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18/11/2017

Estamos vendendo carteirinha! Ou: o que é alienação


A garota Bruna passou na medicina da USP de Ribeirão Preto. Colocaram nas redes sociais a manchete: “negra e pobre passa na Fuvest em primeiro lugar”. Ela própria, pela entrevista que deu, parece estar orgulhosa disso, nos termos da manchete. Tratou de desfiar um rosário sobre a sua condição social a partir de jargões do movimento negro. Olhando pela filosofia, dá o que pensar.

Bruna só tem 17 anos. Nessa idade, todos procuram mesmo uma identidade social que possa expressar de fato uma identidade, uma pessoa. Se o discurso pronto que ela apanhou para ser o seu é o do movimento negro, é algo de agora, do momento. O curso de medicina talvez abra a sua cabeça e lhe dê chances de ver essa identidade apenas como identidade ad hoc. Ou seja, ela poderá com o tempo se desalienar. No momento, sua busca de desalienação apenas a alienou mais. Ela se distancia de si mesma como a pessoa que estudou, que se esforçou, que teve professores e mãe, para ser aquilo que um dos discursos que estão no mercado oferece a jovens.

Podemos felicitá-la e dizer: bem, Bruna, antes esse discurso aí, mais positivo, que outros que são nojentos. Seria uma tristeza ela pegar o outro discurso de negro, aquele que quer se destacar pelo negativo, pela mágoa explícita, que é o do vereador jovem Fernando Holliday, o negro gay que não sabe, ou finge não saber, que comprou o discurso da “cota do DEM”. Os conservadores também têm cota, afinal, seus antepassados não tiveram só escravos, mas também capitães do mato – que eram negros. Mas, sejamos sinceros, no limite, alienação é alienação. Bruna pode ter escolhido um discurso menos agressivo para ela mesma, mas ainda assim, no caso da concordância com a manchete que escolheram para ela, ela se mantém fora do eixo de uma narrativa construída por si mesma. Seria bem mais saudável para ela que tivesse indicado sua rotina de estudos, o nome de seus professores, o modo como fez o cursinho etc. Seria algo mais dela mesma, ou seja, de estudante. Afinal, a Fuvest aprova antes de tudo o estudante, não é um concurso étnico. Nem mesmo com cotas é um concurso étnico. Alias, as cotas não têm a ver com educação, trata-se de política de integração, necessária durante um tempo e perfeitamente cabíveis na ordem liberal.

Essa alienação do tipo da de Bruna se revela muito bem estabelecida, em várias formas, para outros. Dou um exemplo. Na redação das provas do ENEM uma tal alienação também aparece. O tema da redação para 2016 era sobre violência da mulher, e as melhores notas foram para textos que reproduziram um modelo quase que único, obrigatoriamente com jargões do movimento feminista: gritinhos contra a tal “sociedade patriarcal”, uso indiscriminado e nada apropriada da palavra “machismo” etc. O jovem não consegue produzir ideias para si mesmo. E recebendo o feedback positivo a respeito do que comprou no mercado temático e doutrinário, passa a seguir esse caminho ainda com mais incentivo. Não raro, termina a faculdade com uma redação igual àquela que entrou.

As pessoas imaginam que ideários e jargões não são mercadoria, mas são. É difícil não comprá-las, pois elas fazem parte da sociedade moderna como qualquer tipo de pasta dental. Nas vitrines da prostituição do mercado não estão só livros clássicos, mas também aquele vestidinho mais barato, de consumo popular, que vem junto com a palestra de um midiático qualquer. Quem não tem identidade, pode comprar uma, às vezes baratinho. Há Shopping para tudo. Aliás, a mercadoria cultural para baixo poder aquisitivo ou para alto poder aquisitivo às vezes difere pouco. É uma questão de embalagem. Pode-se comprar um pacote de ideias prontas na Casa do Saber, pagando alto, e pode-se comprar uma pacote de ideias prontas num cursinho popular, pagando-se menos ou nada. Mercadorias de preço zero também são mercadorias na sociedade de mercado. Assim, todo jovem pode pegar sua identidade, colocar no peito, e sair por aí. Como nossa sociedade agora têm mais velhos, vemos então senhoras de quarenta ou cinquenta anos fazendo o mesmo, na chamada adolescência tardia. E que não se ache que shoppings de rico e de pobre sejam homogêneos! Que nada, pode-se ver uma palestra de um tipo de Zorro vestido de Lênin, o Boulos, na Casa do Saber, convencendo os ricos a entregarem suas casas nos Jardins para o MTST. Pode-se levar o Karnal-Sabe-Tudo para uma escola de periferia via You Tube.

Romper com esse processo demanda uma força pessoal inaudita. Transformar a mercadoria “livro de Machado de Assis” em instrumento preparatório para fazer sua própria experiência ser elaborada, e redescrever-se segundo uma narrativa não mais adquirida no mercado, não é para qualquer um. Mas, isso não é novidade, já disse várias vezes que a filosofia, como a narrativa própria, é para todos mas não é para qualquer um.

Paulo Ghiraldelli 59, filósofo. São Paulo, 07/02/2017

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23 Responses “Estamos vendendo carteirinha! Ou: o que é alienação”

  1. Vanessa
    03/03/2017 at 12:40

    Professor, no momento que li essa reportagem pensei o mesmo.
    Não enxerguei cor, vi apenas uma garota esforçada e que foi em busca do seu sonho.
    Naquele momento não soube me expressar, hoje lendo esse texto vi que preciso estudar mais.
    Como estamos pobres de Professores nas escolas já que esses alienados serão os professores de amanhã.

  2. Gabi
    23/02/2017 at 05:52

    Ela seria de fato alienada se conprasse o discurso desse texto. Classe social, etinia, são Fatores que atravessam direta e objetivamente a formar dos sujeitos existirem e serem percebidos em sociedade. Me espanta um homem com saber sociólogo produzir um texto típico de páginas neoliberais de facebook como MBL.

    • 23/02/2017 at 16:30

      Gabi esse texto você também não entendeu, falta-lhe o conceito de alienação.

  3. Gabi
    23/02/2017 at 05:42

    A única coisa objetiva no seu texto é um tipo de militância individualista que tenta isolar o sujeito, como se existisse um indivíduo não atravessado por classe, processo histórico e realidade social. Deixa a menina pulsar seu orgulho de vencer a improbabilidade sem rezar a cartilha da meritocracia, não seja tão sensível ao orgulho dos marginalizados que ascendem e não se limitam a falar de si, como um sujeito isolado que nunca existiu de fato. Ela vai, e leva junto todos os atravessamentos que se relacionam com ela. Texto sem objetividade real, uma tentativa vaga de deslegitimar discursos com uma comparação barata ao mercado, como se o seu discurso não fosse o discurso de liquidação mais popular dentro dessa lógica de disposição de discursos, principalmente em páginas Como MBL. Vc tem textos brilhantes mas esse foi medíocre, seus textos ressentidos não fazem jus ao seu repertório, é uma questão de afeto muito exposta ultimamente. Soa superficial falar em ressentimento mas vc não tem nos dado muitas alternativas, esta muito esposto, vc só não supera o ponde nesse aspecto.

    • 23/02/2017 at 16:31

      Gabi espernear aqui sobre seu dogmatismo político não resolve, o blog não é sobre politica.

  4. Professor Paulo Ghiraldelli, estava muito ocupada ontem. Mas, hoje pela manhã, durante o meu café, aqui no refeitório da Universidade, li e reli atentamente o seu artigo e pude perceber que o senhor não está referindo-se à moça de maneira depreciativa. Entendi, sim, perfeitamente. Sua crítica é muito pertinente.Admiro seu trabalho aqui no Brasil, em levar a Filosofia ao grande público, via Internet. Lá da França quero continuar acompanhando essa sua empreitada intelectual. E com muito interesse, pode crer.

    • 10/02/2017 at 21:02

      Obrigado! Poucos reconsideram seus primeiras opiniões.
      Bem, sobre me acompanhar, sobre levar a filosofia para grande público, confesso, não é o que faço. Eu apenas uso o meio que é o meio do momento. Não me interesso nem um pouco em popularizar filosofia.

  5. Estou escrevendo este comentário antes mesmo de ler a sua resposta ao outro meu extenso comentário, abaixo. Acabo de retornar de uma reunião com o Secretário de Saúde de Minas, trantratando da febre amarela e da dengue em Minas Gerais. Nem almocei ainda. Mas, vamos lá. Discordo radicalmente do senhor, quando insinua que a moça é “alienada”. Ela não é alienada coisa nenhuma. Mas, agora serei obrigada a interromper, pois estou recebendo um telefonema do ministro da Saúde. Meu celular está tocando sem parar. Depois, continuo. Não fujo da polêmica, não. Até mais.

    • 09/02/2017 at 14:03

      Solange, antes de continuar, já vi que tomou a noção de alienação pejorativamente. Eu não fiz juízo de valor. Alienado é o alheio, o que busca identidade em outro. Ela buscou um identidade alheia a de estudante. Entendeu agora?

  6. 08/02/2017 at 23:28

    Professor Paulo Ghiraldelli, não me perdoaria a mim mesma se não retornasse aqui para corrigir o meu equívoco abaixo.Meu mestre inspirador, Louis Pasteur, nasceu em 1822 e faleceu em 1895. Portanto, será no seu bicentenário, em 2022, e da Independência do Brasil, também, a provável inauguração do similar brasileiro do Instituto Pasteur de Paris. Obrigada pelo espaço. Ciência e Filosofia não estão distantes assim, não é mesmo?

  7. 08/02/2017 at 23:03

    Mas, é claro, professor. Antes de ser a jovem negra da periferia, sou a Solange, a Solange Pereira de Souza. Passei em 5o lugar na mesma FUVEST para o curso de Farmácia da USP, em 1998, aos 20 anos de idade, numa época em que o vestibular era muito mais concorrido que o atual. Formei-me, fiz o meu mestrado, meu douttorado e o meu pós-doutorado em Farmacodinâmica e Farmococinética pela Universidade de Paris, Sorbonne IX. Hoje, sou diretora de um importante departamento de pesquisas bioquímicas no campo das doenças tropicais, como a malária, a dengue, febre amarela, esquistossomose, chagas, além da AIDS e outras moléstias que aflingem os países pobres e emergentes, no Instituto Pasteur da capital francesa. Tenho 38 anos. Filha de uma empregada doéstica e de um coletor de lixo. Falo isso, não para me orgulhar de minha própria pobreza, como fazem alguns por aí, diante dos microfones e das câmeras televisivas. Não. Minha míséria de outra época não me causa nenhuma espécie de saudade ou orgulho. Porém, nem por isso tenho vergonha de declarar que já fui pobre. Apenas deixo isso em segundo plano, um detalhe de minha biografia, sem pretender supervalorizá-lo. Nessses dias de janeiro, estou aqui no Brasil para acompanhar, com uma equipe de médicos e especialistas francesesdo Instituto Pasteur, para acompanhar, junto ao G overno Federal e demais autoridades sanitárias do nosso país, os casos de febre amarela, dengue e suas derivadas, particularmente no Estado de Minas Gerais. O Instituto Pasteur, pioneiramente, está desenvendo uma vacina contra a febre amarela que terá a capacidade de imunizar o indivíduo não apenas a partir da segunda dose, mas sim, a partir da primeira, para o resto da vida. E tenho a imensa sastifação de anunciar, em primeira mão, em seu site, professor Paulo Ghiraldelli, que em 2028, no centenário de nascimento de Louis Pasteur, o Instituto Pasteur do Brasil, com sede em Campinas. O projeto e demais tratativas já foram feitas junto aos governos de São Paulo, Prefeitura de Campinas e MiMinistério da Saúde. Enfim, essa é a minha história de vida, de muita luta, determinação e perseverança pessoal. E muita ajuda de Deus, de minha família, de meus professores e colegas, antes, durante e depois de concluir o curso de Farmácia e, por fim, muita obstinação de minha parte. Por issso, indentifiquei-me tanto com a Bruna Sena. Penso até, numa próxima opoportunidade, ir em Ribeirão Preto, encontrar-me com ela. Será um prazer. P.S:Outra frase dela que subscrevo integralmente: “a meritocracia é uma falácia”. Concordo, com base na minha própria trajetória de vida, plenamente com ela. O portal G1 e a TV Globo simplesmente omitiram da entrevista com a brilhante caloura esta última frase dela, bem como a primeira, citada acima. Assim, convido o ilustre professor Paulo Ghiraldelli, a ler a entrevista de Bruna SEna ao Diário do Centro do Mundo, DCM, onde sua fala está mais completa e mais respeitada na sua integridade editorial. Que coisa feia, Rede Globo. Ainda dizem que não existe “manipulação” ideológica? Até pode ser que não, mas, que surge uma vontadezinha, aqui e ali, ah, isto sim!

    • 09/02/2017 at 14:05

      Solange você se identificou com uma fantasia. Bruna é uma fantasia dela mesma. Com 17 anos não temos identidade nenhuma.

  8. 08/02/2017 at 19:22

    “A Casa Grande surta quando a Senzala faz medicina”, declara Bruna Sena. Ela é demais! Adorei a menina! Também sou jovem e e megra da periferia.

    • 08/02/2017 at 19:37

      Solange torço para que você seja a Solange, e não jovem negra da periferia.

  9. LMC
    08/02/2017 at 09:52

    Quando li as palavras machismo e
    sociedade patriarcal no texto,me
    lembrei do Trump,do Malafaia e do
    Bolsonazi.

  10. kelton
    08/02/2017 at 00:03

    Paulo,
    Você defende que por assumir um papel social e seus respectivos discursos ela se aliena.
    Pra mim é impossível afirmar isso sem conhecer a Bruna pessolmente e si história (nesse caso sou fenomenológico)
    Esse tipo de afirmação que vc faz se filia ao pensamento de que identidade se ligado à essência, respeito mas discordo (nesse caso concordo com martin moreno, a identidade é reunião d d.C.papéis sociais…),
    Parabéns

    • 08/02/2017 at 08:08

      Kelton eu não conheci pessoalmente Sócrates e escrevi um livro sobre ele. Em filosofia quando citamos nomes não estamos falando do indivíduo empírito. Estamos falando do indivíduo manifesto. Claro!

  11. Daniela Tatiane Santos
    07/02/2017 at 22:16

    Paulo, gosto muito dos seus textos, tem me ajudado demais a ver coisas que não conseguia. Sem dogmatismos e sem meias verdades!

    • 07/02/2017 at 22:26

      Daniela eu tento escrever para aqueles que querem ser inteligentes. Ou seja, aquelas pessoas que não querem andar com cangas no pescoço.

  12. Mantovani
    07/02/2017 at 17:20

    A sedmentacao dos preconceitos é a pior coisa que pode acontecer na graduação… No entanto, é a mais comum.

  13. Antonio Lopes
    07/02/2017 at 15:40

    Ela só passou em primeiro porque teve a nota aumentada em 25%, caso contrário não estaria nem entre os 1000 primeiros. É estudiosa, mas limitada, e sabe disso. Precisa da muleta do movimento negro e do PT, seus novos senhores. PCC também já faz isso.

    • 07/02/2017 at 18:37

      Antonio você não entendeu o texto e está tão preso ao discurso vendido quanto ela.

  14. LMC
    07/02/2017 at 14:45

    Essa estudante disse que um dos
    escritores preferidos dela é George
    Orwell,PG.E diz ser uma ativista
    feminista.

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