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18/11/2017

Eu não preciso agradar, entendeu?


O político vive de voto, precisar agradar. O escritor de auto-ajuda e palestrante vive de falar o que a sua claque quer ouvir, mais que agradar e acredita que tem de puxar o saco de seu grupo. Afinal, e se eles não voltarem? Diferentemente, nós filósofos somos livres, temos o privilégio de desagradar. Mas desagradar grupos que já são contrários a você por natureza, isso os outros dois, o político e o palestrante midiagogo, já fazem. Todo mundo tem lá alguém para desagradar. Então, onde está a peculiaridade do desagrado filosófico? O filósofo é irritante porque ele desagrada justamente aquele que imagina poder segui-lo.

Esse foi o caminho traçado por quase todos os filósofos autênticos. Em especial aqueles que tiveram a coragem – e por isso foram realmente filósofos – de pular de tese em tese, refazendo sua própria trajetória, e traindo seus leitores que gostariam de ver nele um guru. Por isso os grandes filósofos criam outros filósofos que são scholars, especialistas, que buscam fornecer mais e mais leituras deles. Cada livro de Foucault é uma traição com ele próprio. Cada período de Nietzsche é uma barbárie contra o que já tinha feito. Wittgenstein com duas fases dividiu a própria filosofia. Rorty ao abandonar a filosofia analítica passando para o pragmatismo criou uma legião de inimigos. Filósofos assim põe a arte do desagrado acima de tudo. Por isso mesmo são filósofos no essencial da palavra – amigo do saber, não amigos dos que querem aplaudir.

Claro que o aprendizado maior a respeito da arte de desagradar veio de Sócrates. Ele também teve fases. Em um primeiro momento, do qual não temos registro, ele filosofou sem missão. Após a mensagem recebida pelo Oráculo de Delfos, ele filosofou segundo o elenkhos, o método da refutação (olha o nome!), e sua peripécias foram narradas de modo relativamente ficcional por Platão, em seus primeiros diálogos. São os chamados “diálogos aporéticos”. Terminam numa aporia, num impasse, pedem um recomeço. Muitos se sentiram ofendidos por Sócrates além de mostrar que eles não sabiam quem eram ainda por cima não lhes dava a resposta à pergunta que formulava. Essas pessoas tiveram um papel fundamental na condenação de Sócrates. Mas qual filósofo não foi condenado? Não existe. Os que agradam e ficam de voto em voto e de aplauso em aplauso, sabemos bem, não são filósofos. A arte de desagradar o possível seguidor é que faz o filósofo ser filósofo. Pois ele faz isso por conta de seu daimon. Seu gênio empurra para um lado, suas pesquisas vinham empurrando para outro lado, justamente o lado que estava cativando alguns. Estes, então, devem ser os primeiros a serem contrariados. São desagradados, viram degradados. Alguns suportam isso, tornam-se bons leitores, às vezes scholars,  e se bons scholars, podem também se tornar, eles próprios, filósofos.

Sempre filosofei como sendo “do contra”. Tenho um prazer, confesso, angustiante: acabo por gostar de espancar meu leitor. Nisso, a peneira faz o serviço. Ficam só os inteligentes, os que gostam da caminho tortuoso. O que querem verdades de políticos e lambidas da auto-ajuda em suas nádegas, se afastam. Os que sabem tudo pelo autodidatismo também vão embora. Mas, enfim, quem os iria querer? Não há coisa pior para um autor que ele criar junto de si uma comunidade de estúpidos. O político e o midiagogo fazem isso, e logo então vem o feedback, e aí o próprio político e o próprio midiagogo começam a fazer a coisa mais burra para aumentar mais sua legião. Eis que alguns acordam, um dia, e dizem: uma vida gasta junto de burros e eu também virei um burro.

A sina do autor-filósofo é terrível. No mundo como o de hoje, em que uma batata frita para existir precisa ser fotografada e divulgada nas mídias sociais e, ao se por assim, deve estar igual àquela da TV, é um mundo da banalização, da repetição, do “ai como sou gostosa porque estou nua na mesa”. Entre ficar filósofo e virar uma batata frita o passo é curto. Conheço amigos mal formados cujo destino era ser batata frita na imitação da batata do McDonalds. Eu sabia que ia dar nisso. No entanto, conheço outros que não tinham esse destino, mas tanto agradaram que caíram nisso. E não conseguem mais sair. Cuidado estudante, cuidado.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 30/09/2016

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14 Responses “Eu não preciso agradar, entendeu?”

  1. mayk lemes
    05/10/2016 at 15:25

    professor, não vejo isso no blog do sr. Essa reinvenção-traição constante, pelo contrário, sempre vejo as mesmas críticas aos “midiagogos”, feitas de diferentes modos claro, mas repetidamente. Essa semana em SP, Pondé, Cortella e Karnal fizeram uma palestra pra mais de 5000 pessoas sob chuva… Foucault também fazia isso na França, lotando os lugares em que ia… A filosofia voltou a ágora professor? pois essa é a minha impressão…

    • 05/10/2016 at 16:04

      Se você acha que o que eles fazem é filosofia, tudo bem. Mas não é. Comparar com Foucault é uma afronta. Quanto a mim, você não lê meu blog, nem meus livros, não é meu leitor, fala por falar. Agora, o pior de tudo é sua ingenuidade de achar que midiagogo age em favor do conhecimento e não da mídia, que paga e tem gente exatamente por conta de não contrariar o senso comum. Hoje à noite tem palestra verdadeira de filosofia: Sloterdijk no Tomie Otake.
      PS: quando escrevo assim aí você não lê, não é verdade: http://ghiraldelli.pro.br/filosofia/objetividade-de-valores-para-donald-davidson.html
      Olha, aí, no assunto técnico, que os midiagogos não conseguem abordar e você não consegue entender, aí não vale, né? Sei!

    • mayk lemes
      05/10/2016 at 16:55

      paper interessante… parabéns professor

    • 05/10/2016 at 16:58

      Mayk isso não é um paper!

    • LMC
      06/10/2016 at 12:06

      Ih,Mayk,a melhor definição
      sobre o Trump veio do Karnal.
      Ele disse que Trump é um
      cruzamento de Mussolini
      e Collor.Só estou fazendo
      um registro aqui.

  2. LMC
    03/10/2016 at 11:58

    Será que a Fran é dona destas pernas
    maravilhosas na foto acima?Acho
    que sim!

  3. angélica della monica
    02/10/2016 at 02:09

    A verdade dói e por isso muitos não querem ouvi-la. Adorei, mesmo sem ser filósofa, mas gosto de filosofia. Ela desperta nossa inteligência. Faz-nos pensar e repensar sobre as coisas que pensamos ter certeza.

    • 02/10/2016 at 06:52

      Angélica, então, venha ver meus livros, vamos conversando

  4. Otávio
    30/09/2016 at 23:33

    Vocês também não passam de bajuladores da Ghiralda, que nem filósofo é. Todo filósofo sabe grego, latim e alemão, a Ghiralda não (…) [SEGUE UMA SÉRIE DE AGRESSÕES contra Chauí e outros] …

    • 01/10/2016 at 13:22

      Otávio, vi que está raivoso. Sobre o meu grego e meu latim, dá sim para o gasto, sou da velha guarda meu caro. Você está confundindo a atividade do filósofo. Nós filósofos não estamos preocupados em ser isso ou aquilo, no meu caso, sou um professor que tenta abordar alguns assuntos da filosofia e da cultura, e oferecer meu levantamento às pessoas, para elas fazerem os seus. Se acertamos ou erramos, fica pelos nossos críticos. Quando os críticos apontam problemas objetivos, circunscritos aos meus textos, eu adoro responder. Beijos.

    • Orquidéia
      02/10/2016 at 05:14

      Otávio, a Chauí é só uma coitada que fugiu de algum manicômio…

  5. Maximiliano Paim
    30/09/2016 at 17:30

    Não gosto de aglomeração como reuniões festivas de família exatamente para não criar obrigação de agradar. Mas na verdade, o que aparece é a minha obrigação de desagradar pelo espanto e pela franqueza.

  6. LMC
    30/09/2016 at 11:18

    PG,quem é a dona destas pernas
    bonitas que aparece na foto?
    Você sabe?

  7. Felipe Souza
    30/09/2016 at 11:03

    Curioso ler isto. A um tempo a trás havia deixado de lê-lo e disse a minha namorada, ela que me apresentou seus textos, que o professor era espinhoso.

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