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19/03/2019

“Esquerda festiva” de uma direita mequetrefe


Meu filho está para terminar o curso de filosofia, aos 21 anos. Ele faz parte daqueles estudantes que Richard Rorty dizia, no final do século passado, que não teriam mais o leninismo como horizonte para ser de esquerda. É verdade.

Ele está tão longe de condenar a prisão de black blocs ou outras vanguardas de esquerda quanto de endossá-las em seus ideários. Ele odeia o comunismo tanto quanto a minha geração odiou o fascismo. Mas, como eu, uma vez intelectual, ele não dispensa Marx porque nós, os de nossa raça filosófica, não dispensam nenhum filósofo clássico. Mas isso encerra seus dramas? Não!

 Filho de mãe petista, Paulo Francisco colhe hoje decepções adrede preparadas. Viu o “mensalão” na sua pré-adolescência e agora dá de cara, nas redes sociais, com Dilma e sua corte, junto com o PSDB, no Templo de Edir Macedo. Não sei se ele vai votar no PT. Mas ele está bem longe de achar que gente da Revista Veja diz a verdade – e isso não porque ele acredite, como filósofo, que a mídia é por si só ideológica. Ele realmente sabe que a direita mais ideologizada utiliza de jargões de quem perdeu a memória ou simplesmente não tem inteligência. Nesta parte, estou com ele.

A direita hoje, até mesmo aqueles que se acham intelectualmente sofisticados em seu interior, usa de expressões que não fazem mais nenhum sentido. Falam em “esquerda festiva” e, agora, em “esquerda caviar”. Essa direita jornalística, que às vezes até quer se passar por filosófica, não sabe o quão ridículo é a utilização desses termos atualmente.

“Esquerda festiva” era uma expressão dos anos sessenta e, principalmente, setenta. Em vários lugares do mundo termos similares apareceram. Mas, especialmente no Brasil, era um termo para dizer que vários intelectuais ficavam entre “queijos e vinhos” falando de revolução, mas que nunca dariam um passo em favor de qualquer efetiva revolução ou mesmo oposição aos governos conservadores dominantes.

Os que não pegavam em armas, como os do PCB, acusavam os mais radicais de “esquerda festiva”, e esses devolviam o título, chamando os comunistas tradicionais de “cuecões”. “Esquerda festiva” foi usada, também, para caracterizar Fernando Henrique Cardoso, quando de sua primeira campanha ao senado, fazendo dobradinha com Suplicy para deputado. Lula chegou a insinuar isso na época. Depois, o próprio Lula, quando melhorou um pouco de vida ao se tornar deputado, amargou o adjetivo. Bastava ele comer algo que não fosse um tradicional pão com mortadela e lá vinha gente “de cima” e “de baixo” dizer que ele havia “se aburguesado”. Ser de esquerda, para alguns maldosos da direita e alguns tolos da própria esquerda, é ser pobre e sujo. Qualquer perfil fora disso, é dar de cara com aquele moleque tolo que fala em “esquerda caviar”.

“Esquerda festiva”, hoje em dia, não caracteriza mais ninguém. As pessoas inteligentes não usam expressões desse tipo, pois sabem que isso não faz sentido. Principalmente após 1989, com o fim do comunismo, a única perspectiva restante para a esquerda foi se tornar social-democrata.[1] E a social democracia sempre conviveu bem com a ideia de integrar intelectuais vindos até mesmo da aristocracia com um operariado cada vez mais escolarizado e remunerado de modo até melhor que gente com profissão não manual.

Propaganda da extrema direita americana. Não custa nossa direita imitar!

Propaganda da extrema direita americana. Não custa nossa direita imitar!

Atualmente há, no mundo todo, uma ampliação do movimento libertário anticapitalista. Pensam-se como novos. Mas não são. Quando falam não dizem nada de libertário, mas repetem sim o velho jargão marxista-leninista radicalizado. Aliás, no pouco que tocam o libertarismo, ficam até mais velhos que o marxismo carcomido. Chomsky e Zizek estão longe de serem intelectualmente sofisticados no entendimento de Marx. Caso Rorty estivesse entre nós, ele diria: estes aí ainda fazem da filosofia política uma filosofia primeira. Criam teorias para fundamentar o que não tem fundamento, que é o desejo de comandar politicamente outros.

Erradamente a direita jornalística atual, e até aquela se banha de cheiros filosóficos, não sabe de nada disso. Entende tudo superficialmente porque seus leitores são superficiais. Essa direita recria os temos “esquerda festiva” e similares para falar dos black blocs e coisas do tipo. Mas erram feio. Libertários atuais estão bem longe de “queijos e vinhos”. Não são de famílias aristocratas, ainda que alguns, aqui e acolá, tenham estudado na USP ou UFRJ etc. Mas estudar na USP, hoje, não diz nada senão uma verdade de pobre: ser filho de professor. Hoje em dia, o professor universitário que não teve herança nem consegue um apartamento próprio. Quando caia entre “queijos e vinhos”, podem acreditar, não é nenhum queijo ou vinho que qualquer operário do ABC paulista não possa tomar em goles maiores.

A direita atual, formada não por políticos mas por gente da mídia, sabe bem menos que um Paulo Francis. Imitam esse homem em tudo. Mas imitam mal. São cópias mequetrefes. Não conseguiriam ser nem mesmo office boys do Pasquim dos anos sessenta, mesmo quando colocam na frente de suas testas alguns diplomas ou selos da PUC. E o pior disso é esse uso de “esquerda festiva”. O uso dessa expressão realmente mostra gente que ouviu o galo cantar e não sabe onde. Gente que está saindo da adolescência tardiamente. Do modo que vão as coisa, logo veremos essa direita dizendo que usou maconha!

Enquanto não fazem isso, andam por aí resenhando o que não entendem e fazendo orelhas de livros que não leram.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo.

 

[1] Eu poderia falar em solidarismo, a partir de textos de Sloterdijk? Sim! Mas não o tomaria como uma perspectiva política, e sim como uma inspiração filosófica – uma utopia da utopia.

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20 Responses ““Esquerda festiva” de uma direita mequetrefe”

  1. Line
    18/07/2018 at 20:13

    Na época deste texto o PT ainda estava em alta, tanto que Dilma se reelegeu, mas atualmente o termo esquerda festiva está mais que atualizado e com bastante sentido e não se trata da mesma coisa da dita esquerda caviar não e nem da mesma esquerda festiva dos anos 60/70. O tal do black blocks sumiu do nada, assim como apareceu.

    • 18/07/2018 at 20:55

      Line, os black blocks foram condenados hoje (18/07/2018) (Sininho etc.), por conta da Lei de Segurança de Dilma.

  2. Adalberto Barreiros
    15/08/2014 at 01:25

    Professor Ghiraldelli, o senhor tem visto o caso do garoto Mike Brown nos EUA, quando ia para a faculdade? Viu o quanto é intenso a questão racial por lá? Não conhecia muito bem. O clima é de fio de navalha, muito delicado. Vi alguns vídeos e houve confrontos que lembrava os protestos aqui no Brasil. A polícia fechou ruas e se armou até os dentes. Mas o governo soube manobrar rapidamente. Mas mesmo assim… a sensação de injustiça continua, e o ódio, o racismo nas redes é evidente!

    • 15/08/2014 at 09:55

      Adalberto, eu vivi isso desde os tempos que Kennedy não havia começado a bater forte na KKK. Quanto negros no Brasil morrem? O crime lá contra negros se tornou um questão de direito civis. Aqui morre muito mais e, no entanto, achamos que lá há racismo. Por quê? Porque lá há a reação dos negros que, enfim, se escolarizaram, tiveram uma vida melhor, chegaram a poder reivindicar. Aqui, após a escravidão, o negro continuou em situação tão subalterna que só agora consegue formar grupos de pressão. E, é claro, contra ele contam os Magnolis da vida.

    • Adalberto Barreiros
      15/08/2014 at 10:49

      Interessante saber como as coisas funcionam. Então essa política afirmativa que copiamos deles faz todo sentido, mas a agitação contrária aqui é enorme. Sinceramente, não deve ser fácil nascer negro aqui no Brasil. Não deveria ser assim. Muita gente não percebe que não se trata de política educacional, gente de formação acadêmica até.
      A maior autoridade policial de lá disse que é preciso rever contratações de policiais; a população é de 70% negros, mas na corporação eles representam 5%(” Isso tem que ser revisado”).
      Esse caso em Missouri pareceu com o início dos protestos em SP. Teve até jornalistas presos sem ter feito nada o que inflamou as discussões em cima do caso. A mídia independente falou de Martial LAw e coisa do gênero. Quase toda imprensa alertou sobre a militarização do método policial.

      http://www.washingtonpost.com/politics/federal-state-officials-take-sweeping-steps-in-response-to-ferguson-mo-unrest/2014/08/14/7c9c6de0-23f8-11e4-86ca-6f03cbd15c1a_story.html?tid=pm_politics_pop

    • 15/08/2014 at 10:59

      “Mississipi em Chamas” foi um marco! Não aprendemos nada sobre os americanos e sobre nós. Não aprendemos nada sobre a importância de Monteiro Lobato ter dito o que disse, naquela frase que não citamos, sobre a KKK. Os americanos tiveram a coragem de criar a KKK, e nós não, disse Lobato. E os americanos negros (e muitos brancos) tiveram a coragem de reagir a isso, digo eu, e nós não muito. Nossa coragem não existiu, em parte, porque nem o lápis existiu para o nosso negro. A política de segregação racial, lá, não tirou tudo do negro, apenas tirou o que era o melhor. Aqui a política pós escravidão não tirou nada, porque não havia dado nada.

    • Adalberto Barreiros
      15/08/2014 at 11:21

      Eu realmente preciso estudar a história civil americana mais profundamente. O que tenho conhecimento é superficial. Vou ver esse “Mississipi em Chamas”.
      Para finalizar, esse caso me fez lembrar do garoto assassinado, Douglas, em SP. Muito parecido. Mas aqui só a população da comunidade vítima reage quando tem casos assim, um foco de incêndio ali e tudo acaba como antes.

      Repressão policial em Ferguson:
      http://www.youtube.com/watch?v=iRGCKrKsD7w

      Abraços.

    • 15/08/2014 at 13:08

      Adalberto! Nosso anti-americanismo de esquerda e direita fazem os professores serem burros e então os alunos ficam incultos. Copiamos os americanos só acriticamente, no que não deveria ser copiado, porque não os estudamos.

  3. Nogueira
    06/08/2014 at 13:19

    Essa foto do Lênin aí… Em 2009 as câmeras de segurança do mausoléu, em Moscow, registraram um movimento do corpo durante a noite. Para o arrepio dos direitistas!

    http://www.youtube.com/watch?v=pQD3G5AndCo

  4. João Pedro
    06/08/2014 at 13:13

    Professor, foi o Paulo Francis que começou essa onda de burrice direitista ou podemos relevar alguma coisa no seus textos?

    • 06/08/2014 at 13:48

      No final da vida Paulo Francis estava completamente maluco, os textos não tinham mais sentido. Era verborragia racista babaca. Mas sua cultura e irreverência marcaram. Ficou para a direita atual apenas a imitação, a pseudo rebeldia.

    • LMC
      06/08/2014 at 16:04

      O Francis era tão gagá
      que certa vez,na
      Folha,chamou Thatcher
      de populista de direita.(???)
      Vai ao encontro do que
      você disse acima,PG.
      Ele detestava mulheres
      (até as conservadoras)
      sem falar em negros
      e judeus.

    • 06/08/2014 at 23:09

      Ela não era populista, mas existe populismo de direita. Vargas o foi durante um tempo. Jânio também. O populismo não é prerrogativa da esquerda.

  5. Wagner
    06/08/2014 at 01:13

    Enxergo-os como porta-vozes do público que assiste ou lê jornal para se sentir um pouco melhor. Não é atoa que passar três ou quatro horas por dia em engarrafamentos torna-se uma rotina melhor que a de ser espremido no metrô ou no ônibus por tempo semelhante.
    No final, tais personagens tornam-se pajés de uma tribo que paga mais caro para parecer menos idiota que os idiotas.
    A tribo desses pajés adoece de tanto trabalhar e sobrevive de medicamentos para recuperar sua funcionalidade. Mas o real combustível é o medo de ser o que assistem nos jornais e noticiários. Tal conjunto ideológico precisa de um pajé que o convença de que estão certos e em vantagem cívica, intelectual e moral perante as tribos rivais.
    As questões filosóficas e políticas tomam um aspecto de simples adereços (on demand), não necessariamente positivos. Não precisam ser positivos, pois não é essa a questão. A questão é de oportunidade e visão do cenário.
    São todos bons empreendedores.

  6. Franklin Mariano
    05/08/2014 at 21:49

    O ruim dessa coisa toda,dessa falta de atualização e sofisticação intelectual ocorre quando um juiz que deveria estar preparado pra apresentar argumentos sólidos começa a falar em “esquerda festiva ou esquerda caviar”.

    Aí ,sem dúvida, vidas estão em risco ,a democracia corre perigo pois o juiz que diz: “alto lar,voçê usa nike,portanto está preso” tem um grande poder em mãos

    O propagador do termo é aquele que diz que falta “homem verdadeiro” e macho.Ele foi muito macho na frente do Ciro Gomes .Como se viu,borrou-se todo.

    • LMC
      06/08/2014 at 10:40

      O irmão do Ciro tem um
      fetiche incrível:mandar a
      polícia bater em
      professores quando
      estão em greve
      no Ceará.

    • 06/08/2014 at 11:26

      MAS E DAÍ MARCELO? Você fala cada coisa aqui. Liga alhos com bugalhos! Porra! O Franklin não está falando desse assunto. Putz, como isso me irrita.

  7. Bruno
    05/08/2014 at 20:07

    Particularmente não sei porque você ainda lê, ou critica esses caras. Me parece que não há mais direita há muito tempo. Esses caras só convencem gente que nunca leu nada na vida ou gente completamente biruta. Eles nem teoria tem mais.

    • 05/08/2014 at 20:18

      Bruno não sou eu quem escolhe os temas desse blog, é meu daimon. Tenho apenas que obedecê-lo. Nessa parte, ele apenas faz algo que é aplicar a filosofia ao jornalismo cultural, crítica da ideologia, comentário cotidiano. Nos livros, mando um pouco mais. Mas, ainda assim, é meu daimon que também decide tudo. Caso queira filosofia hard: Introdução à filosofia de Donald Davidson (Multifoco).

    • LMC
      07/08/2014 at 10:39

      Tinha a mesma questão do
      Bruno e você respondeu,PG.
      Grato.

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