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18/11/2017

A família para além de Marilena Chauí e dos gritentos


Não sei se é verdade que a professora Marilena Chauí, em um colégio particular, disse por esses dias que “quem defende a família é uma besta”. O que sei é que deve ter falado dentro de certo contexto teórico, que talvez eu até possa dizer qual é sem mesmo ver a palestra dela. O que sei é que o alvoroço provocado em blogueiros de direita (e pais talvez não bem informados) parece ser o mesmo daquele quando ela falou que “odiava a classe média”. Latidos lá, grunhidos acolá. Independentemente de Chauí às vezes não saber que sua militância a atrapalha atualmente, penso que os jovens estudantes precisam sair disso, ou seja, da auto-ajuda com nome de filosofia, de um lado, e da briga política com apelido de filosofia, de outro.

A família como “estrutura autoritária” é um tema clássico na literatura sociológica. E também é um tema de época, que chegou a criar jargões e até clichés. Minha amiga e orientadora, Olgária Matos, fez o prefácio de um importante livro sobre textos clássicos a respeito da família, reunidos pelo professor Massimo Canevacci, publicado na Itália em 1976. O livro foi publicado aqui pela então toda poderosa Editora Brasiliense em 1981. Em 1987 já estava na quinta edição. O título: A dialética da família.  O subtítulo: “Gênese, estrutura e dinâmica de uma instituição repressiva”. Naquela época, livro bom tinha de ter duas palavras na capa: “dialética” e “repressão”.  Vale a pena ser lido, claro, mas não para ficar só nele. Não para ficar eternamente no clima dos Sixties.

Desde os Sixties não soubemos fazer outra coisa, na literatura que, naquela época, se orgulhava se dizer “de esquerda” (o que não significava dizer “marxista”), a não ser tomar a família como alguma coisa ligada à contenção da liberdade ou coisa do tipo. Mesmo quando os textos clássicos não diziam isso, líamos tudo pela ótica freudomarxista, e acabávamos por endossar, no frigir dos ovos, a visão de Reich, a mais popular entre todas. Esta dizia que precisávamos, para ser felizes, sair do capitalismo que nos oprimia ao nos fazer amar de modo errado. Para falar a verdade, foi em meados dos anos noventa e mais recentemente só agora, no início do novo século, que nossos melhores intelectuais começaram a criar uma filosofia social e uma sociologia menos marcada por essa vulgata reichiana.

Um autor contemporâneo como Richard Rorty, sem qualquer anti-freudismo, nunca falou da família com o jargão indicado. Um autor de passado diferente (aliás, ligado à Escola de Frankfurt em certo sentido), tem criado novas bases para teorizarmos a família. A antropologia e a ontologia de Sloterdijk advoga a ideia do homem como ‘o animal que tem mãe’, se é que posso usar uma expressão minha mesmo, como uma citação. Claro que Foucault já havia apontado para ideia de que deveríamos, para entender a modernidade e a própria civilização, sair de perto da chamada “hipótese repressiva”. Ao contrário do que dizem da esquerda americana militante, e também ao contrário de certos articulistas de jornal conservadores no Brasil (com ou sem diploma de filosofia), a respeito de Foucault, este nunca endossou qualquer ideia de que a civilização se faz por repressão que se transforma em sublimação, como na tese freudomarxista. Todavia, Sloterdijk faz mais até que Foucault: ele mostra que o homem nasce de um ambiente de riqueza, um lugar em que a proto-mãe pode cuidar dos aparentemente mais fracos, e que serão estes que irão se tornar os humanos, sendo ela própria, então, transformada de simples progenitora em mãe. O ambiente de mais paz, mais rico, mais afinado com a mãe é o produtor de homens e, depois, de homens civilizados e melhores. Essa nova visão reformula o papel da mulher e da família. A tese do núcleo familiar como coarctador cai por terra. Isso pode ser estendido para a formação da família moderna e burguesa, e remodelar a tese que leva ao ódio ao “patriarcalismo”. Pode muito bem fazer o discurso feminista sair do jargão. Pode colocar as ciências sociais num rumo com menos clichés. Acho que o volume I e o III do projeto da Esferas, de Sloterdijk, leva a essa renovação (o volume I está traduzido agora, e saiu pela editora Estação Liberdade)

Essas novas teorias continuam sendo simpáticas a um tipo de esquerda que já não deve nada ao comunismo. Seria ridículo ver Rorty e Sloterdijk como não sendo de esquerda. Mas esse mundo não é o mundo de Marilena Chauí. O mundo dela é o da filosofia dobrada à militância, e de modo cada vez mais endurecido, e isso quanto mais ela se ressente diante das derrotas do PT. Mas o pior é que os que gritam contra ela, nesse quesito, são bem piores. Eles nem sabem dessa história toda. Apenas acham que tudo isso vem de Marx, o qual não entendem. Pior: não sabendo que Marilena fala de conceitos, reduzem a fala dela como se ela estivesse falando de sua própria família ou dando conselho para estudantes brigarem com os pais. Não! Ela não está dizendo para ninguém fazer como aquele que tentou ser o ícone da direita, aquele cantor que fez bateu no pai, fazendo pai e mãe se matarem (sabem né?).

Volto a dizer, os jovens devem sair do jornalismo voltado para a gritaria. Tenho insistido nisso, como tenho insistido para que saiam não só da literatura de embate político mas também da literatura de auto-ajuda que quer se passar por literatura filosófica. Talk show, post de facebook, vídeo de midiagogo – isso tudo não é filosofia. Tenho indicado livros e leitura ampla, aberta. A família também é um assunto para ser tratado para além disso tudo.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 02/10/2016.

 

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6 Responses “A família para além de Marilena Chauí e dos gritentos”

  1. Augusto
    18/10/2016 at 18:59

    O senhor Paulo Ghiraldelli , pode até tentar nos confundir com seu “dialeto filosófico”, mas o que a esquerda quer mesmo é aniquilar a família tradicional. Por diabos, temos pai, mãe, irmãos, não somos filhos de chocadeira. Pela família nos entregamos e isso não nos torna monstros egoístas que nos afasta de outros membros, que não pertençam ao nosso clã. Com o aniquilamento da família a esquerda acha que o esforço que fazemos por ela, será, então, direcionado a coletividade. Não se conseguirá a formação do coletivismo anulando a identidade do cidadão. A família é o núcleo natural e fundamental da sociedade.

    • 19/10/2016 at 00:31

      Augusto eu adoro a minha família. E quero que todos possam ter família. Acho que você é poço de preconceito.

  2. 05/10/2016 at 10:01

    Humans are sex-driven…deixe um pouco de lado a reprodução de citações e autores…vamos filosofar um pouco: o que o filósofo Paulo tem a dizer acerca de poder e liberdade no âmbito da família…o que, por exemplo, tem a dizer acerca da questão do incesto…

    • 05/10/2016 at 10:04

      RDC já disse, aqui e em livros. Procure. Agora, esqueça essa bobagem de não se basear nos filósofos para filosofar. Não faz sentido.

  3. João Bosco Renna Júnior
    02/10/2016 at 23:47

    Difícil isso pra muitas pessoas, pois o esquerdista, geralmente o marxista/comunista mesmo, pensa que tudo que não seja de esquerda marxista, é a favor do projeto de poder burguês, esse militante, lendo esse artigo, vai dizer que você é de direita, pois quem não combate a direita num debate de guerra, é de direita, para não ter a maldição da alcunha de direitista, tem que ser de esquerda, de preferência marxista/comunista, não marxista/reformista…seu texto é uma heresia pra 99% das pessoas, de esquerda ou de direita, o que me dá a convicção que estou realmente lendo o texto de um filósofo, e não de um palhaço de circo da midia, ou desses animaizinhos de estimação da TV. kkk

    • João Bosco Renna Júnior
      02/10/2016 at 23:49

      Ou melhor, para não ser de direta, tem que ser esquerdista/marxista militante.

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