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20/09/2019

Para parar de simplesmente chamar o outro de fascista


É difícil exercer a atividade de pensar hoje em dia. Em uma sociedade politizada modernamente as pessoas se tornam “de direita” e “de esquerda” e, não raro, param de raciocinar. Coloco abaixo alguns temas de maneira dialética, para convidar as pessoas a adiarem decisões, estudarem, refletirem mais.

Aborto. As mulheres que argumentam a favor da prática do aborto legal nunca colocam em pauta uma solução interessante: a desburocratização da adoção acompanhada, adrede combinada. Dá a impressão que querem apenas criar celeuma com os mais conservadores, sendo que estes, por dua vez, desejam simplesmente criminalizar o aborto não por estarem preocupados com a proteção dos mais fracos (o feto, no caso), mas simplesmente para criar uma espécie de punição sobre a mulher (afinal, ela fez sexo, não?).

Animais. Os que não querem proteger os animais, não raro usam de dois argumentos: um primeiro é o tal do progresso científico. Deve-se sacrificar animais, uma vez que a ciência não pode parar, principalmente a ciência médica. Repentinamente a ciência, que anda sempre sozinha e sem travas, vira Deus. Ninguém pode questionar seus caminhos ou pedir para ele mudar rotas. Conservadores se transformam em iluministas a favor do progresso científico inexorável. Em segundo lugar, para tentar ridicularizar os protetores da vida animal, perguntam se vão proteger as baratas. Não passa pela cabeça desse pessoal que os animais, como tudo, vão ganhando proteção à medida que os colocamos no círculo do “nós”. Fizemos isso com o cachorro e talvez façamos com os robôs e, um dia, talvez até com as baratas – se sobrevivermos.

Menores. Muitos que defendem que as crianças não devem ser protegidas quando cometem infrações, não percebem que tratam como não-crianças os filhos dos outros, enquanto seus filhos são vistos sempre como bebês. Discute-se a idade de penalidade, nunca se discute a possibilidade de uma legislação capaz de analisar caso a caso. A ideia básica de alguns é sempre o aumento infinito de cadeias, como se tivéssemos dinheiro para ir prendendo o país todo.

Cotas. É interessante como que se criou um dualismo pouco inteligente nesse assunto: ser defensor de cotas é necessariamente ser defensor do fim da meritocracia – assim se diz. Ora, mas não deve ser assim. A meritocracia como doutrina, não como ideologia, é o que se tem para preservar a qualidade do ensino superior. Não há como quebrar isso sem piorar a universidade. Por outro lado, a cota não é cota regrada por política educacional, como muitos pensam, aliás, erradamente. Cota é política de integração.

Cota não tem que ser cota social, apenas cota étnica, para funcionar como instrumento de integração e diminuição de preconceito. A cota social tem que ser substituída pela política de melhoria geral do ensino público básico. Agora, essa melhoria, se vier, não resolve o problema da frequência do negro nessa escola boa e pública de ensino básico, e que o colocaria na universidade. Já tivemos ensino público bom no passado e, no entanto, o negro ficou de fora dele. Se o ensino público básico melhora, isso não garante que o negro possa ficar na escola básica. Nesse sentido, a cota étnica continuará a ser necessária por mais tempo.

Direitos humanos. Muitos não entendem que não cabe “direitos humanos” para regrar relações entre indivíduos-cidadãos e indivíduos-bandidos, mas para regrar a ação do Estado no seu trabalho de enfrentar indivíduos que descumprem leis. Por uma razão simples: o estado tem o monopólio legítimo da violência e, sendo assim, ele precisa de regras duras para que não exerça a violência contra o indivíduo, seja este qual for, de maneira a se tornar um monstro e não uma instância civilizatória. Muitos que cometem infrações pequenas não percebem que poderiam ser agarrados por uma polícia violenta e despreparada, e que o que faz com que isso não aconteça a toda hora (mais do que já ocorre!) não é só a melhoria da polícia, mas a garantia de que grupos de Direitos Humanos estão policiando a polícia. Aliás, isso não é ruim para a polícia. Ela age melhor e ganha respeito da população com isso.

Liberdade de expressão. Generalizou-se a ideia de que devemos falar o que quisermos e devemos punir o outro, dado que ele falou o que não queremos. Ou seja, todos defendem não a liberdade de expressão, mas a liberdade de censurar o outro, pois o outro está sempre fazendo “discurso de ódio”. Com essa mentalidade, não vamos a lugar algum. Passamos a criminalizar manifestações de ideias, não mais quando elas pública e coletivamente incitam a violência, mas em qualquer lugar. Inicia-se a ideia de que se estou num bar, com três amigos, e falo algo que não falaria em público, em um palanque, devo ser punido como se eu estivesse num palanque. Isso é ridículo.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

Para pensar crianças, “palmada pedagógica”, estupro, direitos de minorias, pornografia, teorias políticas que regem a justiça etc. Veja: Filosofia política para educadores (Manole). Entre na sua livraria e baixe em forma de e-book agora.

Para mais artigos nesse sentido ver aqui: As tribos raivosas.

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4 Responses “Para parar de simplesmente chamar o outro de fascista”

  1. Cezar
    09/11/2015 at 09:01

    Paulo, achei bem interessante sua proposta de dialetizar alguns temas importantes. Gostaria de pontuar uma observação sobre algo que poderíamos talvez chamar de uma tentativa de síntese que você faz ao propor a adoção como saída possível no impasse do aborto em caso de estupro. Você subverte de forma inteligente a lógica de que a solução para a gravidez decorrente de estupro não seja necessariamente o aborto. Ou seja, propõe abrirmos mão de uma relação direta de uma coisa com a outra. Isso é necessário e concordo até aqui.
    Meu entrave com o raciocínio está na proposta que você faz. Considero esta ideia um tanto problemática, à medida que deixa de lado aspectos da experiência da gestação como processo necessário à concretização do seu projeto. Se a vivência do estupro já é suficientemente traumática, o que dizer das “vicissitudes” (pra pegar leve) da gravidez indesejada a que seria submetida a mulher (transformações corporais e mentais, expectativas sociais, trabalho, relacionamentos, etc.).
    Creio que a questão do direito sobre o próprio corpo implique uma decisão radical, sem meio termo, caso contrário, seria uma ficção: “você tem todo o direito de NÃO CRIAR um filho de estuprador, mas é obrigada a GESTÁ-LO e PARI-LO”.
    Faz sentido isso para você? Parece-me que o pleito do direito ao aborto não seja só um direito frente a uma violência ocorrida, mas também uma prevenção da extensão do dano, igualmente traumática, que seria a gestação.
    Dialogo com isso, claro, se entendi corretamente sua proposição.
    Abraços!

    • 09/11/2015 at 12:42

      Aborto é coisa de ser vista caso a caso, não de criminalização, sabemos disso. Agora, podemos pensar em ampliar nossos horizontes também, para conversar. é isso. Obrigado por ter lido.

  2. Jokas
    06/11/2015 at 12:07

    Ontem o Lula disse em entrevista ao Jornal do SBT que estamos muito ácidos politicamente, intolerantes.

  3. 06/11/2015 at 11:39

    excelente texto! não deve demorar para fariseus quererem apedrejar…

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