Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

27/03/2017

Ética e dança sensual para crianças


“Ah, isso não é ético” – eis aí uma expressão corrente. Uma expressão que sai da boca de todo mundo, mais de uma vez por dia.  Vários dos que pronunciam isso poderiam muito bem dizer apenas “Ah, isso não é correto”. Mas, como a palavra “correto” é claramente valorativa e, enfim, acredita-se que termos valorativos não indicam um espírito refinado (o de alguém que não percebeu, ainda, que “tudo é relativo”), então apela-se para a palavra “ética”.

“Ética” aparece, assim, como uma forma de resgatar algo não relativo e, dessa maneira, quem a pronuncia imagina que não vai “cair no relativismo” – algo muito perigoso, segundo muitos. Ética remete a algo que paralisa o interlocutor, pois dá a impressão que se está evocando princípios, para escapar do relativismo, e ao mesmo tempo se está falando de modo sofisticado, usando um termo culto, talvez filosófico, e assim é possível não soar como uma freira velha, cheia de dogmas.

Desse modo, a palavra ética, intencionalmente ou não, é muito usada apenas para um jogo retórico. Não raro, aquele que a utiliza é tão vítima de tal retórica quanto aquele para quem o discurso está sendo dirigido, ou talvez até mais. Duas ou três perguntas e descobre-se que depois da palavra ética, nada vem de novidade, a não ser um velho paradoxo. O que se quer é afirmar ao mesmo tempo duas coisas que, a rigor, não podem conviver: de um lado, princípios que não podem ser desfeitos, de outro, posições condescendentes com as características de um determinado caso ou comportamento pessoal. De um lado, a ideia de que “princípios são princípios” – e isto é ser ético. De outro lado, a ideia de que quem não respeita pontos de vista alheios, está longe de ser democrático. As pessoas, elas dizem, querem ser éticas e democráticas. Como resolver isso?

Grosso modo ética vem do grego ethos, que quer dizer costumes e hábitos de um grupo, de um povo. Também de ethos vem etnia. Quando falamos em grupos étnicos estamos dizendo: aqueles que se comportam, em relação a uma série de coisas, de modo não só semelhante, mas peculiar. Moral vem do latim mores, e também diz respeito a costumes e hábitos, mas, diferente de ética, aponta muito mais para a vida individual, para os comportamentos não públicos ou semi-públicos, os comportamentos da vida privada e, não raro, íntima. A legislação sob a qual um grupo social resolve viver – o seu conjunto de leis – emana do campo ético e do campo moral. Precisa estar em harmonia com o campo ético e com o campo moral. Quando não, tende a não funcionar.

Um exemplo. Em 2009 caiu na imprensa o caso de uma professora demitida depois que o filme que a apresentava dançando o “Todo Enfiado” veio para o Youtube. Ela desrespeitou alguma linha ética? Nenhuma. Ao contrário, todo o desrespeito veio das outras partes: das pessoas que a pressionaram no bairro, provocando sua mudança, e da escola que não poderia tê-la despedido, ou sequer ter influenciado na sua decisão. Aliás, no caso da escola, o eticamente saudável e o pedagogicamente correto seria a direção ter-lhe pedido para ficar. Sobre que bases eu afirmo isso? Ora, digo isso pautado exatamente na noção filosófica de ética.

A moça tinha menos de trinta anos. Portanto, ela nasceu cresceu sob os costumes de um Brasil que não vê qualquer espanto em danças afro-brasileiras, sejam elas tradicionais ou inovadoras. Todas as nossas danças de programas de auditório, que passam na TV, não só servem como elementos das babás eletrônicas como também de prática nas festas de crianças e jovens, inclusive nas escolas. Nos últimos trinta anos vimos a Lambada, o Tcham, a Dança da Bundinha, o Bunda Le-Le e tantos outros ritmos serem colocados para as crianças. Essas crianças, hoje, são adultas. O que se queria que elas dançassem? Um tango? Não, elas não podem jogar a cabeça para trás e mostrar as coxas, no sensualíssimo tango, por uma razão óbvia: elas cresceram no Brasil dos anos noventa, não na Argentina. E no Brasil dos anos noventa criamos os nossos ritmos segundo as possibilidades de comportamentos corporais afeitos ao nosso povo, ou seja, condizentes com o ethos do nosso povo – a maioria do nosso povo. Ao dançar como dançou, a professora se comportou segundo o nosso ethos, portanto, eticamente.

Ainda que alguns não queiram concordar comigo, alguns dos críticos talvez sejam capazes de aceitar essa minha explicação. Mas voltam à carga com outro argumento: as crianças. Dizem mais ou menos isso: a professora deveria ter sido prudente, pois a dança implicou em movimentos de pouco pudor, que não deveriam ser praticados, pois seus alunos poderiam ver.

O argumento que tenho contra tal objeção é repetir um pouco o que já disse: a dança exibida não foge de outras que estão em acordo com o nosso padrão de movimento corporal, nossos costumes, nosso ethos. E isso, mesmo no caso da situação criada pelo vocalista (como foi registrado), que puxou a calcinha da moça. Todavia, eu posso dizer mais. Saio do campo da filosofia da ética para ir, então, para a filosofia da educação, ou mesmo para a pedagogia.

Vamos para um fenômeno aparentemente estranho: quem ainda não percebeu que as crianças adoram danças que fazem movimentos que nós, adultos, achamos sensuais e até mesmo obscenos? Quem ainda não percebeu que mulheres sensuais, às vezes completamente nuas, com seios avantajados ou outras partes do corpo em destaque, viram ídolos fáceis das crianças? Qual a razão disso? Simples: o que funciona para nós adultos, como o jogo amadurecido (que nada é senão o sexo ou o namoro) funciona ainda como simples jogo para a criança. Nós, mamíferos, na infância, brincamos de luta, de morder, de pega-pega, de “montinho” (as crianças adoram se jogar umas sob outras, formando montes, com ou em almofadas). Trata-se da vida lúdica. Essa ludicidade carrega uma protogesticulação – e até mesmo uma preparação – para a vida sexual, para o namoro (em alguns mamíferos, também para a caça). Lutas e esmagamentos na infância são formas de experimentar o contato físico, e se preparar para o contato adulto. O jogo adulto escapa da caricatura. Mas a dança não, ela lembra bem os nossos gestos, caricaturizados, e por isso mesmo acentua sua relação com a fase infantil, onde a caricatura, o exagerado, se faz necessário – para que a imitação possa ser mais fiel. Ora, a imitação é elemento fundamental de aprendizado. O mesmo se diz da própria forma do corpo. Xuxa, Angélica, Carla Peres, Boing-Boing e Sabrina Sato foram adoradas pelas crianças, do mesmo modo que, num passado remoto, as crianças imitaram Gretchen. Não iria dizer que os programas de TV dessas moças foram educativos. Mas não podemos confundir os programas, produzidos por canais comerciais, com as próprias figuras. Elas, enquanto moças, foram sucesso entre as crianças por causa de que corporalmente tinham a ver com a exigência do lúdico pré-sensual e pré-sexual de todos nós.

Assim, também o que a filosofia da educação, a partir da psicologia e da pedagogia, pode dizer, não destoa do que a filosofia moral e ética já disseram. A escola só teria a ganhar se aproveitasse a professora. Ela deveria se tornar uma modelo de comportamento, incentivando todas as crianças a dançar como ela dançou. Não seria nada difícil chegar à escola, com os alunos, e dizer: “a professora dança legal, não dança? Pois vocês vão ter aula de dança com ela, agora”. Alguns poucos alunos que viram que o vocalista puxou a calcinha dela, iriam rir. Um riso de criança. Alguns iriam falar: “nossa, tia, o homem lá mostrou sua bunda”. E a professora diria: “pois é, meu queridos, aquilo é uma coisa mais entre adultos, aqui na escola, não cabe mostrarmos a bunda para ninguém, então, na nossa dança, pode-se pegar pela cinta da calça, mas não se pode arrancar a roupa de ninguém”. Ora, não seria difícil, com crianças de cinco anos, obter um resultado de aprendizado fantástico. Nada melhor que a dança para criar o respeito e o amor entre futuros adultos de sexo diferente. Que se aprenda uma coisa: homens que desrespeitam mulheres, uma vez adultos, não dançaram, não tiveram contato com as meninas na escola. Na maioria das vezes, foram pessoas rejeitadas, que não puderam tocar os outros, sentir a pele de coleguinhas, meninos e meninas.

Alguns podem duvidar que seria possível fazer isso, como aponto acima. Talvez, sendo o diretor uma pessoa pedagogicamente despreparada, certamente. Todavia, um diretor competente, não só faria como tiraria muito proveito para sua escola a partir daquilo que, inicialmente, parecia ser um problema.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

Tags: , , , , , , , ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo