Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

23/03/2017

Estamos perdidos na sociedade contemporânea?


Indistinções: da sociedade do espetáculo às perdas semânticas.

1.

Ilusão de ótica é uma coisa, ilusão metafísica é outra. A física, a fisiologia e outros campos do conhecimento podem cuidar do primeiro caso, só a filosofia cuida do segundo, afinal, trata-se de um invento só dela.

Sem ilusão de ordem metafísica não teríamos a filosofia. Poderíamos ter narrativas de ordem literária ou científica, mas jamais a narrativa que chamamos de filosofia, criada por Platão. A filosofia é uma conversação que, de certa forma, está às turras com essa brincadeira a respeito de “o que é o real?”.

Os antigos fizeram essa pergunta sobre “o que é o real?” Os modernos transformaram a pergunta e passaram a indagar “o que é o conhecimento do real?”. Os filósofos contemporâneos, por sua vez, desdenham a primeira pergunta e criticam a segunda; eles preferem assumir que vivemos em uma época de problematização da própria dicotomia real-ilusão. Viver essa época é antes de tudo viver como quem pressente que original e cópia não possuem fronteiras não borradas. Nos tempos contemporâneos as imagens ganham proeminência. Tudo é “para os olhos”. Conta-se não mais a questão da verdade e da falsidade, mas do aparecer (e do parecer). Nesse caso, ganha estatuto privilegiado o espetáculo. Afinal esse é o que é exclusivamente “para ver” – simplesmente para ver.

2.

Marx foi um dos últimos pensadores pré-contemporâneos a invocar, sem qualquer rubor, a “realidade”. Ele buscou denunciar o mercado, a quem responsabilizou por um mecanismo de dominação do homem que, por sua vez, dissimularia tal dominação. Mas ele jamais disse que a sua versão da dominação era uma descrição a mais entre outras possíveis, mas a descrição verdadeira, a que teria captado o real, diferenciando sua essência de sua aparência ideológica.

Pela norma contemporânea ou, digamos, inaugurando com isso a própria contemporaneidade, Nietzsche tornou as coisas um pouco mais complexas, ao menos quanto ao real. No parágrafo 22 de Além de bem e mal ele deixou a ideia de que não temos o texto básico, só interpretações. Com isso, aprovou algo diferente de Marx: ele puxou seu próprio tapete, uma vez que a sua fala deveria ser admitida também apenas como uma interpretação, e assim ele fez. Desse modo, inaugurou o perspectivismo: não temos mais que falar em verdadeiro ou falso como lidando com real e ilusão, mas temos apenas que forçar a criação de mais e mais narrativas, ampliando as perspectivas. Estar rico de perspectivas parece ser a melhor maneira de errarmos menos, pragmaticamente falando. Afinal, haveria algo mais a fazer?

Ideias como a de Nietzsche foram trazidas, bem depois dele, para o campo da teoria social. Os filósofos da Escola de Frankfurt fizeram isso. Mais recentemente, por exemplo, Bataille (quase um Richard Rorty europeu?) falou de fases da imagem de um modo que lembra a “história de um erro” de Nietzsche, contida no Crepúsculo dos Ídolos. Vai-se da dicotomia entre imagem e cópia para a indistinção entre imagem e cópia até a indistinção entre quaisquer imagens. [1] Mas, em certo sentido, também se pode tirar uma tese assim de leitores de Marx. Debord chegou à ideia de que vivemos em uma sociedade de espetáculos, onde ‘o que é bom aparece e o que aparece é bom’, e fez isso a partir do marxismo, especialmente das noções de alienação (separação) e de fetichismo. Ora, se lemos Debord sob o clima de Nietzsche, que é o clima de hoje, ou com o clima de Bataille, então sua história sobre a “sociedade do espetáculo” se torna uma narrativa boa a respeito do que estamos vivendo. Não vamos aqui chamá-la de “mais representativa do real”, o que nos faria acriticamente voltar passos, mas simplesmente podemos dizer: essa narrativa “nos pegou”.

3.

O que quero dizer com “nos pegou”? Ora, que é difícil não sentir algo do que vivemos se lemos em Debord isso: “toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação”. [2]

O que se quer dizer, aqui, com “uma representação”? Representação no sentido de uma especial re-apresentação; de apresentação que se faz de novo e de novo incessantemente. Algo que requisita, agora, não o chão vivido de modo exclusivo, particular, mas do chão vivido como palco, um palco que mostra a todos como é a vida, mas a partir de uma ótica que não é a do homem (portanto, não mais a modernidade vista como “a época das imagens de mundo”, de Heidegger no Holzwege), mas da nova ordem das coisas. Trata-se da ordem das “modernas condições de produção”. Nesse palco, como explicou Marx no célebre “O fetichismo da mercadoria: seu segredo” no livro I de O capital, a mercadoria se apresenta comandando relações que antes, na troca de produtos, eram relações entre homens. Explico resumidamente.

Diferente de mercados pré-capitalistas, no mercado capitalista o produtor de soja não se encontra com o produtor de celulares, mas celulares e soja são trocados; Dona Soja se encontra com Senhor Celular. À medida que os produtores (humanos) deixam de se relacionar diretamente e são substituídos por coisas (mercadorias) que, então, se responsabilizam pelas relações, eis que se estabelece o fetichismo. São seres mortos que ganham vida. São objetos que se fazem sujeitos. E mais: se mostram assim, aos homens, como exercendo uma atividade natural, e não como social, como de fato é. Adquirem tal capacidade porque vão ao mercado não ostentando valor de uso, mas valor de troca – essa é a própria condição do mercado. Como isso foi possível? Ora, o valor é dado pelo aspecto exclusivamente quantitativo. Cada mercadoria pode ser trocada por outras por encontrar um equivalente universal que é o trabalho contido em cada uma. Trata-se do trabalho mensurado por meio da quantidade de tempo. Trata-se do trabalho abstrato que gera, então, o valor abstrato que é carregado por cada mercadoria. A operação ganha ainda um aspecto mais bem acabado, dando total autonomia às mercadorias, quando o próprio valor já nem precisa se referir ao trabalho medido quantitativamente, mas a uma abstração tornada palpável, o dinheiro. O dinheiro como equivalente universal dá vida completamente autônoma ao mercado, à mercadoria, e isso de uma vez por todas põe os produtores, os homens, como apenas coadjuvantes do processo todo, depois como simples coisas e, por fim, expectadores.

Essa forma de organização da vida social, regida pela sociedade de mercado, se mostra como aquela que produz em larga escala e, ao dominar o mundo, oferece a todos a própria mercadoria em um ambiente chamado sociedade do consumo. A mercadoria reaparece como mais viva ainda, pois manda nas relações que antes eram humanas e passa, agora, também a induzir desejos de seus espectadores. Atua na própria psicologia de cada trabalhador já transformado em consumidor. Essa sociedade do consumo, para funcionar, não pode ser outra coisa senão uma sociedade de proliferação de imagens. Mas são imagens feitas para conquistar, para serem vistas e obedecidas. Nasce aí o espetáculo de modo específico e especial, como elemento da sociedade do espetáculo. Explico brevemente.

4.

Dá-se o espetáculo. Nesse espetáculo cada homem não se vê como produtor de mercadoria, mas como admirador, ou seja, como consumidor. Sendo consumidor pode consumir a própria mercadoria ou, então, simplesmente sua imagem ou talvez apenas se embevecer. Pode entrar no mundo criado por ela. Esse mundo criado pela mercadoria é o mundo de seu espetáculo, da dança de suas marcas, e dos espetáculos adjacentes que envolvem shows esportivos, shows macabros de desastres, espetáculos de guerra e tudo o mais que se apresenta nos jornalismo em geral e, especialmente, no jornalismo da TV. Além disso, amplia os shows de entretenimento variáveis e, agora, shows individualizados que cada um de nós produz em celulares, pondo-os na Internet para alimentar a representação, para amentar as imagens, para contribuir com a proliferação de “mais do mesmo”, sempre integrados à retroalimentação do consumo. Tudo isso tem como base o fetichismo.

O exemplo do fetichismo da mercadoria em termos psicológicos, que eu normalmente utilizo, é bem simples. Pelo espetáculo e com a extensão do espetáculo, a mercadoria se põe como sujeito e leva o trabalhador, agora como espectador do espetáculo, ou seja, como consumidor, a se transformar em objeto. Pois a mercadoria o dispõe do exato modo que um sujeito dispõe objetos. Imagine você em uma loja tentando levar uma calça jeans para casa. Ela, a calça, lhe é estranha, ela se apresenta no seu próprio palco, a vitrine física ou televisiva e, agora, também virtual. Faz isso de diversos modos. Ela cria desejo, obriga você ao consumo. O problema seu, então, é de conseguir pagar o que a prostituta mercadoria pede. Mas esse não é seu problema maior! O cartão de crédito e a Internet lhe resolvem em parte esse impasse. Você parcela o pagamento ou simplesmente cede ao impulso irresponsavelmente e, ficando no vermelho no cartão, faz o pedido de compra. Mas há uma barreira a mais, e esta sim é importante: é que a calça jeans é viva. Ela está viva, e isso fica claro quando você percebe que jamais passaria pela sua cabeça trazer a calça e pedir para a sua avó arrumá-la em seu corpo; ao contrário, é você que irá parar de comer ou ir à academia ou marcar uma operação de tipo lipoaspiração (e, portanto, consumir mais outras coisas e participar de mais espetáculos). Ou seja, você é agora o produto morto, o pedaço de carne que deverá se acomodar à calça, enquanto que se impõe sobre você o pedaço de pano falante, vivo, atuante, ou seja, o sujeito. Eis aí a contrapartida da fetichização: a reificação do humano. Então, aí está a ideologia: não como produto da maquinação de um cérebro humano, mas como uma ilusão interna a uma verdade – um espetáculo, que ocorre no mercado e pelo mercado. Essa ideologia está articulada à alienação. A alienação ocorre à medida que a mercadoria e você, que a produziu, se separaram, e isso por conta da separação anterior, entre você e os meios de produção que puderam gerar a mercadoria. Há ainda uma alienação subjetiva: você se separa de você mesmo. O vivo de você surge morto na relação com a mercadoria, toda a sua humanidade viva sai de você, lhe é alienada, e a mercadoria reina como o vivo, como aquele que lhe tomou o sangue. Ela se mostra como prostituta e vampira.

Tudo isso é reproduzido como imagem e por imagem. Essas são postas no mundo de modo reiterativo pela proliferação vinda da mídia e da Internet, que fazem o shopping vir até você ou mesmo criam para você a falsa ideia de que tem um shopping na sua mão, via celular. Assim, a mídia não faz nenhuma dominação intencional, de “maquinação” ou de “manipulação” (quando faz, isso é secundário nesse quadro), ela apenas funciona dentro da lógica impessoal da sociedade de mercado segundo o capitalismo (a contrapartida dessa impessoalidade, segundo Weber, é a criação de uma burocracia estatal para fazer política, e que eu digo que é também para dar continuidade ao mercado impessoal).

Ela, a mídia, produz imagens, quase todas elas ligadas ao fetichismo em diversos níveis. Todo o aparato do entretenimento é regrado direta ou indiretamente por essa lógica. Seu próprio conteúdo se faz assim. A certa altura dos acontecimentos a mercadoria perde seus escrúpulos e começa a revelar seu segredo abertamente: ela coloca sua marca em cada jogador de futebol, na camisa dele, e com isso ela avisa a todos que já vinha fazendo isso há algum tempo com jornalistas e políticos – inclusive com jornalistas críticos e políticos de oposição. Quando você olha para você mesmo, vê que também este é o seu papel à medida que está fazendo parte de algum espetáculo. Ou produzindo-os no seu celular de modo mais volumoso que a chamada “grande mídia”, gerando o que é aproveitado pela grande mídia, pelo marketing e pelo jornalismo.

Uma sociedade do espetáculo é uma sociedade que se diverte com o fetichismo e, então, em determinado momento, não pode fazer outra coisa senão curti-lo. Vicia-se na operação fetichista de ver o morto substituir o vivo. Vive o mundo em que um clips é um soldado, o mundo da brincadeira e da fantasia. Essa sociedade retorna fácil ao brinquedo e ao jogo. Infantiliza-se. Tudo deve ser do campo da ideia lúdica em que o pedaço de pau cria vida e se transformar num cavalo, depois, esse cavalo se transforma no Pepe Legal, o cavalo cowboy, ou seja, aquele cavalo que dispensa o cavaleiro e faz o filme sozinho. Nesse espaço infantil não cabe adultos. Só crianças. No entanto, o mundo continua contendo adultos.

5.

Assim, o mundo adulto vira um mundo de crianças. As crianças se tornam mais crianças (mesmo as que trabalham!) uma vez que os adultos se tornam crianças. Nesse mundo, os adultos se tornam amiguinhos dos filhos. Os professores viram “tias” e “tios” e depois coleguinhas, “facilitadores”. A aula vira jogo e brincadeira e a escola, desse modo, ou é “atrativa” ou não é mais considerada escola. Os pais se transformam rapidamente em coleguinhas também. “Conversamos de tudo com os nossos filhos”. Falam de sexo e ensinam as meninas a usar camisinha, ou são ensinados por estas – tentam de maneira ridícula ter “um papo” de modo horizontal e, assim fazendo, se tornam ridículos perante os filhos. A psicologia se dobra ao comportamento desses pais e contrata profissionais para elogiá-los e dizer: “nossa, que beleza, é o mundo do diálogo”. Esses pais se transformam facilmente no personagem do pai no filme Whiplash, alimentando filhos infantis, marcando hora para ir com o filho, já adulto, comer pipoca vendo vídeo em casa. Do mesmo modo esses pais, os adultos, começam a achar que seu ambiente de trabalho também deve ser lúdico. Surgem então os profissionais da motivação, os consultores (Peter Sloterdijk lembra bem deles em O Palácio de Cristal), os que fazem treinamento para o trabalho, e isso em formas de jogos, de gincanas que lembram as feitas nos reality shows da TV. Qualquer palestra que queira aprofundar algo, nesse meio, é tomada como chata. Quando voltam para casa dormem e acordam como os pais paulistanos, que são chamados em faculdades (sim, faculdades!) para levar sermão dos coordenadores, pois estão mimando seus filhos (está ocorrendo isso em São Paulo!). Todos conversam com todos abertamente, francamente, a franqueza do cliché. A sociedade moderna tornada esférica pela Internet, eletrônica e liberal se imagina uma Ágora grega expandida para o lar.

Quando a sociedade perde a distinção entre o que é a infância e o que é a vida adulta, aparecem logo, entre outras coisas do mesmo tipo, os “caçadores de pedófilos”, os grandes justiceiros. Por quê? Porque há a idealização da infância, já que esta, real, se perdeu na prática. Ninguém mais sabe quem é criança. Ninguém mais sabe o que é adulto. Então, a sociedade reclama por um pedófilo, alguém que pega crianças, pois, fazendo isso, esse “especialista” irá apontar para a criança e dizer, “ah, olha lá, a criança para ser abusada, é criança!”. O caçador de pedófilo é o caçador de quem ele presume que sabe quem é criança! A sociedade então redescobre a criança não por sua inteligência, mas por meio de um mecanismo estranho, o do mito do pedófilo. Quem ele atacar é de fato criança! O mito do devorador de crianças salva a sociedade, de modo que esta pode saber o que apontar como criança.

Assim ocorre com várias outras situações em que a diferenciações acabam por conta do conteúdo dos espetáculos. As distinções reaparecem por meio de invenções, mitos, criações esdrúxulas, leis e regras malucas. A sociedade do divertimento, do entretenimento, da gincana de do reality show termina logo por ser a sociedade da perseguição. Criam-se nomes de estereótipos e leis para punição desses que são acusados de terem tais nomes, de modo que diferenciações perdidas sejam repostas.

Essas diferenciações artificiais são repostas por leis como a do bullying. Identifico aquilo que não identificava mais, e assim faço por meio da criminalização do que venho a chamar de discriminação. Aquele fulano chamou o outro de “gordo”. Vem a denúncia e a punição. Essa punição é no fundo o momento da identificação: fica-se sabendo, de novo (mas não de modo igual e correto), o que é um gordo. O gordo é o que sofreu a agressão. A lei contra a violência se torna apenas um modo de se poder encontrar a relação entre coisas e palavras. Reinstaura-se a semântica perdida, mas de uma maneira completamente esquizofrênica.

Essa busca de uma recuperação semântica não é à toa. Afinal, o que é alienado pela sociedade do espetáculo é também a linguagem. Agamben comenta isso ao falar do livro Debord, Comentários sobre a Sociedade do espetáculo. “O espetáculo é a linguagem, a própria comunicabilidade e o ser linguístico do homem”, desse modo, o capitalismo está voltado também “à alienação da própria linguagem, da própria natureza linguística e comunicativa do homem”.[3] Claro, se tudo se inverte e a semântica enlouquece, nós ficamos sem saber o que falamos e do que falamos. Criamos leis de criminalização para que juízes e policiais e outros sabichões nos digam de novo o que é cada coisa: quem é negro, homossexual, gordo, criança, mulher, doente, anão, índio, clone, bastardo, rei e poeta. Fazemos isso também com atividades. Em um mundo em que as calças dão ordens, e que, como Marx notou, as mesas com cabeça de madeira se impõem diante de outras mesas e outras mercadorias, é difícil saber o que é uma mesa enquanto mesa.

Bataille diz isso a respeito da criação da Disneylândia[4]: eis aí o lugar institucional da fantasia, para que, de modo concreto, indicativo, se possa dizer que no resto dos Estados Unidos não reina o falso, o ilusório, o resto é o real, adulto, a América. A Internet é o perigo que quebra isso. Mas o faz com certa segurança. Pois ela própria tenta, pela velocidade, dar parâmetros para a fantasia: o que “bomba na Net” é fantasia, o que fica não é. Mas, o que fica? Nada fica? E de fato se nada fica, como saber o que não é ilusão? Então, que volte a lei para recriar a semântica e a possibilidade de saber quem é criança, quem é o justo, quem é o feio, o que é uma prática e outra prática, o que é isso ou aquilo. As perguntas socráticas reaparecem, mas sem Sócrates, sem investigação, sem pensamento.

Quem notou nesses últimos dias, com a discussão da terceirização, a confusão sobre o que é ser ou não ser trabalhador, o que é trabalho e tarefas, pode bem entender de que indistinção e de que perdas semânticas estou falando.

Paulo Ghiraldelli 57, filósofo.

PS: no momento em que escrevo, o Brasil discute o que é família. O Congresso recebe votos! Querem decidir isso por algo como voto e plebiscito! Ou seja, somos incapazes de olhar para nós mesmos e, por reflexão, por pensamento e estudo, decidir que temos um avô junto com neto que, por vez, nem é filho do filho dele talvez, e esse menino tem um primo, que é quase irmão, e que traz para casa como namorado outro menino. Formam uma família. Não! A sociedade prefere a via aparentemente mais fácil, do não-pensamento: a sociedade vota dizendo que a família tradicional é o padrão dado pelo espetáculo ou pela lei velha, que nunca representou qualquer coisa vivida: família é união de um homem e uma mulher! Meu Deus, quando? Quando existiu isso como família? Onde? Em Plutão? O plebiscito também é parte do espetáculo.

[1] Bataille, G. Simulacros e simulações. Lisboa: Relógio D’água, 1991, p. 13.

[2] Debord, G. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2015. 13.

[3] Agamben, G. Meios sem fim. São Paulo: Ática, 2015, p. 81.

[5] Bataille, G. Op. cit., p. 22.

Tags: , , , , , , , , , , , , ,

3 Responses “Estamos perdidos na sociedade contemporânea?”

  1. Micaías de Souza
    04/06/2015 at 20:00

    Tire o “sim’ (favor) e o “não” (contra) do brasileiro; depois vê se tem conversa?!!

  2. Micaías de Souza
    04/06/2015 at 19:58

    A questão da família vem de encontro com a perda semântica. Quando coloco uma questão que, dentro do contexto atual, poderia vir da resposta apenas da esfera individual, para o coletivo decidir; estou admitindo que não sei o que é. O plebiscito é o desinibidor do sujeito brasileiro – a resposta é mais necessária para quem diz ser tradicional, pois estes não acreditam mais no que pronunciam. Tudo tem que ter um sim ou não, mesmo que este pensamento não venha da lógica clássica. Ora, na falta de educação, não conseguimos colocar o “sim” e o “não” dentro de uma argumentação. Assim apelamos para a massa: plebiscito. O vício do brasileiro a este ato está ligado a sua incapacidade de dizer o “sim” e o “não” dentro de uma estrutura linguística mais sofisticada: argumentação lógica. A política, para o pseudo-politizado, dá sentido ao brasileiro e, ainda, dá espetáculo. Portanto sou um ser politizado, sem saber direito para que tipo de política eu protesto. Mas o importante é fazer um vídeo “atestando” que participei, logo tenho consciência política. Esta, vem das imagens e não das ideias!

    • ghiraldelli
      07/06/2015 at 07:43

      Micaias acho que plebiscito não desinibe, ele inibe. E o brasileiro não consegue atuar como sujeito.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo