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22/07/2017

A esquerda sem Deus, e sem conhecimento


Nossas esquerdas falam alto quando palestinos morrem. Há quem diga que a esquerda não sofre pelos palestinos, mas pelo Hamas. Agora, diante do ataque dos fundamentalistas islâmicos às minorias étnicas e religiosas no Iraque, acusando-as de estarem ligadas ao demônio, as esquerdas fingem não saber de nada. Parece que esperam que os aviões americanos errem algum alvo para, então, falarem do assunto. Adoram isso!

Qualquer grupo armado que se mostre anticapitalista, mesmo que no horizonte tenha como realização uma situação mil vezes pior que a do capitalismo, parece ser bem vindo para os que se sentem viúvos do comunismo.

Prefiro não acreditar que toda a esquerda pense assim. Tenho lá uma hipótese que aponta antes para o despreparo intelectual, especialmente no Brasil, do que com o abraço ao terrorismo.

Nossa esquerda vem da nossa universidade, direta ou indiretamente. A universidade brasileira, cuja matriz é a USP, tem nas ciências humanas e na filosofia uma marca do positivismo francês inapagável. Por isso, ela centra seu estilo no apreço pelo estado laico, mas mirando nos ideais da III República francesa. Essa universidade, ao menos no importante campo da filosofia, sempre considerou os estudos em religião, principalmente os três grandes monoteísmos, como algo de pouca serventia. Voltar-se para a religião não era coisa para laicos, não valia a pena nem como objeto de estudo. Por isso mesmo, intelectuais vindos dessa matriz, nunca puderam saber dos conflitos envolvendo guerras com componentes do imaginário religioso, pois só conseguiam pensar o mundo em termos ocidentais modernos de direita e esquerda, de capitalismo e não-capitalismo, e de busca de petróleo e exploração.

Uma vez Lula disse algo bem representativo disso tudo. Diante de conflitos no Oriente Médio e no Afeganistão, ele reduziu tudo ao problema da pobreza. Pessoas na miséria tendem a fazer guerra, pensava ele. Muitos disseram que era uma bobagem do ex-presidente, mas se esqueceram de falar que boa parte da intelectualidade agrupada ao Lula nunca pensou de modo muito diferente.

São poucos os nossos especialistas em assuntos sobre o mundo muçulmano, e mesmo o mundo dos judeus nos é desconhecido. Nem mesmo o cristianismo está entre nós, uma vez que nossos jovens ou desconhecem a Bíblia ou simplesmente a aprendem a partir de pastores analfabetos. Há até os sabidinhos ateus, que acham que religião é algo para ser combatido no estilo da vulgata de Voltaire.

Deus é um objeto desconhecido. Desse modo, por conta do simplismo teórico, por conta do analfabetismo sobre o mundo árabe em geral, é possível para nossas esquerdas achar que a retórica antiocidental do islamismo fundamentalista não vê os brasileiros todos como tão pecaminosos quanto os americanos. Mas o “estado islâmico” fundamentalista acha sim nossa vida com nossas mulheres, andando soltas por aí, como fruto de nosso pacto com o demônio. Enxergam nossos homossexuais como pessoas que deveriam ser enforcadas em praça pública, e pensam o mesmo dos governantes que aceitam o casamento gay. Tem um desprezo profundo por regras democráticas. Pensam de modo muito mais próximo de nossos ultraconservadores do que de qualquer outro grupo entre nós.

No entanto, nossa esquerda não consegue compreender nada disso. A cegueira vem do anticapitalismo fundido ao antiamericanismo, que namora o antissemitismo europeu. Mesmo que não for só isso, isso já é o suficiente para fazer de nossa esquerda uma esquerda de cérebro murcho. Precisamos de uma esquerda uma pouco mais preparada.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo.

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4 Responses “A esquerda sem Deus, e sem conhecimento”

  1. ailton
    11/08/2014 at 14:44

    Paulítio, quando professores ideologizam as salas de aulas dizendo que o sistema é do capeta estão tendo uma atitude um tanto quanto islâmica? ou isso não passa de uma retórica carcomida das esquerdas de outrora? como vc me explica isso caara
    valeu

  2. RAMBO
    10/08/2014 at 23:37

    VC fala de uma esquerda que vc mesmo já falou aqui que não existe. Será q é tão difícil assim notar que a esquerda predominante no país não abre mão de ser liberal ou libertária? Vc está confundindo o ISIS com a causa Palestina, esta última de ter seu direito de ser um estado, que outrora foi roubado a mão armada.
    E sim, antes de combater a religião, tem que entendê-la desde o seu princípio, como e porque evoluímos por ela, de que forma sua influência(escritos) nas pessoas ameaça os Direitos Humanos hoje, e se ainda precisamos dela.

    • 11/08/2014 at 00:41

      RAMBO DEFINITIVAMENTE você precisa procurar ler algo blog do Castelo Rá Tim Bum. Essa leitura aqui NÃO dá para você. Desista.

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