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27/03/2017

Estamos de rosto novo, Calligaris!


“Amor de máquina” não será um bom título no futuro. O artigo de Calligaris na Folha de S. Paulo (13/02/2014), principalmente pelo título, ainda neste século já não será mais entendido.

A análise de Calligaris é boa, como sempre. Todavia, o seu título puxa o conteúdo e ambos perdem a força, se pensamos em um futuro próximo, caso a filosofia e as ciências caminhem na direção que estão caminhando. Isso não depõe contra o artigo dele, pois, ao contrário, nos dá elemento para pensar mais.

A ciência está disponibilizando para nós a inteligência artificial. A filosofia está acompanhando a coisa. Tenta fazer o seu papel, ou seja, criar uma nova imagem do homem para si mesmo, coadunável com o que a ciência expõe como sendo, no mais tardar daqui a vinte anos, a inteligência tout court.

A ciência está abandonando de vez a ideia de que a inteligência artificial e a inteligência humana são instâncias diferentes. Os cientistas estão criando softwares de inteligência artificial a partir dos estudos que fazem das funções mentais segundo suas investigações no cérebro, mas já intervém no cérebro a partir de modelos de seu funcionamento tirados desses paradigmáticos programas de inteligência artificial. Há uma curiosa retroalimentação aí, sem que isso dê o resultado do cachorro correndo para pegar o próprio rabo.

Por sua vez, a filosofia tem buscado dizer que Descartes e sua turma são bons filósofos, devem ser estudados, mas não devem ser postos como “a última palavra” em matéria de “filosofia do espírito”. O dualismo de substância, alma de um lado e corpo de outro (mente-cérebro), nos dá uma imagem popular de nós mesmos. Mas já não é mais a imagem que os filósofos têm elaborado para fornecer a cobertura do bolo aos cientistas. O filósofo americano Donald Davidson (com Rorty na cola) nos deixou uma imagem mais condizente com o futuro da ciência: somos redes linguísticas de crenças e desejos. Isso se aproxima mais de redes neurais (para mais: Ghiraldelli Jr., P. Introdução à filosofia de Donald Davidson. São Paulo/Rio: Luminária-Multifoco, 2010).

“Ela” é o filme de Samantha, um programa operacional (um software) que vive um caso de amor com um escritor de cartas (Joaquim Phoenix). Trata-se de uma inteligência artificial e um humano. E assim considerou Calligaris. Mas o que talvez ele não tenha percebido é que no desenrolar do filme as diferenças entre um e outro desaparecem, e não porque ela é simplesmente uma cópia dos humanos, mas porque nós podemos nos descrever pelo modelo da inteligência artificial e vice-versa. Caso tentarmos teimar no modelo cartesiano, ficaremos sempre achando que houve um gap entre o escritor e Samantha por causa de um estar na condição humana e outro na condição de máquina, ou então, o que é o mesmo, que um está na condição humana e outro é apenas uma cópia disso. Não!

 O namoro tem seus altos e baixos porque ambos estão em uma situação de igual para igual, ou seja, ambos são “redes linguísticas de crenças e desejos” e tais redes não formam uma única dualidade, mas uma rede extensa que envolve milhares de humanos e milhares de outros sistemas operacionais. Essas redes são enervadas de um lado e de outro, tendo certas partes menos energizadas enquanto outras mais, segundo um tempo. Afinal, a relação da inteligência artificial com o humano não é mais uma relação dual, como no imaginário e ficcional casamento monogâmico ocidental, mas o real “namoro e guerra de todos contra todos” das redes que formam a grande rede da Internet. Ora, isso nos dá, de fato, algo muito mais próximo do que vivemos em nossa realidade desde sempre. Afinal, não vivemos assim, desde há muito, em relacionamentos múltiplos, em redes que associam redes?

O filme “Ela” não é uma lição de amor, embora seja. Não é uma lição sobre nós conosco mesmo, embora seja. Não é um filme sobre solidão ou não solidão, embora seja. É um filme – e aí sim está sua novidade e originalidade – sobre nossa nova imagem de nós mesmos, de nossa condição, que não é mais humana ou de máquina, mas a de redes que estão em redes. Essa imagem de nós mesmos é bem mais próxima do que sempre fomos, e me parece uma descrição que tenderá a substituir as outras que até então sustentamos.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. Autor do recente A filosofia como crítica da cultura (Editora Cortez).

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6 Responses “Estamos de rosto novo, Calligaris!”

  1. Banqueiro
    16/02/2014 at 22:15

    Outro dia vi um post seu falando sobre as medidas afirmativas.Das cotas raciais. Veja bem…

    Diferenças econômicas entre negros e brancos existem sim no Brasil, mas por razões completamente diferentes das que aconteceram nos EUA e na África do Sul, por exemplo.

    Tamanha miscigenação presente no nosso país, o que seria um indivíduo negro e o que não caracterizaria um ? Por autoafirmação?

    A nossa questão não é cultural, de uma segregação racial quase institucionalizada, como ainda acontece nos EUA, onde os grupos tendem a se dividir por etnia, mas histórica.

    É uma questão histórica, não cultural.

    É essa diferença na origem da composição das classes que desmerece completamente o sistema de cotas raciais.

    Portanto seu argumento cai por terra e não tem poder de convencimento.

    Cotas são aceitáveis sim, mas se forem econômico-sociais. Raciais jamais!

    • 17/02/2014 at 08:21

      Banqueiro, é o contrário, as cotas só se justificam como cotas étnicas e não são medida educacional. Você pode ler Filosofia política para educadores (Manole 1) e aprender isso, fácil. Caso não aprenda, ainda assim a leitura lhe será útil.

    • Banqueiro
      17/02/2014 at 12:57

      Conversa fiada de esquerdista. Já falei, aqui não é o EUA. Vc poderia me dizer o que é negro e o que não é aqui no Brasil? Me diz aí.
      A prova disso é a auto-declaração para entrar com a cota.

    • 17/02/2014 at 15:31

      Banqueiro, voltou? Ué, mas você disse que era perda de tempo vir aqui. Veja, você precisa voltar para seu banco e trabalhar lá. As coisas da cultura não são inteligíveis para você. Não tente, sua cabecinha não dá para isso.

  2. Banqueiro
    16/02/2014 at 22:05

    Desculpe-me, mas você é péssimo. Perdi meu tempo aqui.

    • 17/02/2014 at 08:23

      Banqueiro, você veio aqui para dizer isso porque já fez isso outras vezes, e isso é amor. Esconder-se e vir xingar. Isso é a amor com pitadas de inveja. Dureza heim? Nem bancário você é, banqueiro! Você é aquele tipo fracassado que nem mesmo pode revelar a identidade.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo