos anos 70. Ele dizia que ligava a TV toda a noite e via os países da África em miséria absoluta e guerra, que via a fome na China, que assistia as catástrofes naturais no Japão, que notava a luta racial nos Estados Unidos etc. Então, ele desligava a TV e ia dormir tranquilo, pois o Brasil não tinha aquelas desgraças. Claro, aquelas desgraças, especificamente, o Brasil não tinha mesmo!

O que pesquisas empíricas do tipo das citadas por Calligaris dizem (e eu li mais de uma) é algo bem predeterminado no senso comum de escolarizados e pesquisadores. E ainda que essas pesquisas sejam corretas, que ninguém tenha induzido nada, eles não dizem algo diferente do que nós fazemos no cotidiano, com a Teoria Médici e Teoria da Vara de Lênin. Todavia, eu tenho um dado que essas pesquisas não apreendem: eu sei na pele e nas entranhas o que é depressão. E sou suficientemente culto e auto-observador, em quase 58 anos de prática, sobre que tipo de vida e de droga se pode dar ao triste e que é bem diferente do que se pode fazer com o depressivo. O depressivo diante de Médici e Lenin, em vários sentidos, acredite, não dá uma melhorada não!

Isso não quer dizer que tenhamos que “curar” tristeza, mesmo aquela “da brava”. Não estou falando que, contra Calligaris, a felicidade é necessária e que muito papo não vale a pena, e que o correto é jogar na água de todas as cidades uma química em padrão médio qualquer para acertar nossas taxas atuantes de neurotransmissores. Nem estou falando que Calligaris daria aval ao tal médico americano que “descobriu” que toda depressão é falta de sol, e que tirou os remédios de seus pacientes e os curou todos – ele diz – com florais e com quantidades “cientificamente estudadas em cada caso”, de disposição ao sol. Esse médico faz todos economizarem em remédios, para gastar muito mais com ele, pois só ele sabe dosar a quantidade de sol que cada um necessita para ficar mais feliz do que Lênin e Médici poderiam conseguir.

Vamos lembrar da estadia de Rousseau na casa de Hume? Acho que ajuda!

Rousseau era sim um homem com mania de perseguição, com fortes traços de tristeza patológica, com os típicos altos e baixos de euforia e prostração depressiva. Ele infernizou a vida de seu anfitrião, David Hume, que tinha um comportamento amável. Alguém pode ler a produção de ambos e a biografia de ambos e concluir que tudo não passou de diferenças filosóficas e, enfim, do confronto, numa mesma casa, entre um francês naturalmente excêntrico e sem modos e um britânico naturalmente gentleman. Ora, mas quem leu um pouco de Nietzsche pode voltar aos dois e perguntar: se ministrássemos a eles um pouquinho de algum regulador de serotonina diário, ambos não melhorariam? Talvez nem viéssemos a conhecê-los, pois não produziriam o que produziram, seguindo então uma vida de bons escritores comuns, mas não geniais. Se isso parece não ser o caso de Hume, certamente é difícil não conjecturar tal possibilidade a respeito de Rousseau.

Dizer que meus antidepressivos não tiveram peso nas mudanças de minhas posturas filosóficas e, enfim, inclusive na produção como escritor acadêmico seria inventar demais. Sei que tiveram. Não estamos no mundo em que a tristeza depressiva é uma garota volúvel, que pode mudar de comportamento com tapinhas no bumbum dado por Lênin ou Médici. Algumas garotas adoram uma pegada nas nádegas, mesmo, de um macho Maxapran-Citalopran 20 mg.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Tags: , , , ,

10 Responses “Felicidade é mesmo modinha? Comentando Calligaris”

  1. Alexandre
    14/03/2016 at 21:15

    Estou pensando seriamente em cometer suicídio, até penso em buscar tratamento, mas acho que não adiantará nada. Me sinto sem saída. :'(

  2. Alexandre
    03/11/2015 at 00:54

    Não sabia que você tinha sofrido ou sofre de depressão, tentei imaginar algum motivo e não encontrei, já que você é profissionalmente realizado, feliz no amor, aparentemente é saudável, não precisa lidar com preconceitos e ainda por cima é heterossexual e consequentemente pode tudo; além disso você não aparenta ter grandes desejos ou dilemas existenciais, já que não dá a mínima para vida após morte e conceitos do gênero, não sofrendo com a ideia do fim da própria existência ou fim da existência de quem você ama. Sendo assim, fica difícil imaginar o motivo que te levaria a sofrer de depressão, mas enfim, cada um com seus motivos.

    • 03/11/2015 at 08:22

      Alexandre não faça drama, depressão é apenas falta de um neurotransmissor e é mal de família. É uma patologia que todo mundo tem na filosofia, mas não pela filosofia, a filosofia é desaguadouro apenas.

  3. Roberto
    30/10/2015 at 15:54

    E olha que você, Paulo, é bem-sucedido. Ao menos é um grande intelectual. Imagine a dificuldade que passa uma pessoa que ainda não “fez a vida”, como um concurseiro que ainda mora com os pais. Isso sim é o fundo do poço, acredite.

    • 30/10/2015 at 19:40

      Roberto eu sempre quis ser filósofo. Fugi disso, mas a filosofia me pegou. Nunca quis ser médico ou engenheiro e, então, derrotado e frustrado, fui parar na filosofia. Felizmente não tenho que carregar fracasso e mágoa. Isso ajuda muito, claro. Mas a depressão é outra coisa, ele tem componentes que ultrapassam a cultura.

  4. Adalberto
    30/10/2015 at 11:39

    Que tipo de mudanças exatamente os antidepressivos tiveram nas suas posturas filosóficas?

    • 30/10/2015 at 12:41

      Adalberto, isso é coisa para uma autobiografia com certo critério.

  5. Jokas
    30/10/2015 at 10:35

    Se a felicidade é modinha eu não sei, mas a banalizaçao ou a crença de que a depressao é frescura ou coisa de vagabundo é uma realidade. O sujeito que caí nela vira um incompreendido. Acho que a partir disso podemos pensar que sim, existe sim uma super valorização do que é visto como normal que faz com que um depressivo se sinta e seja levado efetivamente peloas outros mais ainda deslocado para as profundezas do isolamento.

    • 30/10/2015 at 12:42

      Jokas infelizmente ainda estamos nisso e por isso escrevi o que escrevi como contraponto ao Calligaris

  6. Matheus Kortz
    30/10/2015 at 02:36

    Só sei que hoje neu dia foi feliz, tive leituras filosoficas tao boas que meu cerebro se pos a funcionar como há anos nao fazia. Cantei e brinquei com dois cachorros e um gato. Posso ter a vida inteira duvidado da felicidade, nas hoje, num dia absolutamente banal a senti. Recuso-me a dormir de tanta felicidade como se soubesse que amanha nao sera tao excepcional, e as 2 e 30 da manha comento aqui. Acordado para nao ter mais um “sono culpado” (como sisse a Olgaria quando comentava a melancolia, tristicia e acidia, tedio e monotonia) como por anos tives, apesar de que amanhã devo acordar recompensado do descanso e nao culpado pelo que nao pude fazer.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *