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18/08/2019

Estupro é para quem sabe


Os brasileiros são agora julgados antes por machismo que por ignorância. Assim, um termo como “machismo”, ao invés de explicar alguma coisa, nada faz senão nublar nossa visão sociológica.

É isso que noto do falatório em torno da recente pesquisa do IPEA, que diz que o brasileiro respondeu que a mulher de pouca roupa merece ser estuprada. As pessoas leram o resultado da pesquisa, ela mesma já um tanto complicada em suas perguntas, e concluíram pelo que não ajuda em nada, não muda nada e não ensina nada.

A maioria dos brasileiros não tem a menor noção do que se está falando quando se pronuncia a palavra “estupro”. Portanto, quando se pergunta alguma coisa a respeito do que nada se sabe, é uma bobagem esperar algum ensinamento da resposta a não ser que nada se sabe. Não se deve tirar daí outra coisa senão isso. Tirar daí “machismo” é uma bobagem.

Em geral, as pessoas acham que o estupro acontece mais ou menos assim: “uma mulher gostosa aparece sensual no metrô e, então, é perseguida na rua escura por um desconhecido, sedento por sexo, e que está crente que a moça está querendo ele, e então a estupra, ou seja, faz sexo com ela um pouco forçado, mas aceito”. Essa visão não vem da TV ou de revistas ou de meios de comunicação. Essa visão vem de nós mesmos, de estágios psicológicos nossos. E ela não bate nem um pouco com o estupro real. Explico ambos.

Vamos para o estupro.

O estupro é sexo sem consenso, na fórmula da lei. Mas como ocorre? O estupro não é feito, na sua maioria, por um desconhecido da vítima. Só 7% das vítimas são atacadas por desconhecidos. Os acusados de estupros (sexo não consensual) são maridos, namorados, ex-namorados, tios, pais, irmãos, amigos e outros membros da família ou de círculos bem próximos. Não são pessoas atraídas pela pouca roupa da moça. Não são pessoas atraídas pela curiosidade com o sexo de uma moça que nunca viram nua. Nada disso. O estupro é uma relação de poder. Não se trata da satisfação de um desejo sexual, mas de um desejo de mostrar para um membro do círculo de domínio que ele deveria ficar “no seu lugar”. Uma população informada disso, capaz de reconhecer isso e, principalmente, admitir isso, talvez pudesse desligar a palavra “estupro” da palavra “sexo” e da expressão “corpo com pouca roupa”. Mas os próprios pesquisadores acreditam que estupro é algo que tem a ver prioritariamente com sexo, com desejo sexual, e não com simples violência e poder. Fazem os questionários errados. Perguntam errado. Obtém respostas tortas. E concluem coisas erradas de tudo que é errado.

Vamos para a questão do estágio psicológico que forma a imagem do estupro.

Antes da adolescência, quando desconhecemos o sexo, a maioria de nós, meninos (e as meninas de modo análogo), tem inúmeras fantasias a respeito do que é “fazer sexo”. Em geral queremos nos apropriar do corpo do outro, poder explorá-lo, dando continuidade à exploração que, em certo sentido, já foi iniciada na fase pré-escolar, com o famoso “brincar de médico”, o “troca-troca” etc. Todavia, nessa fase, a exploração vem junto com o desejo, o tesão mesmo. As fantasias, então, são inúmeras. Mas todas elas implicam em poder dispor do corpo do outro para investigar e ter prazer, para ter prazer e investigar, e isso sem ter de pedir e sem ser repreendido por quem quer que seja. Nem o objeto da investigação nem um adulto qualquer deve descobrir o que se está fazendo. Os meninos sonham investigar a menina dormindo profundamente ou inerte por conta de bebida. A menina sonha em correr pelo bosque e ser possuída por um desconhecido ou mais ou mais ou menos desconhecido – um homem mais velho ou mesmo um animal. Nos dois casos o importante é que o objeto sexual se comporte como perfeito objeto. Passada essa fase, tudo isso é sublimado e vira fantasia – nunca realizada. Fantasias de pessoas maduras não se realizam, são imaginações de provação e assim permanecem para toda a vida. Todavia, os que não entram na adolescência propriamente dita, os que por algum motivo não passam pelas experiências sexuais que podem se iniciar na adolescência ou pouco depois, em situações corriqueiras e normais, podem se fixar nessa fase anterior.

Desenvolve-se assim uma série de comportamentos que, por influência dos americanos,

Boneca Japonesa

Boneca Japonesa

adoramos chamar de “perversões”. A pedofilia, o estupro, a necrofilia, a zoofilia etc., estão entre situações assim, em que o ato sexual quer se realizar com objetos sexuais que não possam responder ou contar para adultos o que ocorreu. Em nenhuma dessas situações, ao menos num primeiro momento, essas pessoas que querem assim agir são violentas. Essas pessoas fazem parte dos 7% de estupradores desconhecidos das vítimas.

Os que querem violência muito mais que pesquisa e sexo, são os estupradores efetivos, a grande maioria. São os que conhecem a vítima e são por elas bem conhecidos, e a querem não como objeto sexual, mas como escrava, empregada, objeto de posse para serviço e para obedecer ao poder. Essas pessoas, as mais próximas da vítima, estas sim pensam no estupro como violência e desde o início tem a intenção de realiza-lo, se for preciso, para dobrar a vontade da mulher. Não descartam ter de mata-la.

Em suma: o estuprador de filme, o serial killer ou o “maníaco do parque” podem ser mais inofensivos que os milhares de maridos, pais, namorados e ex-namorados. Além disso, são poucos. Pertencem aos que não ultrapassaram a fase de pré-adolescência.

“Machismo” explica tudo isso que expliquei? Não! Nunca! Jamais! “Machismo” é aquela palavra usada pela feminista inculta para que eu não possa explicar o que expliquei e para que outros não possam investigar mais do que fiz. “Machista” é apenas um cala-boca, é apenas revoltinha da feminista inculta que, enfim, fica contente por ter uma palavra que não a faz pensar e já a joga na rua para mais um protesto idiota, pois, afinal, nem todo protesto de rua é válido.

© 2014 Paulo Ghiraldelli, filósofo

Post Scriptum. Um assunto não discutido acima é sobre a semântica da pesquisa. Uma breve nota sobre isso se faz necessária. A pergunta da pesquisa busca uma resposta simples, simples demais, até simplória. Veja, se digo que “Uma mulher com pouca roupa merece ser estuprada” eu devo ter inteligência suficiente para perceber que nossa população, escolarizada como está, dificilmente distingue a palavra “merece” da relação causa-efeito. Para muitos, “merece” é como que dizer “se uma mulher provoca alguém por sair quase sem roupa, ela vai ser abusada, claro”. Esse é o dado, e troquei a palavra “estupro”, ao final, por “abusada”, também para lembrar que junto com esse problema da palavra “merece” há o problema com a palavra “estupro”. Quando “estupro” aparece junto com cenas de violência, ele vira estupro, quando “estupro” aparece junto com “pouca roupa”, ele ganha a conotação de sexo-safadinho ou no máximo sexo um pouco pesado. Essas coligações precisam ser levadas em conta pelo pesquisador e por quem lê a pesquisa. Do modo como a pesquisa foi feita ela produz resultados simplórios e induzidos demais. Na ânsia de objetividade, esse tipo de pesquisa é a que mais não nos dá  nenhuma objetividade. Para se saber o que se pensa sobre um assunto desse tipo, com uma população como a nossa, esses questionários não nos revelam nada, a não ser a ignorância do pesquisador.

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21 Responses “Estupro é para quem sabe”

  1. Mhayra
    08/04/2014 at 21:08

    Paulo, na sua opinião, aquelas pessoas que desejam a outra apenas como um objeto sexual para que não possa responder, nem reagir, devem receber o mesmo tipo de punição daquelas que querem violência, mais do que sexo, os tais “estupradores efetivos”?

    • 08/04/2014 at 22:02

      Essa é uma fantasia que pode ser cristalizada e ganhar aspectos violentos.

  2. Valdério
    31/03/2014 at 15:57

    Paulo,

    Não questiono a lambança que fazem com a interpretação sobre a motivação do estupro. Porém, tenho dúvidas de que a pesquisa seja totalmente inválida, mesmo sabendo da dificuldade de nossa população em interpretar sentenças.
    Em países islâmicos, não é incomum que se culpe a vítima em caso de estupro (sei que você sabe disso). Será que não há também pessoas que, ao responderem que a mulher de roupa curta merece ser estuprada, refletem uma repreensão moral pela independência desta mulher que se “atreve” a deixar a submissão ao vestir roupas curtas?
    Em tempo, considerando o estupro como você definiu acima.

    Pensei em outra coisa que você transmitiu de leve neste e outros textos do tema. Será que a carolice de nossa sociedade ajuda a nublar o entendimento da pergunta? Como uma pessoa que não se realizou sexualmente fará as distinções sobre estupro que você fez acima?

    Pode bater sem dó! Sem sexo, por favor.
    Abraço

    • 31/03/2014 at 17:19

      Valdério, será que alguém disse que a pesquisa é inválida no todo? Quem disse isso? Agora, se essa pesquisa continuar a ser divulgada como está sendo feito, não creio que vai ser inválida, vai ser nociva.

    • Valdério
      31/03/2014 at 18:25

      Desculpe,
      Reli quando você respondeu um comentário sobre a falta de entendimento dos nossos leitores. Era outro contexto. Mas acho que a carolice de nossa sociedade ajuda na forma nociva como os resultados são divulgados. Se continuarem a divulgar do jeito que estão fazendo, as cantadas vão sumir e só vamos poder xavecar alguém com requisição carimbada em três vias!

      Precisa bater mais não…
      Abraço!

  3. Patricia Borges
    31/03/2014 at 13:52

    O estuprador para além de machista é um criminoso doentio. Pena de morte já!

    • 31/03/2014 at 14:11

      Patrícia, esse tipo de manifestação não cabe aqui, é manifestação tosca. Tente mudar, tente se tornar uma pessoa com cérebro.

  4. Guilherme Gouvêa
    29/03/2014 at 18:05

    Dada a repulsa a este tipo de crime e seus autores, especialmente entre os homens, também tenho essa opinião de que a maior questão que pesa é se os entrevistados entenderam a leitura da pergunta. Desconfio que boa parte dos entrevistados não saberia distinguir se o “merece” está no sentido de fomentar ou no sentido de justificar o crime.

  5. Andre da Paz
    29/03/2014 at 17:14

    Ótimo texto! Foi uma das coisas que pensei quando fiquei sabendo dessa pesquisa. Não o desejo sexual como um fim, mas a demonstração de poder, subjugar a vítima, submetê-la às vontades de quem comete o ato. Falar de pouca roupa não faz muito sentido nesse cenário, exatamente por isso que a pesquisa em si é mais estranha do que o resultado.

    Seria uma maravilha se satisfazer os desejos fosse realmente a finalidade de quem estupra, pois assim praticamente resolveríamos a questão do estupro.

    O grande problema é que as pessoas transformam questões como o estupro em tabu. Não se pode falar a respeito, então perpetuam-se essas visões distorcidas.

  6. Afonso
    29/03/2014 at 12:37

    Muito bom texto, acompanhei alguns noticiários na TV, e os comentários e indignação acabam resvalando na questão do ‘machismo’, não foi além disso. Também me pareceu confusa a formulação das questões.

  7. Frederico Bortolato
    29/03/2014 at 12:20

    Olá Paulo. Como vai? Você faz uma leitura incomum e interessante da pesquisa. Porém, gostaria de levantar mais algumas questões. Considerando o desconhecimento das pessoas em geral sobre o assunto estupro, podemos dizer que as respostas formam-se então a partir de um certo senso comum. O fato desse senso comum direcionar a uma ideia, mesmo que não tenha lastro na realidade (os 7% citados), de que se a mulher sai com pouca roupa é porque que ser necessariamente abusada por um desconhecido, não mostra que somos sim permeados por uma cultura machista? Não vejo nas opiniões das pessoas esse direcionamento simbólico e quase sempre inconsciente quando se trata, por exemplo, de um homem sair sem camisa na rua. Certamente a relação de abuso é antes de mais nada um relação de poder, mas não seria justamente o fato de estarmos imersos em uma cultura machista e patriarcal que as fantasias constituintes dessas relações de poder emergem? Nesse sentido, não faço essa distinção clara entre que você faz entre o desejo sexual e a relação de poder. A relação de poder e a violência para sua concretização fazem parte da busca para a satisfação desse desejo. Na sua própria explicação, quando faz a distinção entre a fantasia infantil masculina como o explorador da menina inconsciente e da fantasia da menina como sendo possuída por um homem absolutamente consciente e participante do ato, não é possível capturar um pouco essa verticalidade de gênero nos discursos sociais? Forte abraço!

    • 29/03/2014 at 13:12

      Frederico: senso comum é opinião, não necessariamente burrice ou desentendimento. No nosso caso, onde o PISA mostra que os nossos estudantes não entendem as questões que leem, não há senso comum, há erro somente. Só a partir daí a pesquisa já fica inválida. Fora o resto que levantei.

  8. Rafaela
    29/03/2014 at 09:41

    Com todo respeito ao texto, o senhor precisa aprofundar os seus estudos sobre as noções de machismo e feminismo, além dar uma pesquisada no que é estupro, em lei. Seus conceitos estão limitados. Aconselho leituras da Simone de Beauvoir e Judith Butler, entre outras. Os conceitos de heteronormatividade e performatividade hoje são fundamentais para discutir essas questões. Além disso, leia a pesquisa toda e todos os dados. Eles não dizem respeito apenas à mulher, mas homens e homossexuais. Os critérios de pesquisa sempre devem ser avaliados, com certeza, mas como bom filósofo ou sociólogo é necessário não se furtar ao debate aprofundado de conceitos como esses, não simplificando-os como forma de dizer que está complexificando outros, mas se ater à questão de fato e com toda a profundidade que ela merece e carece ainda hoje.

    • 29/03/2014 at 11:19

      Rafaela, certamente eu preciso me aprofundar. Agora, as moças aí, eu li faz tempo, e minha conversa é outra. Ao invés de dar lições ao filósofo, tente ler de novo e aprender. A despeito do feminismo, você pode melhorar. Conheço feministas inteligentes.

  9. Romualdo
    29/03/2014 at 09:11

    Professor, ótimo texto, parabéns. Essa questão do poder que envolve o estupro dificilmente é levantada, só vi em alguns artigos que falam sobre psicologia. Os outros pontos abordados também tocam em pontos cruciais deste debate, como as fantasias e a feminista inculta.

    Há um filme que contém uma cena de estupro de 10 min, chamado “Irreversível”, não sei se o sr. já viu. É uma coisa horrorosa e não tem nada a ver com o que povo pensa, mesmo.

    Vi a pesquisa e também acho que as perguntas são tolas, cujas respostas são fáceis de ser enviesadas. Ainda bem que temos um ótimo filósofo para aprofundar esta discussão.

    Um abraço!

    • 29/03/2014 at 09:14

      Obrigado Romualdo! Como você vê, não é tão difícil ter uma narrativa alternativa do comum, não é?

  10. Malufão
    29/03/2014 at 09:08

    “Estupra, mas não mata.”

  11. Roberto William
    29/03/2014 at 02:54

    Paulo, você poderia esclarecer melhor o por quê de nós não termos que realizar uma determinada fantasia? A realização causa desilusão, desanimo ou coisa do tipo?

    • 29/03/2014 at 09:15

      William, se é fantasia, é fantasia. É do verbo fantasiar! O cara que quer “realizar” a fantasia é justamente o “pervertido”, independentemente de se vai ou não machucar alguém, embora sempre machuque. Afinal, não se vai a uma casa de swing impunemente.

  12. 28/03/2014 at 18:50

    É interessante que basta falar a palavra “estupro” para que vários grupos comecem a se manifestar contra o “estuprador”, mesmo quando não há estuprador algum na história. O medo que boa parte da população sente do estupro é curioso e procuro entendê-lo nos seus últimos textos e livros.

    Concordo plenamente com esse texto, sobre os brasileiros não terem uma ideia clara do que é o estupro. Mas, será que nossa sociedade, além de não conhecer essas estatísticas, também não está repleta de pessoas que ainda não conseguiram superar a fase das fantasias sexuais e por isso, acreditam que correm o risco de serem atacadas por alguém que também não superou essas fantasias (o estuprador)?

    Abraços.

    • 28/03/2014 at 19:36

      Giovane, ninguém tem medo do que está longe!

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